segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Uma análise dos principais conceitos do livro A Formação da Classe Operária Inglesa (Edward P. Thompson)

O presente texto tem por objetivo a análise das ideias centrais da obra A Formação da Classe Operária Inglesa (1963), do historiador marxista britânico Edward Palmer Thompson (1924-1993). Essa obra consagrou Thompson nos meios acadêmicos britânicos, bem como tornou-se centro de acalorados debates, por suas críticas ao Estruturalismo Marxista ortodoxo, formulado pelo filósofo francês Louis Althusser.

Publicada em 1963, em três volumes, A Formação da Classe Operária Inglesa é um resgate do papel das camadas populares da Inglaterra do século 18 no processo histórico. Para Thompson, o processo histórico é construído através das ações dos sujeitos, de suas experiências, e não apenas através de processos técnicos e econômicos, independentes das ações humanas, como pensavam os Estruturalistas.

Uma das principais críticas que ele faz ao marxismo estruturalista se refere ao fato de que os teóricos dessa macro-teoria dão mais atenção ao economicismo e não aos fatores humanos, culturais, como propulsores da luta de classes. Se para Marx a consciência levaria à revolução, à luta de classes, para Thompson a organização das camadas populares, como ele bem evidencia no combate dos trabalhadores ingleses frente a modernização (o maior exemplo é o movimento Ludista) levaria à consciência de classe.

Não seria a industrialização que se teria imposto a capitalistas e trabalhadores, com a força de uma lei que regeria suas relações: a busca da mais valia relativa, como lei da acumulação do capital. Ao contrário, a industrialização seria o resultado de um processo histórico real, como todo processo histórico, único, pouco importando o fato de que, depois, por sua importância e características, ele se tornaria um modelo universal. Para Thompson, a grande indústria moderna é um resultado da luta de classes […] o auto reconhecimento dos trabalhadores como classe, que conduz à formação das organizações operárias e ao estabelecimento, por meio da luta de classes, das novas relações entre capitalistas e operários, encontra-se na base da grande indústria moderna. Ao mesmo tempo em que submete a relação social ao processo histórico, ele apresenta a formação da classe operária como condição e não simplesmente resultado da industrialização (SILVA, 2012, p.64).

Para Thompson “Classe Operária” era um conceito passivo de múltiplas análises, produto de seu contexto histórico e social (no obra A Formação, a Inglaterra da Primeira Revolução Industrial). Não seria possível que a teoria Marxista Althusseriana conseguisse englobar esse conceito, devido ao seu caráter técnico economicista, que tratava o elemento social apenas como uma estatística, desconsiderando seu desenvolvimento empírico. Na concepção de Thompson, a classe se forma a partir do momento em que, um grupo de pessoas, através de suas experiências e costumes em comum, articulam a identidade de seus mesmos interesses contra os interesses de outros homens (operários e patrões, respectivamente).

Um ponto chave na obra de Thompson é o seu conceito de experiência. Thompson propõe dois tipos de experiência, a junção entre o ser social e a consciência social. A primeira seria a experiência vivida, fruto de ações concretas. A segunda seria a experiência percebida, feita através da observação. Segundo Thompson, esses dois tipos de experiência são inseparáveis, pois o concreto não vive sem o abstrato e vice-versa.

A categoria de experiência articulava-se, em suas análises, com diferentes perspectivas metodológicas, entre elas, ação política, ação social, educação, cultura, folclore e outras. O conceito de experiência histórica aparece diluído em todas as obras (PARADA, 2013, p. 309).

Existem mais três conceitos trabalhados por Thompson em A Formação. São eles consciência de classe, falsa consciência e consciência verdadeira. Esses conceitos são trabalhados sempre em contraposição ao Estruturalismo Marxista. Para os estruturalistas, a consciência de classe surge a partir da posição dos indivíduos em relação aos meios e relações de produção. Para Thompson, essa mesma consciência é resultado da junção entre experiência (vivida e percebida) e a cultura do grupo analisado. Ou seja, a consciência de classe é produzida pela classe a partir do processo histórico de autorreconhecimento como tal.

No Estruturalismo, a classe em si não conhece seus verdadeiros interesses, dependendo esse conhecimento principalmente das estruturas técnicas e econômicas. Para Thompson uma classe não existe sem que essa tenha consciência de si mesma, e que essa consciência não é verdadeira e nem falsa, apenas produto das relações culturais e sociais. A consciência de classe se forma através de etapas: primeiro, as pessoas percebem que estão em uma sociedade estruturada; são exploradas; identificam seus interesses e os interesses de grupos antagônicos (patrões ou Estado); discutem sobre esses interesses e descobrem sua consciência de classe. Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real (THOMPSON, 2012, P. 74).

O livro A Formação da Classe Operária Inglesa reflete muito bem a vivência que Thompson teve com as camadas mais populares da sociedade inglesa, pois este ministrou por muitos anos aulas para trabalhadores. Polêmico, teceu críticas ao economicismo e ao estruturalismo marxista, que propositalmente excluía de suas análises as camadas mais baixas da sociedade, consideradas por Thompson componentes importantes na construção dos modos de produção. Essa talvez tenha sido a maior contribuição desse historiador, a inserção do empirismo e do culturalismo nas análises marxistas.


FONTES:


SILVA, S. Thompson, Marx, os marxistas e os outros. In: THOMPSON. E.P. As peculiaridades dos ingleses e outros ensaios. Campinas: Editora da Unicamp, 2012. Disponível em Classe e consciência na obra do historiador marxista E.P. Thompson (http://blogconvergencia.org/?p=5509).

MELO JR., João Alfredo Costa. “Edward Palmer Thompson (1924-1993)”. In: PARADA, Maurício (Org). Os Historiadores Clássicos da História. Vol. 2: De Tocqueville a Thompson. Petrópolis, RJ: Vozes / PUC-Rio, 2013.

THOMPSON. E. P. As peculiaridades dos ingleses e outros ensaios. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012. Disponível em Classe e consciência na obra do historiador marxista E.P. Thompson (http://blogconvergencia.org/?p=5509).


CRÉDITO DA IMAGEM:

livraria-popular.blogspot.com.br






segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Castas e Classes Sociais

Pirâmide do sistema capitalista.

Não existe, ao redor do mundo, uma sociedade sequer que não seja regida pelas classes sociais. Desde que passamos a nos organizar sob a tutela de membros mais fortes, intelectualmente superiores, individualizar-se e criar organismos políticos como o Estado, estamos dentro dessas estruturas. Nobres, camponeses, burgueses, proletários etc, são alguns exemplos que a História nos dá. As Classes sociais são estruturas não oficializadas ou registradas por escrito, mas que possuem peso considerável na vida em grupo. Outra estrutura, presente há milênios na vida dos indianos e de alguns povos da África e do Oriente Médio, são as Castas. Levando em conta aspectos religiosos e culturais, essa estrutura é oficializada e registrada por escrito. Utilizando o livro do especialista em lógica, sociólogo e filósofo francês Edmond Goblot (1858-1935), A barreira e o nível: retrato da burguesia francesa na passagem do século (Papirus, 1989) e outras fontes, irei tecer uma breve análise entre essas duas estruturas.

Apesar de não ser uma instituição, alguns países adotam divisões para incluir as pessoas em determinada camada da Classe Social: Classe Alta, Média e Baixa. Temos a classe A, formada por pessoas de alto poder aquisitivo, detentores de capital e dos modos de produção, e também de influência no cenário político. A classe B é um "meio termo", formada por pessoas de renda considerável, que permite a manutenção de um bom padrão de vida. A classe C, ou classe baixa, é formada por trabalhadores, dependentes de sua força de trabalho, que vendem em troca do salário. Os componentes desses estratos se diferenciam por sua renda, prestígio, profissão e costumes.

As Castas, mundialmente conhecidas por nós como a estrutura social da Índia, é uma instituição oficial, registrada com base em preceitos da religião Hinduísta. No hino religioso Rig Veda, as castas teriam surgido do corpo do deus Purusha: Brâmanes (cabeça); Xátrias (braços); Vaixás (pernas); e Sudras (pés). Na última escala, abaixo dos pés de Purusha, estão os Párias. Os Párias ou Intocáveis são considerados seres impuros, incumbidos da realização de trabalhos pesados e degradantes. Esses são os principais estratos da sociedade indiana que possui, ao todo, mais de 2 mil castas.


As quatro principais castas indianas em volta do deus Ganesha.

Segundo Goblot (p. 11), uma casta é algo fechado: nela se nasce, nela se morre; salvo raras exceções, nela ninguém entra, dela ninguém sai. Uma classe é algo aberto [...] No mundo Ocidental, o membro de uma classe baixa pode ascender para a classe média, assim como o membro da classe média pode passar a frequentar a classe baixa. Isso se chama mobilidade social. Digamos que, atualmente, eu seja parte integrante da classe baixa. Amanhã, ao ganhar na loteria, poderia ascender para a Classe Média ou Alta. Mas, em contrapartida, uma fortuna adquirida em pouco tempo provoca no homem o desejo de viver de forma burguesa, mas sua educação é um obstáculo: maneira "do povo", "vulgaridades" o traem; ele comete enganos e gafes, fala errado (p. 15).

Nas classes sociais temos liberdade na hora escolher nossas profissões, que são divididas entre trabalho intelectual e trabalho manual. Pessoas que trabalharam arduamente em trabalhos pesados, podem atingir os mais altos patamares de uma classe social, assim como os que desempenham um trabalho intelectual também. Ou a realidade pode ser outra, com a permanência em sua posição. A liberdade de escolha é uma marca da sociedade ocidental e de outros países. Nas castas, cada camada está relacionada à uma função dentro da sociedade: Brâmanes (sacerdotes e brâmanes); Xátrias (membros da elite militar); Vaixás (comerciantes e artesãos); e Sudras (trabalhadores servis). Por último, os Párias nascem para cuidar dos trabalhos considerados repugnantes, como a limpeza de ruas, esgotos, contato com cadáveres, etc. Por mais que se esforce, um membro de uma casta baixa jamais irá atingir outro patamar social, pois a institucionalização dessa estrutura impede que isso ocorra.

Em síntese, percebemos profundas diferenças entre as Classes Sociais e as Castas. As classes sociais são abertas, permitindo a transição de membros entre suas diferentes estruturas. Nas Castas, se nasce em uma posição e nela se permanece até morrer. Nossas classes não existem oficialmente, mas sim por meio dos costumes. As Castas, por meio da religião hindu, são registradas oficialmente, influenciando mais rigidamente a vida em sociedade que as classes ocidentais. Fruto de milênios de relações sociais, as duas estruturas sociais servem para fixar cada indivíduo em seu "papel", seja como detentor do capital, a pessoa que usufrui dessas rendas de forma intermediária ou como vendedor da força de trabalho.


FONTES: GOBLOT, Edmond. A barreira e o nível: retrato da burguesia francesa na passagem do século. Campinas, Papirus Editora, 1989.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. São Paulo, Editora Ática, 2011.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

As esculturas do Palacete Provincial

Há um ano, escrevi um breve texto sobre uma das esculturas que se localizam na entrada do Centro Cultural Palacete Provincial, localizado na Praça Heliodoro Balbi (Praça da Polícia), no Centro da cidade. Tratava-se da escultura do lado esquerdo, que representa um zuavo, soldado argelino a serviço do Exército da França. Quando da escrita desse texto, utilizei como base o livro Caminhando por Manaus – cinco roteiros históricos da cidade (1996), da pesquisadora francesa Thérèse Aubreton. No livro, Thérèse nos dá importantes informações sobre o Zuavo, já mencionado anteriormente. Mas fica um questionamento: e a segunda escultura? No livro, é apenas mencionado como um soldado do Exército Regular Francês. Não satisfeito, fui fazer novas pesquisas, e consegui informações valiosas, que serão aqui apresentadas aos leitores.

Ponte de L' Alma, em Paris, com o Zuavo em primeiro plano.

As duas esculturas que ornamentam a entrada do Palacete Provincial são réplicas construídas em tamanho natural, sendo o bronze o material empregado. A escultura do lado esquerdo representa um Zuavo, soldado argelino a serviço do Exército Francês. A segunda escultura, do lado direito, era até então considerada apenas um soldado do Exército Regular Francês. Mas, após pesquisas por mim feitas, descobri que trata-se de um Granadeiro, militar responsável, durante a guerra, pelo lançamento de granadas.

Essas duas figuras faziam parte de um conjunto, de quatro esculturas, localizadas na Ponte de L' Alma, em Paris, erguida sobre o rio Sena. A ponte recebe esse nome em homenagem à Batalha do rio Alma (1854), travada durante a Guerra da Crimea, envolvendo o Império Russo, França, Inglaterra e Império Otomano. A ponte foi inaugurada por Napoleão III em 1856. Para ornamentar as pilastras de sustentação, um total de 4, foram erguidas esculturas em homenagem aos quatro tipos de militares que participaram da Batalha do rio Alma: Zuavo; Granadeiros, Caçadores e Artilheiros. Georges Diebolt esculpiu o Zuavo e o Granadeiro, e Auguste Arnaud esculpiu o Caçador e o Artilheiro.

Retrato de Georges Diebolt.

Adolpho Lisboa, superintendente de Manaus entre 1902 e 1907, esteve em Paris, de onde encomendou as peças que atualmente ornamentam a Praça Heliodoro Balbi (Praça da Polícia): Cão e Javali em luta (Charles Theodore Perron); Diana Caçadora (Fundições de Val d' Osne); Hermes (Fundições Val d' Osne); Ninfa (Fundições Val d' Osne); Coreto em formato de pagode chinês e Coreto em formato de templo grego. Para Manaus, das quatro estátuas da Ponte de L' Alma, só vieram duas réplicas, o Zuavo e o Granadeiro. Vejam, abaixo, duas montagens entre as esculturas de Manaus e as da França. O Zuavo permanece na ponte, servindo de “régua” para a medição dos níveis do rio Sena. O Granadeiro foi parar na comuna francesa de Dijon, terra natal de Georges Diebolt (1816-1861), autor das esculturas.

À esquerda, o Zuavo de Manaus. À direita, o original, na Ponte de L' Alma, em Paris.

À esquerda, o Granadeiro de Manaus. À direita, o Granadeiro original.

O Caçador e o Artilheiro foram esculpidos por Auguste Arnaud (1825-1883). Quando as duas réplicas foram erguidas em Manaus, no início do século 20, o mundo ocidental tinha como parâmetro cultural Paris, capital moderna da Europa, que explodia em invenções e tecnologias de ponta para a época. Essa é apenas uma das várias curiosidades existentes em Manaus, que manteve e ainda mantem relações com diversos países.

À esquerda, o Artilheiro, no departamento de Aisne; À direita, o Caçador, na cidade francesa de Vincennes.


FONTES:  Geneviève Bresc-Bautier, Isabelle Leroy-Jay Lemaistre, Musée du Louvre. département des sculptures du Moyen Âge, de la Renaissance et des temps modernes. Sculpture française II. Renaissance et temps modernes. vol. 1 Adam - Gois, Réunion des musées nationaux editions, Paris, 1998.

CRÉDITO DAS IMAGENS: leguideparis.free.pt
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