segunda-feira, 29 de setembro de 2014

As Religiões no Rio: uma pesquisa pioneira

As Religiões no Rio. Versão da Editora Nova Aguillar, 1976.

Rio de Janeiro, início do século 20. A então capital federal, com pouco mais de 811 mil habitantes, surpreende-se com a publicação de uma série de reportagens intitulada As Religiões no Rio, do jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio.  Mas porque o espanto? Vamos por partes. O Estado estava separado da Igreja desde 1891, mas, tradicionalmente, a religião dominante era o catolicismo, que tinha a preferência da população.

"O Rio, como todas as cidades nestes tempos de irreverência, tem em cada rua um templo e em cada homem uma crença diversa" (As Religiões no Rio, João do Rio).

Percorrendo várias ruas da cidade, colhendo os mais variados relatos e usando uma pitada de ironia, João produziu um dos mais completos relatórios sobre a pluralidade religiosa do Brasil. João era o tipo de autor que estava à frente de seu tempo, mostrando a realidade e as transformações pela qual passava a sociedade. O número de religiões espantou as autoridades e a população da época, que acreditavam na hegemonia católica.

"Ao ler os grandes diários, imagina a gente que está num pais essencialmente católico, onde alguns matemáticos são positivistas. Entretanto, a cidade pulula de religiões" (As Religiões no Rio, João do Rio).

Logo na introdução das reportagens, que são de 1904 (publicadas na Gazeta de Notícias) e que foram transformadas em livro em 1906, o autor nos diz, em síntese, que basta interrogar uma pessoa na esquina para saber a sua crença, e que a revelação é impressionante.

"A diversidade dos cultos espantar-vos-á. São swendeborgeanos, pagãos literários, fisiólatras, defensores de dogmas exóticos, autores de reformas da Vida, reveladores do Futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de Sabá, judeus, cismáticos, espíritas, babalaôs de Lagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as crenças, todas as forças do Susto" (As Religiões no Rio, João do Rio).

Entrevistando protestantes, cartomantes, espíritas, exorcistas, judeus e pais de santo, João do Rio tornou-se um dos pioneiros na pesquisa sobre as religiões do Rio de Janeiro. De 1906 a 1910, foram vendidos 8 mil exemplares do livro que, sem dúvida, foi um dos marcos para o reconhecimento da diversidade religiosa brasileira. Os primeiro resultado surgiu mais de 30 anos depois da publicação da obra: em 1940, foi realizado o primeiro censo sobre as religiões brasileiras.

O livro está disponível no Domínio Público: http://www.dominiopublico.gov.br/



CRÉDITO DA IMAGEM: www.bn.br

sábado, 27 de setembro de 2014

O Brasil e o Holocausto: o posicionamento da diplomacia brasileira

Campo de concentração de Auschwitz  II (Birkenau), 1943.

A 3° edição da revista História em Foco, de 2014, traz uma série de textos sobre o Holocausto. Além do genocídio nazista, também é abordado o Holocausto brasileiro, quando cerca de 60.000 pacientes morreram no hospício de Barbacena, em Minas Gerais. Abaixo, irei transcrever o texto O Brasil e o Holocausto: Posicionamento da diplomacia brasileira dificultou a entrada de judeus refugiados.

O Holocausto foi responsável pela fuga de milhões de judeus que moravam na Europa, principalmente em países ocupados pelo regime nazista, como Alemanha, Polônia e Áustria. O Brasil foi o destino escolhido por muitos deles, embora o governo na época impusesse diversas restrições à entrada a fim de impedir a entrada.

De acordo com a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, a partir de 1930, a imigração judaica cada vez mais era encarada como um problema para o governo do então presidente Getúlio Vargas, que chegou a classifica-la como indesejável. "A partir de 1937, durante o regime autoritário e nacionalista que caracterizou o Estado Novo, o controle imigratório tornou-se seletivo e, inclusive, racista", ressalta.

"O Estado interferiu no processo civilizatório brasileiro, valendo-se do conhecimento de intelectuais, médicos, antropólogos, bacharéis, escritores, artistas e técnicos, dentre outros profissionais. Estes, enquanto adeptos de um pensamento intolerante e eugenista, foram convocados para opinar acerca dos focos de enfermidades que assolavam a cidade e o campo", explica a professora. Com essa análise, grupos indesejáveis, como judeus, negros, japoneses e ciganos eram considerados parasitários pelo governo.

Mesmo com a participação brasileira na Conferência de Evian (1938), em que foi tratada a questão imigratória dos judeus, o país não cumpriu seu compromisso em ajudar os refugiados, mantendo secretamente sua política restritiva. "A partir de 1941, com Francisco Campos à frente do Ministério da Justiça, o discurso e as ações antissemitas fecharam ainda mais o círculo contra os judeus expressando a conivência do governo com as práticas genocidas praticadas pelos nazistas. Em vez de salvar, o Brasil fechou as portas para os judeus até 1948", esclarece Maria Luiza.

Para sair da Alemanha, os judeus poderiam carregar consigo somente nove Marcos Alemães e carregar o mínimo de roupas e objetos. Isso porque todos os seus bens eram confiscados pelo governo nazista. Quem entrasse no Brasil com visto de turista tinha uma situação mais delicada, pois não podia portar muita bagagem e comprovar seu retorno ao país de origem apresentando passagem de ida e volta.

A professora lembra que os refugiados sobreviviam graças à ajuda de outros judeus que moravam no Brasil. "O governo nunca ajudou os judeus refugiados, mesmo sabendo das perseguições e dos riscos de vida que haviam sofrido na Alemanha e países ocupados. Os judeus foram ajudados por sua comunidade radicada no país desde o século XIX".



CRÉDITO DA IMAGEM: www.historiadigital.org

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Manaus, sua origem: As impressões de Alfred Russel Wallace sobre a Vila da Barra do Rio Negro

Vila da Barra do Rio Negro em 1848.

Alfred Russel Wallace foi um dos mais importantes naturalistas do século 19. Após conhecer o entomologista Henry Walter Bates, decidiu empreender uma série de viagens por regiões tropicais, para estudar sua fauna e a flora, além de lançar os fundamentos da Teoria da Evolução das Espécies. Os dois amigos partiram de Liverpool, em 27 de abril de 1848, em um pequeno navio, rumo à foz do rio Amazonas, nela chegando em 26 de maio do mesmo ano. Sobre a vila da Barra do Rio Negro (atual Manaus), Russel deixou preciosas anotações sobre a localização, atividades econômicas e costumes dos habitantes.

Sobre a localização da vila, ele nos informa que ela "está situada na margem leste daquele rio (Negro), cerca de doze milhas acima de sua junção com o Amazonas. E está localizada em um terreno desigual repleto de ondulações, cerca de trinta pés acima do nível das mais altas cheias, e é cortada por dois córregos, cujas águas, na estação chuvosa, atingem a considerável altura, havendo, porém, sobre eles duas pontes de madeira"

As ruas vão ser motivo de reclamação para os futuros viajantes. Para Wallace, "elas são regularmente traçadas; não têm, no entanto, nenhum calçamento, sendo muito onduladas e cheias de buracos, o que torna a caminhada sobre os seus leitos muito desagradável, principalmente à noite".

As casas são simples "geralmente só tem um pavimento; são cobertas de telha vermelha e assoalhadas com tijolos, têm as paredes pintadas de branco ou de amarelo; e as portas e janelas pintadas de verde. Quando o sol bate sobre elas, o efeito é muito bonito."

Do Forte de São José da Barra, núcleo de origem da cidade, erguido em 1669, "só há, presentemente, uns restos de muralhas e um monte de terra".

Existiam duas igrejas católicas na localidade, a dos Remédios e a de Nossa Senhora das Graças. "Muito pobres e bastante inferiores à de Santarém". Manaus não possuía construções imponentes, situação que só iria mudar mais de 30 anos depois, graças a economia da borracha.

Existiam entre 5.000 e 6.000 habitantes, dos quais "a maior parte é constituída de índios e mestiços. Na verdade, não há ali uma única pessoa, nascida no lugar, da qual se diga que seja de puro sangue europeu, tanto e tão completamente se teêm os portugueses amalgamado (mesclado, misturado) com os índios".

Os comércio era baseado na exportação de castanhas, peixes e drogas do sertão, e as importações "são tecidos europeus, de inferior qualidade, cutilaria ordinária, colares, espelhos e outras bugigangas mais". Esses objetos de menor valor eram utilizados no comércio com os indígenas.

gêneros de primeira necessidade, ou produtos mais sofisticados como queijos, vinhos e trigo, "são sempre muito caros e, por vezes, não se pode obtê-los, quando chegam a faltar". 

"Os habitantes mais civilizados da Barra dedicam-se todos ao comércio, não havendo ali qualquer outra diversão, se assim podemos considerar, que não seja a de beber e jogar em pequena escala".

Além disso, hábitos cosmopolitas faziam parte dos costumes locais. "Aos domingos, principalmente, todos trajam as suas melhores roupas. As mulheres vestem-se elegantemente, exibindo lindos vestidos, confeccionados com gazes e musselinas francesas". Os homens deixam os afazeres nos armazéns e "trajam nesse dia bonitos ternos escuros, chapéu de castor, gravata de cetim e finíssimos sapatos de pelica".

O principal passatempo do dia era fazer visitar uns às casas dos outros , "para palestrar, tendo como assunto principal da conversação os escândalos, que se acumularam durante a semana".

Wallace fez uma conclusão que ficou famosa que passou a ser reproduzida em vários livros de História do Amazonas: "os sentimentos morais em Barra estão reduzidos ao mais baixo grau de decadência possível, mais do que qualquer outra comunidade civilizada". Apesar de ser um exímio naturalista, Russel tinha uma visão Eurocêntrica de mundo.



FONTE: WALLACE, Alfred Russel. Viagem pelo Amazonas e Rio Negro. Edição Brasilianas. Série 2°, vol. 158. 1939.


CRÉDITO DA IMAGEM: catadordepapeis.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O monstruoso crime que chocou Manaus: o Caso Delmo (I)

Cruz no local do crime. O Jornal, 6 de julho de 1952.

Manaus, 5 de fevereiro de 1952 - O assassinato com requintes de crueldade do jovem Delmo Campelo Pereira parou a cidade, e foi notícia nos rádios e revistas da época, como O Cruzeiro, que dedicou duas matérias sobre o fato. Nos dias de hoje, somos bombardeados por várias notícias de crimes insanos e cruéis, o que acaba se tornando parte do nosso "cotidiano". Mas, em uma cidade calma e tranquila como a Manaus do início da década de 1950, o "Caso Delmo", como ficou conhecido o delito, foi assustador, pois além da gravidade, o número de culpados também era algo jamais visto antes: 27 réus. 

Todo esse caos foi consequência de uma série de crimes cometidos por Delmo em 31 de janeiro de 1952. Para maior entendimento, serão reproduzidas abaixo matérias publicadas nos jornais O Jornal e Diário da Tarde, os de maior circulação na época. Esses jornais estão disponíveis no livro Caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus, do escritor Durango Duarte. São muitos textos e , por isso, a postagem vai ficar dividida em diferentes partes.


DIÁRIO DA TARDE - 31 DE JANEIRO DE 1952 (QUINTA-FEIRA)

MONSTRUOSO CRIME

Manaus foi despertada, hoje, com a triste notícia do aparecimento, na estrada de Campos Sales, do cadáver de um homem, preso a uma cerca de arame farpado, varado de balas. Mais tarde, a população tomou conhecimento de uma agressão da qual foi vítima, na madrugada de hoje, o vigia da Serraria Pereira, situada no bairro da Colônia Oliveira Machado.

Ligando um crime ao outro, a Polícia entrou em ação, apurando que cerca de uma hora da madrugada bateram à porta do vigia. Ao abrir, surgiu-lhe pela frente o jovem Delmo Pereira, filho de Roberto Pereira, o qual se fazia acompanhar de mais dois companheiros. Os três, inexplicavelmente, passaram a agredi-lo, aplicando-lhe pancadas na cabeça. Perdendo os sentidos, caiu ao solo.


EM CAMPOS SALES AS AUTORIDADES POLICIAIS

Sabedora com detalhes da agressão ao vigia da Serraria Pereira, a Polícia dirigiu-se à estrada de Campos Sales em companhia do médico legista, Dr. Hosannah da Silva. Espetáculo impressionante deparou-se aos membros da diligência, à altura do km 9 da referida estrada, onde se encontrava, atirado a uma cerca de arame farpado, o corpo de um homem, o qual foi trazido imediatamente para o necrotério do Cemitério São João Batista, a fim de ser procedido o exame cadavérico.


APRESENTOU-SE UM DOS CRIMINOSOS

Perto das 10h, apresentou-se à Chefatura de Polícia o jovem Delmo, filho de Roberto Pereira, amazonense, o qual passou logo a ser interrogado na presença de José Milton Caminha, do delegado auxiliar Otoniel Maia, do delegado especial de Investigações e Capturas, do comissário Francisco Azevedo e do escrivão Adolfo Pires Neto.

A princípio, Delmo relutou em confessar o assassinato do chofer Honório, admitindo somente ter sido um dos autores da agressão do vigia da Serraria Pereira. Mais tarde, porém, perto das 13h30, Delmo confessou o crime, fazendo o seguinte relato:

Pela madrugada de hoje, quando se dirigia para o bairro da Colônia Oliveira Machado, Delmo encontrou-se no caminho com mais dois rapazes e a eles perguntou para onde se dirigiam. Os mesmos responderam que iam para a Serraria Pereira atrás de dinheiro, pois, precisavam se divertir e e estavam sem nenhum tostão.

Delmo, então, se prontificou a acompanhá-los, justificando o mesmo que era filho do dono da serraria e que, por isso, conhecia o vigia que se encontrava de serviço.  E lá chegando, o vigia, ao avistar Delmo, correu para abraçá-lo, tendo então os seus companheiros dado as primeiras pancadas na cabeça do vigia, que caiu ao solo em estado de choque.

Supondo terem morto a sua vítima, os três rumaram para a estrada de Flores, indo até o botequim "Ângelo", não se esquecendo, no entanto, de levar o revólver que portava o vigia agredido na hora que fora atacado. Chegando ao "Ângelo" e, como não encontrassem ambiente propício para a farra projetada, partiram em direção a Campos Sales, percurso esse todo feito no carro praça n. 279, guiado pelo profissional José Honório, da Garagem Avenida.


MOTIVOS DA AGRESSÃO DO CHOFER

Talvez, levados pelo temor de serem descobertos, pelo chofer, do ato que haviam praticado, pois que tomaram o carro logo após terem agredido o vigia, ao mesmo também resolveram liquidar, aplicando, logo de início, forte pancada na cabeça depois do que, já fora do carro o chofer, descarregaram por duas vezes o revólver, tendo uma das balas atingido a cabeça e a outra, penetrou na omaplata esquerda, saindo no peito.


QUEM SÃO AS VÍTIMAS?

O vigia da Serraria Pereira, agredido covardemente por Delmo Pereira e seus companheiros, é o cidadão Antônio Firmino da Silva, casado, amazonense, com 65 anos  de idade. O chofer assassinado chama-se José Honório, casado, amazonense, residente à avenida Floriano Peixoto. Até às 15h, o vigia Antônio Firmino da Silva encontrava-se em estado de choque.


DELMO PEREIRA ESCONDE ALGO

Delmo Pereira, malgrado os esforços das autoridades policiais, continua guardando sigilo absoluto em torno da identidade dos seus dois companheiros. Diz conhecer apenas um, de nome Raimundo. Quanto ao outro, afirma não conhecer. Ao que parece, todavia, tenebroso mistério envolve o depoimento de Delmo Pereira.


QUEM ENCONTROU O CADÁVER?

O cadáver de José Honório foi encontrado no km 9 da estrada de Campos Sales pelo chofer José Rodrigues da Rocha, do caminhão n. 885, o qual passou pelo local às primeiras horas da manhã de hoje, rumo ao km 40 da referida estrada.


OUTRA VERSÃO

Outra versão chegou ao conhecimento da reportagem do nosso Diário a respeito da presença de Delmo Pereira e seus companheiros na Serraria Pereira. Segundo essa versão, Delmo teria se dirigido à serraria com o propósito de roubar, sendo impedido pelo vigia Antônio Firmino da Silva. Delmo e seus dois cúmplices passaram, então, a agredi-lo. Informaram-nos, que a agressão foi presenciada pelo chofer José Honório, pelo que Delmo arquitetou matá-lo, já que era testemunha do fato.


A RECONSTITUIÇÃO DO CRIME

A hora em que estiver circulando a presente edição do Diário da Tarde, Delmo Pereira estará reconstituindo o bárbaro crime, na estrada de Campos Sales, para onde se dirigirão, às 15h30, as autoridades policiais.



CRÉDITO DA IMAGEM: http://catadordepapeis.blogspot.com.br/


As divisões da democracia ateniense



A democracia ateniense tinha o poder dividido em três instituições: a Eclésia, a Bulé e a Heleia. Todos os cidadãos (com exceção das mulheres, crianças, estrangeiros e escravos) decidiam os rumos da vida na Pólis. Dessa forma, não existia um governante único.

Eclésia (Assembleia do Povo): a cada dez dias, os cidadãos de Atenas se reuniam para debater os problemas da pólis, propor e votar novas leis. Essas reuniões constituíam a Eclésia. Para participar dela bastava ser cidadão ateniense do sexo masculino e ter mais de 20 anos. Todo cidadão tinha o direito de pedir a palavra para expor seus argumentos, como propostas de guerra e paz, impostos, obras públicas, etc. Além de cumprir essas funções, a Eclésia elegia os magistrados, pessoas responsáveis por executar as tarefas do governo da cidade. O cargo da magistratura de maior prestigio era o de estratego, comandante do exército e dirigente político.

Bulé (Conselho dos Quinhentos): era um Conselho de Estado formado por quinhentos cidadãos maiores de 30 anos. Os integrantes eram escolhidos por sorteio anualmente. Os membros propunham leis e as encaminhavam para votação pela Eclésia. Questões religiosas e de ordem também eram suas responsabilidades.

Heleia: Tribunal encarregado de aplicar a justiça. Era formado por 6 mil cidadãos com mais de 30 anos. Seus membros eram escolhidos por sorteios anualmente.



FONTE: AZEVEDO, Gislane; SERIACOPI, Reinaldo. História: da Pré-História à Antiguidade. São Paulo: Ática, 2012. - (Projeto Teláris: História)


CRÉDITO DA IMAGEM: http://democraciahistorica.blogspot.com.br/

domingo, 21 de setembro de 2014

Os aldeamentos da América colonial

Redução guarani na segunda metade do século 18. Desenho de Florian Paucke.

Os aldeamentos eram agrupamentos indígenas organizados e chefiados por jesuítas que visavam facilitar o processo de catequização dos nativos. Essas reuniões eram conhecidas como missões, na América portuguesa, ou reduções, na América espanhola. No texto abaixo, ficam explicitados os mecanismos de propagação da religião católica, o funcionamento dos aldeamentos, os funcionários e a localização das reuniões de Norte a Sul do país.

" Para efetivar o seu trabalho de catequese, os jesuítas reuniam indígenas em aldeamentos conhecidos como missões (na América portuguesa) ou reduções (na América espanhola).

A conversão seguia um plano bastante simples: primeiro, o padre ingressava na aldeia indígena, aprendia sua língua e os costumes, falava de Cristo e iniciava a educação católica, principalmente por intermédio das crianças, com cânticos, missas, teatros e jogos (agindo assim, criava no catequizado a impressão de que não havia diferença entre os seus deuses e o deus dos europeus); depois, quando os indígenas já estavam convertidos, eram afastados dos demais e levados para os aldeamentos.

Ali, as regras eram bastante rígidas. Todos estavam subordinados ao cura ou reitor, um jesuíta que administrava toda a comunidade. Além de os índios terem de abandonar muitos de seus costumes, deveriam andar vestidos, não fazer mais festas pagãs, deixar de ser polígamos e aprender música, canto e ofícios característicos das civilizações europeias. A vida num aldeamento era (...) mais que uma catequese; era a passagem de uma cultura para a outra.

A estrutura de uma missão incluía um corregedor (que exercia as funções de juiz), dois alcaides (governadores), um alcaide-de-campo (administrador dos campos, quatro regedores (administradores), um aguazil-mor (oficial de diligências, um procurador (advogado) e um secretário (encarregado dos livros).

As missões eram fechadas aos estrangeiros, e as famílias indígenas ficavam sujeitas ao direito de vassalagem. Cada chefe de família era senhor de um lote de terra de onde tirava seu sustento. Cada aldeamento possuía dois lotes maiores de terra cultivados por todos - em épocas preestabelecidas - em benefício da comunidade. Os produtos desses lotes eram recolhidos  ao celeiro comum para sustento dos inválidos, enfermos, viúvas, órfãos e abandonados. O excedente da produção era vendido para o sustento do próprio aldeamento, mas o comércio acabou por quebrar a rigidez do isolamento.

Os castigos, aplicados em quem descumprisse as leis, variavam desde o açoite à prisão, podendo ainda o infrator ser banido do aldeamento.

(...) o regime era similar entre os jesuítas espanhóis e os portugueses.

O grande número de aldeamentos espanhóis e portugueses no interior do continente, em especial nas regiões do Tape (Rio Grande do Sul), Itatim (Mato Grosso) e Guairá (Paraná), mereceu (...) atenção dos habitantes das antigas capitanias de São Vicente e Santo André, que se sentiram ameaçados política e economicamente com o crescente poderio dos jesuítas, além de estarem interessados na captura de índios já aculturados - e (...) mais dóceis - para servirem como escravos. Houve também aldeamentos no Norte do Brasil, nos quais os indígenas catequizados dedicaram-se à lucrativa extração de frutos da floresta conhecidos como "drogas do sertão". (...) aquele empreendimento era tão bem administrado que vencia a concorrência da Companhia de Comércio portuguesa local.

No Brasil do século XVII, os aldeamentos foram destruídos pela ação dos bandeirantes; no século seguinte, a destruição aconteceu por ordens do governo de Portugal.


FONTE: RIBEIRO, Regina Helena de Araújo; LOCONTE, Wanderley. Bandeirantes: buscando riquezas, desbravando o sertão. São Paulo: Saraiva, 2004. - (Coleção Por Dentro da História).


CRÉDITO DA IMAGEM: commons.wikimedia.org




Heil Hitler: uma célula nazista em Belém do Pará



A desconhecida história de um célula nazista que chegou a instalar um Tribunal da terrível polícia secreta de Hilter - a Guestapo. em Belém do Pará.

Os registros das operações de nazistas na capital eram conhecidos pelos serviços de informações e podem indicar que os o Terceiro Reich tinha projetos ambiciosos para a Amazônia...

A narração das atividades dos nazistas instalados em Belém foi revelada pelo jornal O Estado do Pará em 04 de outubro de 1942, repercutindo em jornais de todo o Brasil como " A Noite".


O material foi apreendido depois do fechamento do partido nazista em Belém. Além do material de propaganda, foram apreendidos memorandos e uma ata sobre um julgamento.

Alguns alemães acabaram detidos no mesmo campo de prisioneiros que ficaram os japoneses, próximo a Belém, mas a história dessa célula nazista, do que planejavam para a região, e o que restou após a segunda guerra, nunca foi muito bem explicada.



Fonte: Blog da Fau/UFPa; Jornal Estado do Pará; Jornal A Noite

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O que é fundamentalismo?



Nos apreensivos dias que passamos a viver após os atentados terroristas ao World Trade Center, ao lado da palavra terrorismo, que entendemos bem, comparece insistentemente nos noticiários da TV e nas páginas dos jornais esta outra - fundamentalismo - cujo significado muitos desconhecem e à primeira vista parece ligado diretamente ao islã. [...] O que é fundamentalismo, afinal? Tem a ver com religião? Qual religião?

O termo nasceu, sim, em contexto religioso. De fato, sua origem é cristã, não islâmica [...] Como figura histórica original, o fundamentalismo é cristão, ocidental e protestante. Mais especificamente, filho do protestantismo conservador do sul dos Estados Unidos. O estado do Tennessee é seu ícone geográfico.

Designação fortemente pejorativa hoje em dia, é curioso como a palavra inglesa fundamentalism foi, de início, um nome orgulhosamente auto-aplicado por seus próprios portadores para se distinguir dos protestantes "liberais", deturpadores da "verdadeira" fé cristã revelada na Bíblia. Uma autodesignação orgulhosa de si e não, como hoje soa, uma acusação que a faz sinônimo de morbidez fanática, um insulto dirigido a terceiros demarcando uma alteridade. [...]

Para que haja fundamentalismo numa religião é necessário [...] que haja uma escritura divinamente revelada ou assistida, de preferência por um Deus único. Como atitude e estrutura de pensamento, o fundamentalismo é monoteísta de berço e constituição. Em seu DNA estão inscritos dois traços distintivos básicos: o apego literal à Bíblia e o monoteísmo.

Noutras palavras, fundamentalista é quem se apega à letra da palavra revelada como sendo a única verdade, quem nutre a convicção de que o texto escriturístico está livre de erros humanos, e só a interpretação literal tem cabimento e validade. [...] Antes de ser fundamentalista é preciso ser monoteísta. O muçulmano pode ser fundamentalista, o judeu, o protestante, até mesmo o católico. Já o hindu ou o taoísta, dificilmente. Para o adepto do candomblé ou da umbanda, religiões sem livro sagrado, é impossível ser fundamentalista.

Fundamentalismos são fenômenos típicos das religiões monoteístas. Que são três, todas originárias do Oriente Médio, as chamadas religiões abraâmicas: judaísmo, cristianismo e islã. Não é por acaso que o islã as denomina, todas as três, "religiões do Livro". É por isso que, quando se deixa de lado como traço essencial do fundamentalismo o monoteísmo escriturístico - que supõe que a verdade, assim como a divindade, é uma só, a verdade é una, não havendo nem podendo haver outras verdades além dela -, deixa-se de compreender muito de sua força e de seu significado no mundo contemporâneo. Religiões politeístas e panteístas não podem ser fundamentalistas, não conseguem sê-lo.



FONTE: Antônio Flávio Pierucci, Criacionismo é fundamentalismo. O que é fundamentalismo? Disponível em: http://www.comciencia.br/200407/reportagens/12.shtml . Acesso em: 19/09/2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: livrespensadores.net 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Postagens comemorativas

Vista da cidade de Manaus*.

Faltando pouco mais de um mês para o aniversário de Manaus (24 de outubro), irei começar uma série uma série de postagens que irão abordar a História da cidade dos primórdios até os dias de hoje. Os textos levaram o título Manaus, sua origem, e claro, o nome de cada assunto abordado, mais o algarismo romano para indicar o número da postagem. Ex: Manaus, sua origem: os primórdios (I). Vocês verão os primórdios da colonização, que começa na zona Oeste da cidade, no atual bairro do Tarumã; os principais ciclos econômicos; a história do bairros, enfim... todos os aspectos que, juntos, formam a História de 345 anos da cidade.

* Manaus impressionava os que chegavam ao Norte do Brasil, região pouco conhecida e que despertava a curiosidade de viajantes dos quatro cantos do mundo. Isso ainda ocorre nos dias de hoje, pois poucos acreditam quando se fala em uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes, localizada em plena floresta amazônica.

domingo, 14 de setembro de 2014

A vida nas antigas cidades árabes

A Grande Mesquita de Kairouan, na Tunísia.

Os camponeses árabes produziam o necessário para a sua sobrevivência. Mas, quando surgiam outras necessidades de consumo, estes trocavam parte da produção que excedia por produtos manufaturados ou outros tipos de alimentos. As negociações eram feitas em feiras regulares, que aconteciam uma vez por semana ou por ano.

Com o passar do tempo, essas feiras tornaram-se pequenos vilarejos, lugares fixos onde se encontravam pequenos mercadores e artesãos. Quem controlava esses locais eram chefes tribais, que constantemente entrava em conflito pela posse do território.

Além desses pontos de encontro, existiam locais que eram pontos de complexas e intensas trocas comerciais. Alepo, no norte da Síria, por exemplo, era local de encontro para os que vendiam ou compravam cereais das planícies sírias interiores, a produção das árvores frutíferas e florestas dos morros ao norte, carneiros criados nos morros e camelos nas vastidões do deserto da Síria (HOURANI, 1991, p. 120-121). Geralmente, localizavam-se perto do mar, rio, ou rotas do deserto que a ligavam a outros vilarejos.

Aos poucos, surgiam grandes cidades nos domínios islâmicos: Córdoba, Sevilha e Granada em Andalus, Fez e Marrakesh no Marrocos, Kairuan e depois Túnis na Tunísia, Fustat e depois Cairo no Egito, Damasco e Alepo na Síria, Meca e Medina na Arábia Ocidental, Bagdá, Mosul e Basra no Iraque, e além delas as cidades do Irã, Transoxiana e norte da Índia (HOURANI, 1991, p. 121).

Muitas dessas cidades eram maiores que as do mundo ocidental, ultrapassando cifras de 250 mil habitantes, enquanto cidades como Paris, Florença e Veneza não ultrapassavam os 100 mil. Os componentes sociais que formavam as camadas urbanas eram os grandes mercadores, negociantes de produtos altamente valiosos como porcelanas e especiarias; lojistas e artesãos, donos de oficinas, perfumarias e ourivesarias; e varredores de rua, ambulantes e proletários semi-empregados.

Para controlar a vida das cidades, existia a Charia, o direito islâmico, no qual religião e direito andavam lado a lado. Com base nos ensinamentos do Alcorão, a Charia era responsável por todos os aspectos da vida cotidiana, como o comércio, política, economia, conduta, sexualidade, etc. O poder era e continua sendo representado pelos Ulemá, sábios religiosos que cumprem a função de autoridade e detêm conhecimentos em filosofia, teologia e hermenêutica alcorânica.



FONTE: HOURANI, Albert Habib. Uma história dos povos árabes. 1991, Companhia de Bolso: São Paulo.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.arabesq.com.br/



sábado, 13 de setembro de 2014

A participação das mulheres na Independência da América Latina



Os textos mais acessados no História Inteligente são os que se referem à participação das mulheres em importantes fatos históricos, como por exemplo: a Revolução Francesa, as duas grandes guerras, etc. Isso se explica pelo fato que, a História da mulher, pouco abordada ou ignorada pela historiografia tradicional, é uma lacuna que está sendo preenchida aos poucos.

Durante o processo de Independência da América Latina, a mulher teve grande importância para a consolidação do processo. Sua participação é relatada em biografias e romances escritos por autores pouco valorizados ou desconhecidos. No exército, as mulheres, acompanhando seus filhos e maridos, serviam como costureiras, lavadeiras e cozinheiras.

Um fato recorrente nos textos antigos é a presença de mulheres que se disfarçavam de soldado e lutavam pelo fim da dominação estrangeira. No Brasil, o maior exemplo que temos de guerreira é a jovem baiana Maria Quitéria, que lutou bravamente como soldado na Guerra da Independência. Terminado o conflito, foi condecorada por Dom Pedro I com a ordem do Cruzeiro e promovida a alferes.

Os exemplos abaixo foram retirados do livro A América Latina no século XIX: Tramas, Telas e textos, da historiadora Maria Ligia Coelho Prado, especialista em História da América Latina; e são de mulheres que atuaram como soldados, mensageiras e financiadoras dos insurgentes.

Manuela Pedraza, conhecida por La Tucumana, lutou ao lado do marido contra a invasão inglesa de Buenos Aires, em 1806, recebendo o grau de tenente. Maria Remedio del Valle, portenha, fazia parte dos exércitos de San Martín no Peru e participou de muitas batalhas. Na decisiva batalha de Boyacá, em 1819, Evangelista Tamayo, natural de Tunja, lutou sob as ordens de Bolívar, morrendo em 1821, com a patente de capitão (p. 37).

Juana Azurduy de Padilla, nascida em Chuquisaca (Sucre), em 1780, liderava com o marido, homem de posses e dono de fazendas, um grupo de guerrilheiros (...). Participou de 23 ações armadas, algumas sob seu comando, perdendo ao ao longo desses embates todos os seus bens (p. 37).

Nem todas as mulheres que participavam desse processo vinham de famílias abastadas. Algumas, mestiças e de origem mais simples, atuavam como mensageiras e oradoras. Várias delas foram descobertas, sendo que algumas sofreram castigos e outras foram condenadas à morte.

Em Nova Granada, Policarpa Salavarrieta, La Pola, (...) levava informações sobre os realistas aos rebeldes armados. De família simples, trabalhava como costureira. Nascida na pequena cidade de Guaduas, desde muito jovem tomou o partido dos insurrectos (...) Presa e julgada, foi condenada à morte, juntamente com outros oito homens, entre eles seu noivo. O fuzilamento ocorreu na praça principal de Bogotá, no dia 14 de novembro de 1817 (p. 40).

Juana Mora de López, de Salta, que levava informes aos rebeldes; ficou conhecida como La Emparedada, porque os realistas a condenaram a morrer de fome em sua casa, cujas portas e janelas foram lacradas; entretanto, os vizinhos derrubaram a parede que dividia as casas, e ela se salvou (p. 41).

Cornelia Olivares, nascida em Chilán, sul do Chile, destacou-se por ter grande habilidade em oratória, fazendo discursos sobre a liberdade em vários salões e também em praça pública (...) Acabou sendo presa. Na prisão, teve a cabeça raspada e, como castigo maior, foi assim exposta "à vergonha pública", na praça principal de Chilán (p. 42).

Esses foram apenas alguns exemplos das mulheres que lutaram e se sacrificaram pela independência da América Latina. Atraídas pelo movimento insurgente, romperam com a ordem vigente da época,  mostrando sua sensibilidade política, servindo como soldados, mensageiras, oradoras e financiadoras. Conclui-se que sua participação foi expressiva e de total importância para que a América se tornasse livre; e que a História da mulher, assim como outras, é uma lacuna que está sendo preenchida aos poucos.



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domingo, 7 de setembro de 2014

Fim da Monarquia no Brasil: os fatores que levaram a queda do Império



A Monarquia vigorou no Brasil de 1822 a 1889, datas, respectivamente, da Independência frente à Portugal e da Proclamação da República. Durante esse regime, o país ficou marcado pelo surgimento de ciclos econômicos, imigração em massa, conflitos internos e guerras com nações vizinhas (Guerra do Prata, Guerra do Uruguai e Guerra do Paraguai).

O Império do Brasil, a partir de 1870, passou a entrar em conflito com diferentes setores da sociedade (Exército, Igreja e proprietários de escravos). Além desses fatores, existia o movimento republicano, ativo no país desde o final do século 18, quando explodiram movimentos como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana.

A Escravidão


A abolição da escravidão abalou as relações entre o Império e os proprietários de escravos. Em 1871, o governo a Lei do Ventre Livre, que considerava livres todos os filhos de escravas nascidos a partir da data da lei. Poderiam ficar aos cuidados dos senhores até os 21 anos de idade ou entregues ao governo. Em 1885 foi instituída a Lei dos Sexagenários, pela qual todos os escravos com mais de 65 anos ficavam livres.

Em 1888, com a Abolição da Escravidão, houve o rompimento definitivo entre os senhores de escravos e o governo Imperial. A partir de então, muitos grupos escravistas passaram a apoiar a causa republicana.


Movimento Republicano

Como já foi dito no início ,as ideias republicanas já faziam parte de vários movimentos desde o século 18. Mas só foi a partir de 1870 (com o fim da Guerra do Paraguai) que o movimento republicano estruturou-se de forma concreta.

Nesse ano, líderes republicanos do Rio de Janeiro lançaram o Manifesto Republicano, que num de seus trechos declarava: Somos da América e queremos ser americanos. Era uma referência ao fato de o Brasil ser o único país que mantinha o regime monárquico no continente americano.

Em 1873 foi fundado o Partido Republicano Paulista, na Convenção de Itu, em São Paulo. Esse partido foi apoiado por importantes fazendeiros de café de São Paulo e logo passou a contar com seguidores no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.


Igreja

Em 1872, D.Vidal e D.Macedo, bispos de Olinda e de Belém, respectivamente, seguindo ordens do Papa Pio IX, que instaurou a bula Syllabus (que proibia relações entre a Igreja e a Maçonaria). puniram religiosos ligados à Maçonaria. D.Pedro II, atendendo a pedidos de grupos maçônicos, solicitou aos bispos que suspendessem as punições. Como eles se recusaram a obedecer ao imperador, foram condenados a quatro anos de prisão e trabalhos forçados.

A punição gerou grande revolta entre os católicos. Para superar a crise, os bispos receberam o perdão imperial em 1875 e foram libertados, mas o episódio abalou definitivamente as relações entre a Igreja e o Imperador.


Exército


Depois da Guerra do Paraguai, o Exército brasileiro foi adquirindo maior força e expressão política dentro da sociedade brasileira. O governo monárquico, no entanto, não se apercebia dessa mudança nem a valorizava, pois até então não precisava desse corpo militar organizado para se manter no poder, pois podia contar com a Guarda Nacional, criada em 1831. Nas decisões políticas, o poder dos civis era enorme em relação ao dos militares.

Parte dos oficiais do Exército não se conformava com a situação e pretendia influir mais ativamente na vida pública, acreditando no patriotismo do Exército como meio para conseguir a "Salvação Nacional". Eles reivindicavam aparelhamento dos quartéis, melhores soldos e etc. Mas os políticos tradicionais do Império mantinham descaso, punindo até mesmo importantes oficiais que tornavam públicas suas denúncias de corrupção no governo ou suas censuras a escravidão.

Foi em meio a essa situação que, em 1884, altos chefes do Exército (como o Marechal Deodoro da Fonseca) revoltaram-se contra as punições aos oficiais que se expressavam publicamente. A partir de 1887, os militares passaram a se organizar fora dos quartéis, nos chamados clubes militares, que se tornaram as bases de um grande movimento de oposição a Monarquia.

Vale lembrar que, o Brasil, por ser a única monarquia da América Latina naquele longínquo 1889, sofria pressão de seus países vizinhos, que adotaram após suas independências o modelo republicano.



FONTES: FARIA, Ricardo Moura de; MIRANDA, Mônica Liz; CAMPOS, Helena Guimarães. Estudos de História. - 1° ed. São Paulo: FTD, 2010.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral. Vol. 2. São Paulo: Saraiva, 2010.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.paulocannizzaro.com.br/

Entre o açúcar e o ouro: a Pecuária

 
Feira de gado. Ilustração de Percy Lau.

A pecuária surgiu como uma atividade intermediária entre a produção de açúcar e a descoberta de ouro nas Minas Gerais. As primeiras cabeças de gado foram introduzidas no Brasil por D. Ana Pimentel, esposa de Martim Afonso de Sousa, que as trouxe das ilhas de Cabo Verde para a Capitania de São Vicente. Tomé de Sousa, governador-geral entre 1548 e 1551, recebeu na Bahia a caravela Galga, abastecida de gado.

Tanto em São Vicente como no Nordeste, esses animais serviam como fonte de alimento, transporte, força de trabalho (principalmente nas moendas) e fornecedores de couro. Em pouco tempo, o gado começou a se espalhar pelo litoral, destruindo canaviais e prejudicando a terra. Para evitar esse problema, foi criada uma lei que proibia a atividade pastoril no litoral. Com isso, as criações foram empurradas para o interior da colônia, o que ocasionou a ocupação de lugares antes desabitados.

O gado rumou para o rio São Francisco, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Maranhão, Tocantins e Paraná. Os Jesuítas trouxeram do Rio da Prata gado para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Toda a produção de carne e de couro era destinada ao abastecimento do mercado interno.

Roberto C. Simonsen, em História econômica do Brasil: 1500-1820 (p. 239) afirma que a mineração produziu uma rápida concentração de populações em zonas pouco férteis, provocando uma grande procura de alimentação e crises terríveis de fome. Como solução, os mineradores de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais passaram a ser abastecidos com reses dos criadores do vale do São Francisco e sertões do Nordeste. 

O gado passou a se consumido em grandes quantidades. Os dados abaixo foram retirados do livro Formação do Brasil Contemporâneo (p. 186), de Caio Prado Júnior, que utilizou como base relatórios e livros escritos entre os séculos 18 e 19.

"Mais de 20.000 bois, chegados de um sertão remoto, eram consumidos anualmente só na cidade da Bahia. Em São Luís do Maranhão, também vindos de longe, abatiam-se 6.000 por ano, em princípios do século passado. Belém do Pará, com 13.000 habitantes apenas, em 1828, consome 11.000 cabeças".

A figura mais importante desse período foi o Tropeiro, viajante que, com sua tropa de mulas, carregadas de mercadorias,  abria estradas e criava um intercâmbio comercial entre o litoral (São Vicente, Salvador, etc) e as vilas e povoados do interior. Além de mercadores, os tropeiros também tinham a função mensageiros, pois os criadores de gado e mineradores estavam isolados das grandes cidades.

Ao longo das estradas, surgiram as feiras, onde os tropeiros, criadores de gado e outros comerciantes compravam e vendiam produtos. Várias cidades surgiram nesses pontos, das quais as principais foram: Feira de Santana, na Bahia, Belo Horizonte (Curral del Rei), Pastos Bons, no Maranhão, Oeiras (Freguesia da Mocha), no Piauí, e Ilha do Gado Bravo, no rio São Francisco.

Incorporado aos hábitos alimentares, misturado com a farinha de mandioca ou em forma de carne de sol, o gado também estimulou o surgimento de manifestações culturais como o Bumba meu boi, surgido nas últimas décadas do século 18, em engenhos e fazendas.



CRÉDITO DA IMAGEM: www.consciencia.org























segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Açúcar que adoça e enriquece

Reprodução de um Engenho de açúcar, no Nordeste, em 1816. Henry Koster.

A cana-de-açúcar foi responsável pelo segundo grande ciclo econômico do Brasil colônia. O açúcar brasileiro, altamente valorizado no mercado internacional, despertou o interesse de países estrangeiros como a Holanda, que dominou o Nordeste, principal área produtora, por 24 anos. O plantio de cana fez o homem fixar-se na terra recém descoberta, que até então era utilizada apenas para fornecer pau-brasil.

O açúcar, originário da Índia, foi levado para a Europa nas caravanas de comerciantes árabes. Antes disso, as pessoas adoçavam seus alimentos e bebidas com mel de abelha. Considerado uma especiaria por causa de seu alto preço, tornou-se um artigo de luxo, que só fazia parte da mesa dos mais afortunados. A popularização do produto só foi possível graças a produção em larga escala na América Portuguesa.

No Velho Mundo, os pioneiros no cultivo da cana foram os portugueses, que implantaram canaviais na Ilha da Madeira e na Ilha de Cabo Verde. Portugal exportou milhares de arrobas de açúcar para vários países, e pretendia também expandir o cultivo do produto para seus outros domínios.

No Brasil, a cana-de-açúcar foi introduzida por Martim Afonso de Souza na Capitania de São Vicente, onde foram instalados os primeiros engenhos. O cultivo logo se expandiu para outras capitanias, fazendo sucesso principalmente em Pernambuco, onde o clima quente e úmido e o solo de massapé ofereciam condições para a produção em larga escala.

Casa Grande, residência do latifundiário e símbolo da riqueza proporcionada pelo açúcar.

O historiador pernambucano Leonardo Dantas Silva, em artigo publicado no blog Besta Fubana (www.bestafubana.com), afirma que o senhor de engenho, aristocrata rural, "era um verdadeiro senhor feudal transplantado da Europa e adaptado às condições dos trópicos". O senhor de engenho era um particular que recebeu terras para o estabelecimento dessa monocultura. Em uma sociedade patriarcal, esse proprietário tinha grande influência sobre a mulher, filhos, escravos, agregados e todos os que viviam em seus domínios. Além de dono do engenho, ele fazia parte das Câmaras Municipais, núcleos administrativos das vilas e povoados. Isso garantia a expansão de sua área de influência.

Instalar um engenho, comprar materiais como moendas, tachos de cobre e embarcações, eram investimentos caros. Para resolver esse problema, aparecerem os holandeses, que em troca do financiamento, exigiam o direito de refinar, transportar e distribuir o produto na Europa. A mão de obra utilizada nos engenhos era predominantemente indígena. No entanto, o nativo costumava fugir ou morrer por causa do trabalho pesado. A solução foi optar pela mão de obra escrava africana. Os escravos, além de servirem com sua força braçal, garantiam bons lucros para os envolvidos no tráfico.

O engenho incluía a Casa Grande, residência do senhor de engenho e sua família; a Senzala, lar dos escravos; a Capela e a casa do engenho. Nesta última, ficava a moenda, as fornalhas e a casa de purgar.

Até que o ouro branco tomasse forma, ele passava por várias etapas. Primeiro, a cana era era cortada e transportada até a moenda (movida por força hidráulica ou animal), onde era triturada; depois, o caldo extraído era cozido na casa das caldeiras até virar melado; na casa de purgar, o melado era colocado em formas cônicas tapadas com barro, e suas impurezas saíam por meio de um orifício localizado na parte inferior do recipiente. Ai ficava até cristalizar, formando os famosos pães de açúcar; Por último, o açúcar cristalizado era quebrado e encaixotado.

Bandeira da Companhia das Índias Ocidentais.

Conforme consta em O Livro de Ouro da História do Brasil, de Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio, a diversidade de ofícios na empresa açucareira era grande: mestres de açúcar, purgadores, caixeiros, calafates, caldeireiros, carpinteiros, pedreiros, barqueiros, entre outros. Nas principais cidades, localizadas no litoral, existiam mercadores, roceiros, artesãos e lavradores de roça de subsistência.

A relação entre holandeses e portugueses se rompeu a partir da União Ibérica (1580-1640). A Holanda, inimiga da Espanha, comandou incursões militares contra o Brasil, com o objetivo de dominar, por meio da Companhia das Índias Ocidentais, o comércio açucareiro. No ano de 1624 ocorreu a posse de Salvador, que durou um ano, e em 1630 eles tomam Pernambuco, controlando quase todo o Nordeste por 24 anos. Durante a administração do conde Maurício de Nassau, a produção de açúcar atingiu se apogeu. Foram melhorados engenhos, cidades e estimuladas as Artes e Ciências. Para garantir o abastecimento de escravos, foram conquistadas possessões portuguesas na África.

O Brasil perdeu o monopólio sobre o açúcar quando os holandeses foram expulsos daqui. A partir de 1645, a Companhia das Índias Ocidentais passou a cobrar o pagamento dos empréstimos feitos aos senhores de engenho. Esse dinheiro era essencial para a Holanda, que lutava contra a Espanha pela independência dos Países Baixos. Quem não pagava, tinha sua propriedade apreendida pelas autoridades holandesas. Os colonos brasileiros começaram a se opor ao domínio holandês e, comandados por Filipe Camarão e Henrique Dias, derrotaram os holandeses nas batalhas das Tabocas e Guararapes. O último confronto foi a batalha da Campina da Taborda, ocorrida em 1654.

Expulsos do Brasil, os holandeses foram cultivar cana nas Antilhas. O produto se adaptou a região, que passou a produzir um açúcar de ótima qualidade e por um preço baixo. Em pouco tempo, a produção Antilhana ultrapassou a produção portuguesa, que começou a entrar em declínio.



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