sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O dia em que a Santa Casa de Misericórdia de Manaus fechou

O prédio da Santa Casa de Misericórdia de Manaus em 1994, 10 anos antes do fechamento. FONTE: Comissão da Santa de Misericórdia.

No dia 21 de novembro de 2019, o prédio da antiga Santa Casa de Misericórdia de Manaus, localizado na rua 10 de Julho, no Centro, foi comprado, em leilão, pelo Grupo Ceuni Fametro, que se comprometeu em preservá-lo e transformá-lo em hospital universitário. Aparentemente um novo capítulo, mais feliz, começa a ser escrito. Vamos nos lembrar, no presente texto, de como se deu o fechamento desse hospital.

Construída entre 1873 e 1880, a Santa Casa de Misericórdia de Manaus funcionou até 2004. A partir de seu fechamento, o histórico prédio onde várias gerações de amazonenses -  da capital e do interior, - foram atendidas, entrou em processo de deterioração, transformando-se em abrigo para pessoas em situação de rua, usuários de drogas e criminosos.

Desde a década de 1990 a Santa Casa de Misericórdia de Manaus sofria com problemas financeiros. Em 1999 a dívida com fornecedores, funcionários e previdência já era de 700 mil reais. Mesmo com inúmeras dificuldades, em 2002 o hospital realizou 2.905 cirurgias, 5.723 partos, 3.123 internações de adultos e 540 internações de crianças (JORNAL DO COMÉRCIO, 08/10/2003). 

Em 2003, um ano antes do fechamento, no Governo de Amazonino Armando Mendes, a Santa Casa de Misericórdia perdeu o convênio com o Governo do Estado, convênio esse que lhe garantia um repasse mensal de 300 mil reais (JORNAL DO COMÉRCIO, 27/01/2004). O hospital possuía cerca de 450 funcionários, mas à medida em que a crise se agravava, foram ocorrendo demissões voluntárias. No fim, restaram apenas 260.

A justificativa do Governo do Estado do Amazonas para dar fim ao convênio foi de que a administração da Santa Casa teria apresentado irregularidades na prestação de contas, o que motivou o fim do acordo (TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO, 2016). Tinha início o fim da Santa Casa de Manaus. Até a decisão pelo encerramento de suas atividades, ela se manteve através de doações de empresários, shows beneficentes e bazares, o que já vinha ocorrendo desde fins dos anos 90. A Provedoria da Santa Casa tentou um empréstimo junto a Caixa Econômica Federal, mas este foi recusado pelo órgão. Em 2003 foi realizada uma campanha, Santo de Casa faz Milagre, destinada às pessoas interessadas em contribuir financeiramente para a sua manutenção. Poderiam ser doados 10, 20 e 30 reais através de ligações (JORNAL DO COMÉRCIO, 08/10/2003).

Pensava-se que aquela seria uma crise passageira, pois problemas financeiros eram recorrentes na área da saúde. No entanto, daquela vez, a crise veio para ficar.

Sem remédios no estoque e sem ter dinheiro pagar os funcionários, em outras palavras, sem ter como continuar suas atividades, no dia 7 de dezembro de 2004 a Santa Casa de Misericórdia de Manaus fechou as portas. Terminou seus dias com uma dívida estimada em 4 milhões de reais (ESTADÃO, SP, 07/12/2004). Como última alternativa, o Governo do Estado do Amazonas, já no mandato de Eduardo Braga, em 2005, tentou assumir a Santa Casa e administrá-la através do contrato de comodato para contornar a situação, mas nada foi acertado. 

Seu fechamento representou diferentes perdas. A perda do patrimônio histórico do século XIX, símbolo das transformações da área da saúde naquele período. Perda da dignidade, tanto de pacientes quanto de funcionários, abandonados e sem receber seus vencimentos. Em síntese, uma tragédia de grandes proporções. 

Que venham dias melhores...


FONTES:

Jornal do Comércio, 08/10/2003.

Jornal do Comércio, 27/01/2004.

Estadão, SP, 07/12/2004.

Tribunal de Contas da União, TC 015.588/2009-7, 2016.


CRÉDITO DA IMAGEM:

Comissão da Santa Casa de Misericórdia. Disponível em: https://www.santacasamanaus.com.br/

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A Datilografia em Manaus


Bartyra Pucú Aguiar, 2° lugar no Concurso de Datilografia da Escola Remington, em Manaus. FONTE: A Capital, 27/07/1917.

Apesar da máquina de escrever ter sido inventada no século XVIII e aperfeiçoada no XIX, a datilografia se popularizou apenas no início do século XX. As empresas e repartições públicas daquele período procuravam cada vez mais a rapidez e a eficiência. Gastava-se um tempo precioso no preenchimento de notas e emissão de documentos escritos a mão. A datilografia possibilitou a produção de documentos através da digitação, uma forma bem mais rápida que a tradicional.

As máquinas de escrever começaram a ser comercializadas em Manaus no início do século XX. As máquinas das marcas Royal, Underwood e Remington eram anunciadas, nos periódicos, como as mais elegantes e modernas do gênero.

Anúncio da máquina de escrever 'Underwood'. FONTE: Jornal do Comércio, 21/08/1909.

Percebida a importância dessa técnica, logo ela foi incorporada ao currículo escolar. Em 1914 a Datilografia tornou-se uma disciplina do Instituto Benjamin Constant, na rua Ramos Ferreira (MENSAGEM, 10/07/1914, p. 32). Em 1918 é criada oficialmente a Cadeira de Datilografia na Escola Normal (MENSAGEM, 10/07/1918, p. 140). O público-alvo dessa disciplina seria o feminino. Desde o início essa técnica ficou associada às mulheres. Sobre a importância do ensino de datilografia às órfãs do Instituto Benjamin Constant, o Diretor Desembargador Gaspar Vieira Guimarães afirmou que era seu propósito:

“[…] desenvolver efficazmente o ensino da dactylographia ás educandas que terminem o Curso Medio Complementar, habilitando-as a ganhar a vida no commercio, como auxiliares de escripta, emprego bastante remunerado na actualidade, precisando esta Directoria, para o alcance desse objectivo, apenas do credito indispensavel para a aquisição de seis machinas de escrever de typos diversos”. (MENSAGEM, 14/07/1923, p. 140).

Como escreveu o Diretor do Instituto Benjamin Constant, o curso de datilografia poderia garantir uma vaga no comércio. Ter um certificado nessa área era um requisito para assumir algum cargo nas instituições e repartições que iam sendo criadas na cidade. Em 1916, quando foi aberta uma agência do Banco do Brasil em Manaus, uma de suas exigências era que os candidatos interessados em uma vaga de emprego deveriam

“Sujeitar-se a exame, perante uma commissão nomeada pelo Banco, de portuguez, francez, inglez, geographia commercial, arithmetica, escripturação mercantil e dactylographia” (JORNAL DO COMÉRCIO, 29/07/1916).

A escola de datilografia mais famosa de Manaus no início do século passado foi a Escola Remington, criada em 1916 pelos proprietários da Livraria Palais Royal, localizada na rua Municipal (Avenida Sete de Setembro). Posteriormente foram criadas as escolas Royal e Underwood, ambas na Avenida Sete de Setembro. Não devem ser esquecidos os cursos de Datilografia da Santo Antônio Commercial School, na Avenida Sete de Setembro, e da Escola de Comércio Solón de Lucena. Dois interessantes registros fotográficos sobre alunas de datilografia foram publicados no jornal A Capital em 1917. Neles temos as jovens Bartyra Pucú Aguiar e Aracy Ferreira de Souza, alunas da Escola Remington, durante concurso realizado na mesma em 26 de julho daquele ano. O 1° lugar ficou com Amenaid Durand, enquanto Bartyra foi classificada em 2° lugar e Aracy em 3°, ambas recebendo os diplomas de competência profissional.

Aracy Ferreira de Souza, 3° lugar no Concurso de Datilografia da Escola Remington, em Manaus. FONTE: A Capital, 27/07/1917.

Como eram realizadas as provas de datilografia? A esse respeito é bastante elucidativo um informe de 1947 do concurso da Caixa Econômica Federal do Amazonas:

“DATILOGRAFIA – A prova de datilografia na qual serão exibidas condições de velocidade e correção, constará de cópia, durante 15 minutos, de trecho impresso, contendo mil e duzentos toques, nestas computados – letras, acentos, números e pontuação, e, também, os espaços entre as palavras e os paragrafos.

Sera atribuida a nota CEM, ao candidato que fizer cópia sem erro, dentro dos 15 minutos estabelecidos.

Os candidatos que não puderem executar a cópia dentro desse prazo, poderão prosseguir na prova, durante mais dez minutos, caso em que a graduação da nota de velocidade decrescerá até ZERO, na razão inversa do tempo utilisado.

A nota final sera dada deduzindo-se dos pontos referentes à velocidade, o total dos pontos negativos, correspondentes aos erros cometidos.
Será considerado habilitado nesta prova o candidato que obtiver nota igual ou superior a CINQUENTA pontos (50)”. (JORNAL DO COMÉRCIO, 20/11/1947).

Anúncio de 1938 da máquina de escrever 'Royal'. FONTE: Jornal do Comércio, 30/01/1938.

Diploma de Datilografia de 1942 do Advogado Dr. Eros Pereira da Silva (1923-2008), aluno da Escola Royal de Manaus. FONTE: Cedido gentilmente por Eros Augusto Pereira da Silva, seu filho.

Além dos cursos particulares, geralmente voltados para pessoas com maior poder aquisitivo, podia-se aprender datilografia em escolas públicas (eram poucas), igrejas e centros comunitários. A datilografia atinge o seu auge nos anos 1970. Entre as décadas de 1980 e 1990, com o surgimento e difusão dos computadores, essa técnica foi desaparecendo. Chegou um momento em que os cursos pararam de ser ofertados, restando apenas lembranças impressas em forma de diplomas ou fotografias.


FONTES:

Mensagem do Governo do Estado do Amazonas, 10/07/1914.

Mensagem do Governo do Estado do Amazonas, 10/07/1918.

Mensagem do Governo do Estado do Amazonas, 14/07/1923.

Jornal do Comércio, 29/07/1916.

Jornal do Comércio, 20/11/1947.