quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Terrorismo - dos primórdios aos dias de hoje

Mapa dos principais grupos terroristas e seus locais de origem.

Quando se fala em terrorismo, a primeira coisa que vem à nossa mente são os atentados de 11 de setembro e as organizações extremistas fundamentalistas islâmicas Al-Qaeda, ISIS (Estado Islâmico), Hamas e Boko Haram. Além de promoverem barbáries em nome de uma religião, esses grupos terroristas acabam reforçando uma ideia errada que gera preconceito: todo praticante do islamismo é terrorista.

Porém, Terrorismo, palavra derivada do latim terror, ''medo, terror'', e de terrere, ''causar medo'', que significa a imposição de algo por meio do medo (1), não é algo exclusivo dos fundamentalistas islâmicos. Ao longo da História, o terrorismo foi utilizado por diferentes povos para a imposição política, psicológica, religiosa e econômica. No decorrer desse texto, vamos ver exemplos de Terrorismo de Estado, Terrorismo Religioso, Terrorismo Étnico etc. Para não se estender muito, optei por utilizar, para cada período histórico, o exemplo de um ato ou grupo terrorista. 

O Terrorismo foi largamente utilizado pelas civilizações do Mundo Antigo, principalmente em grandes campanhas militares. O Império Romano, por exemplo, praticou o terrorismo na destruição da cidade africana de Cartago, sua principal inimiga nos conflitos que ficaram conhecidos como Guerras Púnicas:

A implacável destruição de Cartago pelos romanos, que não poupou mulheres, velhos e crianças, foi uma forma de utilização da tática de terror com o objetivo de apagar qualquer resquício do inimigo”(2)

Um dos primeiros grupos terroristas de que se tem registro são os Sicarii, extremistas zelotes (hebreus) que utilizavam de violência contra a dominação romana, cometendo seus crimes na cidade de Jerusalém. Sicarii vem do latim sica, uma pequena adaga curva utilizada para cometer assassinatos sorrateiros. Sobre eles, o historiador romano Flávio Josefo (37 d. C. - 100 d.C.) escreveu:

à luz do dia e no centro da cidade, eles assassinavam pessoas; durante as festas, sobretudo, eles se misturavam com a multidão e esfaqueavam seus inimigos usando pequenos punhais que levavam ocultos sob suas vestes” (3)

Na Idade Média, a Igreja Católica, a mais poderosa instituição da época, perpetrou ações terroristas para manter sua hegemonia e impor seus dogmas religiosos. Eram as conhecidas guerras santas, que visavam expandir o Cristianismo para outras regiões. Em 1208, o Vaticano deu início a uma guerra contra o grupo herético dos Cátaros, que atuava na França, Alemanha, Inglaterra e Itália. Esse conflito culminou na morte de milhares de pessoas.

Em 1208, o representante eclesiástico Pierre de Castelnau excomungou um nobre de Toulouse, maior região de Languedoc, onde se concentravam os líderes cátaros. Como vingança, Castelnau foi assassinado. No mesmo ano, o Vaticano deu início a uma guerra santa contra os cátaros e, um ano depois, mais de 7.000 foram mortos” (4)

Saindo da Idade Média, vamos para a Idade Contemporânea. Após a Revolução Francesa (1789), o conceito de Terrorismo é criado, aparecendo pela primeira vez em 1798, no Suplemento do Dicionário da Academia Francesa. Os Jacobinos, grupo mais à esquerda na República francesa, conseguiram, por meio de uma aliança com a facção La Montagne e os Sans-cullotes, eliminar os Girondinos, opositores favoráveis a Monarquia Constitucional, em perseguições e execuções que ficaram conhecidas como Período do Terror (1793-1794). Vale lembrar que até alguns dos antigos líderes da revolução foram executados pelos Jacobinos. Danton foi um deles.

Em pouco tempo, a Revolução Francesa abandonou suas belas palavras de ordem e entrou no período chamado de Terror, em que qualquer suspeito de se opor ao regime podia acabar sem cabeça. No início de 1794, apenas em Paris, cerca de 20 mil condenados foram decapitados – entre eles estava Georges Danton, que havia sido um dos líderes da Revolução”. (5)

O Terrorismo do século 19, principalmente da segunda metade, estava ligado ao Anarquismo, ideologia política que prega a eliminação de qualquer forma de governo. Os ataques dos terroristas anarquistas eram seletivos, dirigidos contra reis, militares de alta patente e políticos. Ou seja, qualquer pessoa ligada a um governo. Assim como outras ideologias, o Anarquismo está dividido em vertentes, com algumas que não toleram a violência e outras que a utilizam como um meio para alcançar seus objetivos. Entre 1878 e 1879, o rei da Espanha Alfonso XII escapou duas vezes de ser morto em atentados.

25 de octubre de 1878: un tonelero, el anarquista Juan Oliva Moncasí dispara hasta tres veces contra el Rey Alfonso XII ,a la altura del nº 93 de la calle Mayor, cuando el monarca iba montando a caballo al frente de un sequito militar . El atentado no tuvo efectos sobre el rey.

30 de diciembre de 1879: Francisco Otero,un panadero anarquista, atenta contra Alfonso XII y su esposa cuando regresaban a palacio después de un paseo por el Retiro. El monarca tuvo mucha suerte, la bala no le alcanzó de milagro en la cabeza”. (6)

O conturbado século 20 foi marcado por duas grandes guerras mundiais*, polarização ideológica**, desenvolvimento tecnológico e, principalmente, pelo surgimento de vários grupos terroristas na Europa, África, Oriente Médio, Ásia e América Latina. O tipo de Terrorismo praticado nessa época é Étnico-Separatista, que tem por objetivo conquistar a independência de uma região sujeita a um país; e Religioso, com a imposição de uma religião e leis consideradas sagradas.

Na Europa surgiram grupos separatistas como a Mão Negra*** (Reino da Sérvia – 1910-1917); IRA (Exército Republicano Irlandês – Irlanda do Norte – 1919-2005); e o ETA, (Pátria Basca e Liberdade – País Basco – 1959). Na África, surgiram grupos islâmicos como o Al Jihad (Jihad Islâmica Egípcia – Egito – final dos anos 1970); a Ansar Dine (Adeptos da Religião – Mali – 1990); e o GIA (Grupo Islâmico Armado – Argélia – 1992). No Oriente Médio surgiram os principais grupos terroristas ligados ao Islamismo, que atualmente aterrorizam a comunidade internacional. São eles: Hezbollah (Líbano – fundado entre 1982 e 1985); Al-Qaeda (Afeganistão – 1988); Talebã (Afeganistão – 1994); e outros grupos menores. Na Ásia surgem grupos islâmicos como Lashkar-e-Taiba (Exército de Deus – Afeganistão – 1990); separatistas, como os Uigures, povo que pede a independência da região de Xinjiang, região da China; de Esquerda, com a atuação do Exército Vermelho Japonês (Nihon Sekigun - Japão – 1969); e Seita Religiosa, sendo o Ensino da Verdade Suprema (Japão - Aum Shinrikyo - 1984) a mais conhecida. Na América Latina surgiram grupos terroristas de Esquerda que lutavam para implantar uma sociedade Socialista em seus países de origem: FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Colômbia – 1964); Túpac Amaru (Movimento Revolucionário Tupac Amaru – Peru – 1984); ELN (Exército de Libertação Nacional da Colômbia – Colômbia – 1965); e Sendero Luminoso (Caminho Iluminado – Peru – década de 1960). O Espiritualista, escritor e Mestre em Ciências Roberto C. P. Júnior, em seu texto intitulado Terrorismo, faz um preciso levantamento sobre as ações terroristas desencadeadas desde o final da década de 1970 até 1998.

Nos Estados Unidos, um terrorista desconhecido enviou cartas-bombas pelo correio desde 1978, na tentativa de combater a "revolução industrial". Até agosto de 1995 ele já havia matado 3 pessoas e ferido outras 23;

Em 15 anos de atividades, o grupo terrorista peruano "Sendero Luminoso" provocou 25 mil mortes e danos de mais de 22 bilhões de dólares;

Em 1986, um terrorista árabe explodiu o Boeing em que viajava, matando 166 pessoas;

Em dezembro de 1988, uma bomba fez um avião explodir sobre a cidade escocesa de Lockerbie, matando 270 pessoas. O atentado foi atribuído a terroristas líbios;

Em julho de 1994, um carro-bomba destruiu o prédio de uma entidade israelita na Argentina, matando 98 pessoas;

Nos Estados Unidos, no ano de 1994, a Ku Klux Klan, uma das 17 mil organizações racistas atuantes no país, cometeu 18 assassinatos, 146 agressões, 228 atos de vandalismo e provocou 12 incêndios;

Em março de 1995, uma seita apocalíptica japonesa, intitulada "Ensino da Verdade Suprema" cometeu um atentado com gás venenoso no metrô de Tóquio, matando 12 pessoas e intoxicando cerca de cinco mil;

Em abril de 1995, um grupo terrorista americano de extrema direita destruiu com um carro-bomba um prédio federal na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, matando 168 pessoas e ferindo 460 […];

Em setembro de 1995, as "Forças de Libertação do Calistão" explodiram duas bombas na Índia, ferindo 50 pessoas, com o objetivo manifesto de "por um fim às atrocidades cometidas pelas autoridades contra a minoria sikh;

De janeiro a julho de 1995 a Colômbia registrou 592 seqüestros, repartidos entre quatro organizações terroristas que atuam no país. Em dezembro de 1996, 600 municípios do país, de um total de 1024, haviam registrados ações terroristas, contra 173 municípios nesta situação em 1985;

Nos meses de setembro e outubro de 1995 a França sofreu seis atentados terroristas, um por semana;

Em janeiro de 1996, a explosão de uma bomba no prédio do Banco Central do Sri Lanka matou cem pessoas;

Em março de 1997, dois terroristas suicidas, cada qual transportando 10 quilos de TNT misturados com pregos, explodiram seus corpos num mercado de Jerusalém, matando 13 pessoas e ferindo 170 […];

Em abril de 1997, num massacre de 31 civis na Argélia, três mulheres grávidas tiveram o ventre aberto e os fetos arrancados;

Em agosto de 1997, na Argélia, entre 100 e 300 pessoas foram degoladas ou queimadas vivas pelo GIA;

Em setembro de 1997, um atentado suicida triplo matou quatro pessoas e feriu 192 em Jerusalém [...]
Em outubro de 1997, uma bomba matou 15 pessoas no Sri Lanka e feriu pelo menos 110 […];

Em novembro de 1997, um ataque de integristas islâmicos a um grupo de turistas no Egito deixou um saldo de 57 mortos […];

O ano de 1998 começou com algumas centenas de argelinos queimados vivos e 117 degolados em mais dois ataques do GIA em janeiro” (7)

Século 21: Em 11 de setembro de 2001, aconteceu o maior atentado terrorista da História. Nessa data, dois aviões foram lançados por terroristas islâmicos nas duas torres do World Trade Center; um terceiro avião no Pentágono; e um quarto no Estado da Pensilvânia. Morreram cerca de 2977 pessoas, entre funcionários do WTC, passageiros dos aviões sequestrados, funcionários do Pentágono e bombeiros que socorriam as vítimas. A série de ataques foi planejada e executada pela rede terrorista Al-Qaeda. Esse foi o estopim para a Guerra ao Terror, confronto que estende até hoje entre a aliança militar intergovernamental OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e vários grupos terroristas islâmicos.

Ao longo dos anos ocorreram atentados no Reino Unido, Espanha, Escócia, Filipinas, Índia etc. O ano de 2015 teve seu início marcado por uma série de atentados terroristas na Europa, na África e na Oceania. Na França, dois terroristas mataram 12 pessoas do jornal satírico Charlie Hebdo; na Nigéria, o grupo terrorista Boko Haram massacrou milhares de pessoas na vila de Baga, no Estado de Borno; em Copenhage, na Dinamarca, um atirador filiado ao Estado Islâmico matou o realizador de uma palestra sobre liberdade de expressão e um civil em uma sinagoga, além de ferir outras 5 pessoas; e em Sidney, na Austrália, um iraniano, que se autoproclamava clérigo islâmico, manteve 17 pessoas reféns em um café, matando 3 e ferindo 3 no processo.

(Atualizando). Ontem, 13 de novembro, uma série de ataques (com homens bombas e fuzilamentos), hoje reivindicados pelo grupo terrorista Estado Islâmico, culminaram na morte de 129 pessoas. Toda essa barbárie 10 meses após os ataques do Charlie Hebdo.

O Terrorismo não é uma prática exclusiva de um povo. Afirmar isso é falta de conhecimento. Terroristas Gregos, árabes, cristãos, judeus, budistas, ateus, norte-americanos, latino-americanos, asiáticos, europeus, africanos etc, já o praticaram e continuam praticando. Espalhar o medo para alcançar objetivos econômicos, políticos, culturais e religiosos é uma das práticas humanas mais deploráveis que existe, que atinge milhares de inocentes e marginaliza sociedades. Irracionalmente, pegar em armas parece ser mais fácil do que buscar soluções que conciliem de forma pacífica as diferenças que existem entre os povos.

* O massacre nazista cometido contra judeus, negros, ciganos, homossexuais e outras minorias; e o lançamento das bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki podem ser considerados atos terroristas.

** Durante a Guerra Fria, os governos dos Estados Unidos e Reino Unido financiaram rebeldes para lutar contra a expansão soviética na Ásia e no Oriente Médio. Mais tarde, esses mesmos rebeldes deram origem a poderosos grupos terroristas.

*** O membro mais “ilustre” da extinta organização Mão Negra é Gavrilo Princip, o jovem anarquista sérvio que assassinou o Arquiduque do Império Austro-Húngaro Francisco Ferdinando e sua esposa, no ataque que ficou conhecido como Atentado de Sarajevo, em 1914, e que deu início a Primeira Guerra Mundial.


NOTAS


(1) Etimologia de terrorismo – disponível em: www.origemdapalavra.com.br
(2) MAZETTO, Francisco de Assis Penteado. O Terrorismo na História. UFJF. s.d.
(3) STEGEMANN, W. Ekkehard; STEGEMANN, Wolfgang. História Social do Protocristianismo: Os primórdios do Judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. p. 208. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004, p. 208.
(4) OPPERMANN, Álvaro. Cátaros: Hereges, graças a Deus. Revista Superinteressante, 2008.
(5) EICHENBERG, Fernando. Joseph-Ignace Guillotin: Doutor Guilhotina. Revista Aventuras na História, 01/07/2007.
(6) Atentados Anarquistas en La España Del Siglo XIX. Disponível em: http://www.pronunciamientos.rizoazul.com/anarquismo.html. Acesso em 25/02/2015.
(7) JÚNIOR. Roberto C. P. Terrorismo. Disponível em: http://www.library.com.br/Filosofia/terroris.htm. Acesso em 26/02/2015.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.geografiaparatodos.com.br/

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O mesmo lugar em dois diferentes momentos



Ver as transformações que ocorrem um um lugar, com o passar do tempo, é algo impressionante. Vejam a Rua Cinco de Setembro, no bairro de São Raimundo, primeira imagem de 1965, foi extraída do documentário "Amazonas, Amazonas", de Glauber Rocha; A outra imagem registrada em 2015 mostra a transformação da área, onde poucos bens imóveis de interesse para preservação ainda resistem, como o casarão de 1913 (http://on.fb.me/1L9ianG), ficava ao lado do antigo Cine Ideal, que não existe mais. O imóvel verde foi sede do São Raimundo.

A "ditadura do automóvel" mostra claramente as transformações urbanas que a cidade sofreu ao longo destes 50 anos entre uma foto e outra. A via que antes era ocupada pela sociedade, através dos quase cinquenta cinemas que se espalhavam por vários pontos da cidade, hoje restam apenas cinemas de shoppings.

A transformação urbana com uma nova metodologia de ocupação, através do Prosamim que avança cada vez mais pelos igarapés de Manaus, a foto mostra mais uma transformação, além do que a posse do automóvel promove sobre a evolução arquitetônica, com a posse de gradis e estacionamentos que deformam, ou degradam toda e qualquer paisagem urbana formada por conjuntos arquitetônicos, que um dia foram harmônicos à cidade. - Hoje os códigos de posturas não servem pra muita coisa.


CONTRIBUIÇÕES: Fabio Augusto de Carvalho Pedrosa, Elza Souza e Keyce Jhones

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Um documento para entender a Era Meiji

Exibição Industrial de Tóquio, 1907.

A Era Meiji (1868-1912) ou ''Era Iluminada'', conforme a tradução, foi o período de abertura do Japão ao mundo, bem como sua inserção no modelo econômico capitalista. O país, que ficou séculos isolado do Ocidente, se tornou, em poucas décadas, uma das principais potências imperialistas do século 20. Os feudos deram lugar aos grandes conglomerados comerciais e bancos; a educação tornou-se obrigatória; e o poder imperial se tornou centralizado. Em síntese, Mutsuhito Tenno, o primeiro e último imperador Meiji, apagou todos os resquícios da decadente sociedade feudal japonesa. Para melhor entender esse período histórico, leiam abaixo um texto imperial da Era Meiji, extraído do livro do historiador francês Jean Chesneaux, “A Ásia Oriental nos séculos XIX e XX”.

Vimos de assumir a sucessão ao Trono Imperial, no momento em que o Império é submetido a uma reforma total. Reservamo-nos o direito de decidir, de modo supremo e exclusivo, os assuntos civis e militares. A dignidade e felicidade da nação reclamam a interferência de nossa elevada função. De modo constante e sem repouso, consagraremos a isso nossos pensamentos. Por indignos que sejamos para a tarefa, pretendemos continuar o trabalho começado pelos nossos sábios antepassados e aplicar a política que nos legou o falecido imperador, dando paz aos clãs e ao nosso povo, e promovendo, além dos mares, no exterior, a glória da nação. Devido às intrigas imoderadas que o shogun Tokugawa Keiki alimentou, o Império se reduziu a pedaços e, em consequência, veio a guerra civil que padecimentos sem conta impôs ao povo. Assim, fomos forçados a fazer, pessoalmente, campanha contra ele.

Como já se declarou, a existência de relações com países estrangeiros implica em problemas muito importantes. Assim, também nós, por amor ao povo, estamos dispostos a enfrentar os perigos do abismo, a sofrer as maiores dificuldades, jurando estender ao estrangeiro a glória da nação, e a satisfazer aos manes dos nossos ancestrais e do defunto imperador.

Portanto, que vossos clãs reunidos nos assistam em nossas imperfeições; que unindo vossos corações e vossas forças desempenheis os papéis que vos estão atribuídos, desdobrando todo vosso zelo para o bem do Estado.”

(Selo Imperial) – 21 de março de 1868


Esse texto, escrito no início da Era Meiji, tem um caráter nacionalista, amplamente divulgado e incentivado pelo Império, temeroso contra as ambições estrangeiras no país. Não muito diferente de Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos, o Japão, que precisava de matérias-primas para a sua industrialização, passou a expandir sua área de influência: Em 1876, o Japão pressionou militarmente a Coréia, conseguindo por meio de um tratado o acesso à três portos desse país; Em 1895, depois de derrotar a China na Guerra Sino-Japonesa, o Japão ganha o controle do território de Taiwan; Em 1905, o Japão derrota a Rússia na Guerra Russo-Japonesa, recebendo do país derrotado a península chinesa de Liaodong e parte da ilha russa de Sacalina; e, em 1905, a Coréia torna-se um protetorado japonês, para mais tarde, em 1910, ser oficialmente anexada ao Império do Japão. Agora deu para entender a afirmação: “estender ao estrangeiro a glória da nação''.


CRÉDITO DA IMAGEM: www.oldphotosofjapan.com

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Palacete Miranda Corrêa (completo)

Praça do Congresso em 1959, com destaque para o Palacete Miranda Corrêa (perto do Teatro Amazonas).

Quem hoje vê a Praça do Congresso, localizada no final da Avenida Eduardo Ribeiro, restaurada e reinaugurada pela Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas no final do ano de 2012, talvez não saiba que nela existiu, até a década de 1970, um dos prédios mais bonitos e suntuosos de Manaus: o Palacete Miranda Corrêa.

No início do século 20, a Amazônia vivia um período de crescimento econômico e demográfico, proporcionado pelo lucrativo comércio da borracha, matéria-prima largamente utilizada nas indústrias da América do Norte e da Europa; e pela implantação de capital estrangeiro nas cidades de Belém e Manaus. Muitas famílias fizeram fortuna nessa época. A família Miranda Corrêa, originária do Pará, foi uma delas.

Os membros da família Miranda Corrêa eram numerosos. Os irmãos eram: Luiz Maximino de Miranda Corrêa, Antônio Carlos de Miranda Corrêa, Deoclécio de Miranda Corrêa, Carolino de Miranda Corrêa, Adelino de Miranda Corrêa, Altino de Miranda Corrêa, Acrisio Fúlvio de Miranda Corrêa, Joana de Miranda Corrêa, Sinhá Sussuarana de Miranda Corrêa; e tantos outros, espalhados entre o Pará, Maranhão e Amazonas. Todos bem sucedidos, ocupando funções que iam desde médico a advogado.

Famosos pela construção da ''Fábrica de Gelo Cristal'' e a "Casa de Chopps'', em 1903; da ''Cervejaria Amazonense'' em 1905; e do moderníssimo Castelo da Cervejaria Miranda Corrêa, entre 1910 e 1912, onde foi instalado o primeiro elevador da cidade, existente até os dias de hoje no bairro da Aparecida; os Miranda Corrêa adquiriram de um rico comerciante português o prédio que mais tarde ficaria conhecido como Palacete Miranda Corrêa.

A residência tinha um estilo arquitetônico especial, inspirado nas construções do arquiteto francês Jules Hardouin Mansart, famoso pela construção, no século 17, de várias mansões para o monarca francês Luís XIV, o ''Rei Sol''. ''O palacete possuía dois andares, porão alto e sótão mansardo'', característica que o tornava único na cidade, segundo conta Luiz de Miranda Corrêa, neto de Luiz Maximino de Miranda Corrêa, em seu Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro.

Em seu interior, a decoração era feita com móveis, lustres e objetos de arte franceses e ingleses. Em suas salas, famosas pelas grandes festas de mesa farta e música clássica, existiam 4 pianos importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein e um Cramer, utilizados pelos visitantes ou pelo próprio Luiz Maximino, que além de empresário era pianista e compositor. Quando da demolição do prédio, os móveis, porcelanas, objetos de arte etc, foram repartidos entre seus descendentes, e alguns foram vendidos para colecionadores e antiquários de Manaus ou do Rio de Janeiro por exemplo. Ficava na esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a rua Monsenhor Coutinho.

A demolição do palacete em 1971, para a construção de um edifício de gosto duvidoso, que ironicamente recebe o nome de um dos descendentes dessa família, deixou um vazio sem igual para a cidade e a Praça do Congresso, onde ele fazia um harmonioso conjunto arquitetônico com o Departamento de Saúde do Estado (demolido em 1969) e o Ideal Clube (de pé até os dias de hoje). A mixórdia de falta de afeição pelo local e a insensibilidade dos governantes da época, ávidos por integrar a Amazônia ao mundo moderno, deixaram uma lacuna na história da cidade, lacuna essa que aumentou, mais tarde, com a demolição do Cine Guarany, em 1984, e que continua aumentando com a constante descaracterização do Centro Histórico.



CRÉDITO DA IMAGEM: Manaus Sorriso

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Império Português: do Oriente à América

Mapa do Império Português, da conquista de Ceuta, em 1415, à devolução de Macau, em 1999.

Portugal, pequeno país da Península Ibérica, que hoje encontra-se acanhado devido a crise financeira que atingiu a Europa em 2008, já possuiu um vasto império colonial além-mar, que se estendia do Oriente à América. Primeiro Estado Moderno a se formar na Europa, ainda no século 12, Portugal despontou como pioneiro nos Descobrimentos marítimos, conquistando Ceuta, no norte da África, em 1415. Esse foi só o primeiro de muitos descobrimentos.

São descobertas, alguns anos mais tarde, as ilhas da Madeira (1418), Açores (1431) e as Canárias (1432). Nos anos que se seguiram, a Coroa Lusitana, em uma tríplice aliança com a Igreja Católica e a burguesia comercial, se fez presente em todos os continentes. Em 1434, o navegador Gil Eanes ultrapassa o Cabo Bojador, região estratégica para o início da colonização da África Ocidental.

Depois de conquistar Ceuta e de conseguir navegar o Cabo Bojador, a Coroa investiu na construção de feitorias ao longo do litoral africano. Mais tarde, em 1444, Dinis Dias descobre o Cabo Verde. É nessa época também que se inicia o tráfico de escravos africanos. O interior do continente seria penetrado a partir de 1488, com a navegação do Cabo da Boa Esperança, porta de entrada para a África Oriental.

Em 1498, o navegador Vasco da Gama chega a Calicute, na Índia, centro comercial de especiarias e produtos refinados, dando início a presença portuguesa na Ásia. Em pouco tempo, os portugueses atingiram Cochim e Macau, na China; Ceilão, atual Sri Lanka; Ormuz, no Golfo Pérsico; Barein, no Oriente; Malaca, na Malásia; Molucas, na Indonésia; Japão; e tantos outros territórios asiáticos.

A mais importante colônia de Portugal, o Brasil, foi criada em 1500. Os investimentos lusos no comércio de especiarias na Ásia e na África deixaram o território brasileiro em segundo plano. Na nova possessão não foram encontradas de imediato riquezas como ouro e prata, mas existia uma madeira conhecida como pau-brasil, que produzia um ótimo corante vermelho. Por mais de 30 anos a presença portuguesa no Brasil se restringiu apenas ao recolhimento dessa madeira, negociada com os índios.

Quando corsários ingleses, franceses e holandeses começaram a rondar o Brasil, em busca de criar uma colônia, como fizeram os franceses com a França Antártica, ou de comerciar o pau-brasil com os nativos; e o comércio de especiarias na Ásia e na África sendo ameaçado pelos mesmos; Portugal tratou de colonizar o território, entregando grandes faixas de terras litorâneas na mão de particulares, criando as conhecidas Capitanias Hereditárias.

Nos séculos 17 e 18, as plantações de cana-de-açúcar do Nordeste e as descobertas de ouro e diamantes nas regiões Sudeste e Centro-Oeste fizeram a riqueza da elite colonial brasileira e do Reino de Portugal. O extenso Império Colonial Português começou a se esfacelar entre os séculos 16 e 17. Durante a União Ibérica, com Portugal sob o domínio Espanhol, várias possessões lusas foram tomadas por holandeses (inimigos dos espanhóis) e retomadas por outros povos, como os japoneses, que a partir de 1641 expulsaram os portugueses de seu país e cortaram relações com o resto do mundo.

Portugal perde o Brasil em 1822, quando este se torna independente, ironicamente pelas mãos de um monarca português, D. Pedro I. Restaram à Portugal apenas algumas possessões na África (Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau); na Ásia (Damão, Diu, Goa, Macau e Timor-Leste); e as ilhas de Madeira e Açores. Durante a Conferência de Berlim, realizada entre as potências imperialistas para repartir a África, em 1884-85, Portugal apresentou o Mapa Cor-de-Rosa, área geográfica que englobaria Moçambique, Rodésia do Sul (Zimbábue), Rodésia do Norte (Zâmbia) e Angola.

Portugal pretendia expandir seus domínios para o interior do continente, mas foi barrado pela ambição da Grã-Bretanha e do empresário britânico Cecil Rhodes e seu megaempreendimento de construir uma ferrovia que ligaria a cidade do Cabo, na África do Sul, até Cairo, no Egito. A ferrovia passaria por Zimbábue e Zâmbia. Portugal, pressionado pela Grã-Bretanha, desiste do interior da África, ficando apenas com Angola e Moçambique.

A Ditadura Salazarista é marcada por guerras de independência nas últimas possessões africanas e asiáticas. Em 1973, Guiné-Bissau declara-se independente, ganhando o reconhecimento em 1974; Em 1975, é a vez de Angola, Moçambique e Timor-Leste; os territórios do antigo Estado Indiano (Goa, Diu e Damão) são invadidos pelo Exército Indiano em 1961, sendo reconhecidos e anexados à Índia no mesmo ano. O Império Colonial Português dava seus últimos suspiros.

No final do século 20, o último resquício do vasto império desaparece com a devolução da pequena ilha de Macau à China, em 1999. Acabava, assim, um vasto império colonial com quase 600 anos de existência, que se estendia do Oriente à América, o primeiro do mundo moderno, construído por um pequeno país com uma enorme sede de conquista. A língua portuguesa; as mazelas sociais deixadas pela escravidão africana; as instituições políticas e religiosas (ambas nem sempre eficientes), são as heranças deixadas para as antigas possessões coloniais.



CRÉDITO DA IMAGEM: revistapesquisa.fapesp.br