quinta-feira, 31 de julho de 2014

Aberta ao mundo

Navio a vapor no rio Madeira.

A Amazônia permaneceu um bom tempo isolada do restante do Brasil e de outros países. As dificuldades técnicas e as leis imperiais restritivas à Livre Navegação eram fatores que dificultavam as relações com outras regiões. A região começa a sentir as primeiras mudanças sociais e econômicas ainda no época Imperial. Dois acontecimentos vão marcar o fim desse isolamento.

O primeiro acontecimento foi a introdução da navegação a vapor, em 1852. Quem detinha o monopólio da navegação era o Barão de Mauá, o mais rico empresário do Império. Esse privilégio era garantido pela Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas, que passou, posteriormente, a operar em conjunto com a Amazon Steam Navigation Company Limited, fundada em Londres (DAOU, 2000, p. 12-13). O vapor encurtou as distâncias com os principais centros financeiros da época e serviu a escoar a crescente produção de borracha.

Consequência do primeiro, a Abertura dos Portos do Amazonas à Navegação Estrangeira foi o segundo acontecimento. Pressionado por americanos e europeus, que utilizavam a justificativa de expandir a região à economia internacional, e pelas elites do Pará e do Amazonas, que ansiavam por mudanças, o Império do Brasil decretou, em 7 de setembro de 1867, a abertura dos rios Amazonas, Tocantins, Tapajós e Madeira à navegação internacional.

Esses acontecimentos marcaram profundamente a vida dos povos amazônicos. Onde antes viviam sem distinção o índio, o branco e o negro, passou a reinar uma forte divisão de classes. A região integrou-se a economia capitalista, exportando matérias primas valiosas como a borracha e importando manufaturas dos Estados Unidos e da Europa. Os costumes também mudaram. Instalou-se um crescente cosmopolitismo, com valores importados da Inglaterra e da França. Nas palavras do sociólogo Márcio Souza

"A Amazônia, na historiografia esquemática que se escreve sobre ela, parece ter experimentado um vigor inesperado que a retirou do silencioso passado colonial, com suas vilas de poucas casas, para um ritmo trepidante e voraz. Uma nova psicologia obrigava as elites a já não se satisfazerem com a vida pacata e provinciana". (SOUZA, 1994, p. 134)



FONTES: DAOU, Ana Maria. A Belle Époque Amazônica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

SOUZA, Márcio. Breve História da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://alekspalitot.blogspot.com.br/




segunda-feira, 28 de julho de 2014

Fúria animal na Ilha Ramree

No Pântano de Ramree, os soldados japoneses encontraram um trágico fim. Com mais de 5 metros, os crocodilos de água salgada mataram centenas de homens que não se renderam e morreram em honra à pátria.

O maior número de mortes humanas causada por um único animal pode ter ocorrido durante a Batalha da Ilha Ramree, em 19 de fevereiro de 1945. Cerca de 1000 soldados japoneses tiveram que escapar de um ataque dos Aliados atravessando um pântano infestado de crocodilos de água-salgada. 

A resistência japonesa, encurralada no pântano, prosseguiu durante dias sem que jamais se rendessem. Com os dias, vários soldados morreram por fome ou falta de água, mas sobretudo, pelas péssimas condições do terreno e o espreito da fauna selvagem. O depoimento de um soldado aliado recorda o fato sinistro que seguramente ficou gravado para sempre em sua memória, durante uma noite de espreito no pântano:

"Entre o esporádico som dos disparos podíamos ouvir aterrorizados os gritos dos japoneses feridos, dilacerados pelas mandíbulas dos enormes répteis, e o inquietante e alarmante som dos crocodilos girando criava uma cacofonia infernal que rara vez se igualou na Terra. Ao amanhecer chegaram os abutres para limpar o que os crocodilos haviam deixado..."

Estima-se que o total de mortos no pântano atingiu várias centenas. Ainda entre tanta tragédia, aproximadamente 500 soldados japoneses conseguiram escapar e se unir a sua tropa. Uma vez finalizados os disparos e a resistência, os aliados adentraram a zona do pântano e resgataram somente 20 sobreviventes.

O Guinness Book of Records atribui a esse episódio o título de "O maior desastre causado por animais".




FONTES: Wild World - Natural History from around the world - http://iberianature.com/

Metamorfose Digital - http://www.mdig.com.br/?itemid=7963

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Um Campo de Concentração no Brasil: o Hospício de Barbacena

Os internos viviam em condições degradantes.

A nossa história tem episódios vergonhosos que, infelizmente, caem no esquecimento. Esses momentos devem permanecer na memória coletiva para que nunca mais se repitam. O episódio aqui escrito trata-se das milhares de mortes que ocorreram por quase um século no Hospício de Barbacena, em Minas Gerais. Esse Hospício foi fundado em 1903, numa época em que Ordem e Progresso eram para poucos. Lendo sua história, chegasse a conclusão de que ele não foi construído para melhorar a vida de pessoas com problemas, mas sim de esconder o que os políticos e os poderosos da época achavam "feio". Abaixo, a transcrição de partes do prefácio do livro Holocausto Brasileiro - vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil, da escritora Daniela Arbex, publicado em 2013.

"Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Tinham sido, a maioria, enfiadas nos vagões de um trem, internadas à força. Quando elas chegaram ao Colônia, suas cabeças foram raspadas, e as roupas, arrancadas. Perderam o nome, foram rebatizadas pelos funcionários, começaram e terminaram ali.

Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros as quais perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram tímidos. Pelo menos trinta e três eram crianças.

Homens, mulheres e crianças, às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs.

Os pacientes morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo - e também de invisibilidade. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, na frente dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.

Pelo menos trinta bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados.

Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu o Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”. "




CRÉDITO DA IMAGEM: http://psicologianicsaude.wordpress.com/





quinta-feira, 24 de julho de 2014

A morte das religiões


O homem busca, nas diferentes religiões ao redor do mundo, conforto espiritual e explicações para a dura e fascinante jornada que é a vida. É assim desde o alvorecer dos tempos: Paganismo, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Budismo ,etc ; a maior parte da humanidade é adepta de alguma dessas crenças.

Com o passar dos séculos, as religiões foram perdendo seu significado original. Deixaram de confortar e ajudar as pessoas e tornaram-se poderosos mecanismos políticos, econômicos e sociais. A derrocada começa no fim da Idade Média, quando a razão e a ciência surgiram e começaram a refutar ideias aceitas pela tradição. As religiões, historicamente relutantes em aceitar o novo, não acompanharam essa evolução, continuando seus reinados de imposição e Fé cega.

Essa mudança drástica abriu as portas para uma série de aproveitadores que se autodenominam líderes espirituais, e que se aproveitam da ingenuidade e do medo de seus seguidores para garantir lucros e status social. São criadas várias denominações, a maioria com discursos materialistas e preconceituosos, além de ignorarem o bem estar espiritual de seu "rebanho", pronto para o abate mental.

Felizmente ainda existem líderes que prezam pelo bem estar de seus seguidores, os ensinando a prática de boas ações, gerando gentileza pela gentileza, sem pedir nada em troca.

As religiões devem ser analisadas com cuidado. Não podem ser tratadas de qualquer forma. Além de serem uma prática cultural do homem, elas envolvem FÉ, CULTO, COMUNIDADE, CREDO E CÓDIGO. Cada indivíduo é livre para escolher ou não uma delas, e entender a vida de acordo com seus sentimentos individuais. 

A religião deve ser adotada como um instrumento de união e amor entre os povos, e não de guerras e diferenças como ocorriam no passado. Um Cristão não é melhor que um Budista, e vice-versa. Por quê o título A Morte das Religiões? Não sou adepto de nenhuma crença, e infelizmente vejo que as pessoas cada vez mais, por causa de má interpretação e péssimas lideranças, estão mais se separando do que unindo. Isso ocasiona, aos poucos,  "morte" das religiões.

Cabe aos líderes e seguidores de cada religião resgatar o papel de união e refúgio espiritual perdido à séculos. Posso até não estar mais aqui para ver, mas tenho esperança de que chegará o dia em que as pessoas verão que a diversidade religiosa só torna o mundo um lugar melhor.












terça-feira, 22 de julho de 2014

A possível Primeira Guerra


Às vésperas da comemoração do centenário da Primeira Grande Guerra Mundial, pesquisadores descobrem vestígios de um confronto bélico de grandes proporções, o mais antigo que se tem notícias. As guerras não são uma novidade da história moderna do mundo. 

Sua tradição está presente em todas as civilizações, desde os primórdios da humanidade. De acordo com um estudo recente, realizado por pesquisadores franceses sobre restos humanos encontrados nas margens do Rio Nilo, o primeiro grande conflito armado teria acontecido há 13 mil anos, e durou muitos meses.

Uma investigação paralela feita por antropólogos ingleses e norte-americanos revelou que a causa mais provável tenha sido uma disputa sobre diferenças raciais. Essa teoria se baseia na etnia dos esqueletos encontrados, pertencentes ao povo subsaariano, os mais primitivos ancestrais da raça negra contemporânea. Seus inimigos poderiam pertencer a outra etnia, mais precisamente ao povo levantino, que habitava a região do Mediterrâneo.

Os dois grupos tinham características físicas bastante diferentes, além de grandes discrepâncias culturais e linguísticas, o que poderia ter causado uma grande disputa pelos recursos naturais do lugar. Tudo indica que o enfrentamento tenha ocorrido durante uma época de grandes mudanças climáticas, após um período de resfriamento global, que promovia grandes migrações de pessoas em busca dos poucos alimentos e outros recursos de subsistência disponíveis.

Assim teria começado a longa e triste história das grandes guerras mundiais.



Fonte e imagem: The Independent. Texto retirado de The History Channel

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Bombardeio de Manaus

Estado do Bazar Amazonense ao final da tarde de oito de outubro de 1910.

Durante a República Velha (1889-1930), as disputas políticas eram intensas. Esses confrontos eram, na maioria das vezes, marcados pela violência, como é o caso do Coronéis dos interiores, que, por meio de favores ou ameaças, concentravam extensos currais eleitorais. Além disso, várias acusações e fraudes eram forjadas para favorecer determinado político. 

Depois da morte do governador Eduardo Gonçalves Ribeiro em 1900, o Amazonas passou a ser governado por grupos oligárquicos descompromissados com a população. Em Manaus, o ápice das disputas políticas ocorreu em oito de outubro de 1910. Esse episódio ficou conhecido como O Bombardeio de Manaus. Sobre esse momento o historiador Aguinaldo Nascimento Figueiredo o descreve com as seguintes palavras:
"O ponto crítico das disputas oligárquicas no Amazonas ocorreu na manhã do dia 8 de outubro de 1910, quando a cidade de Manaus foi alvo de um violento bombardeio naval, desfechado por ordem do comandante da flotilha Marinha de Guerra, em apoio ao vice-governador do Estado, Antônio Gonçalves Sá Peixoto, ligado ao grupo do caudilho Pinheiro Machado. O motivo alegado para o ataque foi a resistência do governador Antônio Ribeiro Bittencourt à decisão do Congresso de representantes do Amazonas de cassar seu mandato, acusado que foi de descumprimento de determinações legais e comerciais, má gestão financeira e outros abusos que desagradavam seus desafetos.
Depois dos bombardeios, que destruíram vários prédios da zona central de Manaus, o Palácio do Governo foi invadido, seguindo-se de intensa fuzilaria e muita confusão na cidade. Após tentar algumas manobras evasivas, o governador, sob forte pressão dos rebelados e sem apoio imediato dos aliados, renunciou ao cargo. Mesmo fora do poder, Antônio Bittencourt articulou o apoio do presidente Nilo Peçanha e, com reforços militares vindos do Governo do Pará, ele retornou triunfantemente ao cargo, mas foi deposto em 1912. Embora as justificativas para o extremo ato bélico tenham tido conotações econômicas, as motivações reais desses conflitos ocorreram eminentemente pelo puro personalismo de seus protagonistas, para mostrar "serviço" aos seus chefes "coronéis" da República Velha".

Vista lateral da casa do do Dr. Simplício na Praça dos Remédios


Estado do Palácio após alguns dias do bombardeio.


Principais pontos atingidos no Bombardeio de 1910. Obra de Paulus Caesar.



CRÉDITO DAS IMAGENS: http://commons.wikimedia.org/



sábado, 19 de julho de 2014

A Rebelião de 1924 em Manaus

Por Aguinaldo Nascimento Figueiredo


Com o colapso da economia gomífera, o Estado do Amazonas e todo o seu aparato institucional transformou-se em fonte de sustentação das oligarquias regionais, acasteladas no poder desde a fase da criação e instalação da Província. Manaus, outrora a vitrine da modernidade e símbolo da opulência no Norte do país, é uma cidade decadente. Em face dessa situação, desencadear-se-à uma violenta luta entre esses grupos oligárquicos pelo controle da máquina do Estado.

Enquanto a maior parte da sociedade manauara passava por uma crise econômica e social sem precedentes, o grupo oligárquico estabelecido momentaneamente no poder, se apoderava indevidamente das rendas estaduais, apropriava-se dos salários dos funcionários, vendia inescrupulosamente bens públicos e praticava as mais abomináveis fraudes e negociatas, com o intuito de auferir mais riquezas e se perpetuar no poder.

O Governo Central sediado no Rio de Janeiro mostrava-se sempre incompetente aos desmandos perpetrados pelos caudilhos regionais, bem como indiferente em atender aos reclamos das regiões mais pobres. Quando o fazia era tão somente para acolher pleitos pontuais, fazendo empréstimos paliativos para minimizar as dívidas ou fazer ou fazer alguma mínima concessão política. Até porque, no plano nacional, a política oligárquica da "República do Café com Leite", capitaneada pelos estados de São Paulo e Minas Gerais, polarizavam os interesses mais importantes da nação em benefício dos agronegócios de café, em detrimento aos demais estados brasileiros.

O desembargador e governador Cesar do Resende do Rego Monteiro.

No Amazonas o ponto crítico desses ardis sucedeu-se no governo do desembargador César do Rego Monteiro (1924), quando este tentou vender para um grupo norte-americano, o The J.C. White Engineering Corporation, 25% das terras do Estado, ou um território equivalente à França, em troca de um empréstimo de 3 milhões de dólares, sendo que, a transação só não se concretizou, por intervenção direta do governo federal.

A insatisfação popular era muito grande diante do comportamento reprovável da grupo de Rego Monteiro no poder, que não obedecia aos princípios federativos, desafiando, inclusive, o poder central, reprimindo opositores e praticando o mais descarado nepotismo.

Havia algum tempo que militares ligados ao Tenentismo vinham se articulando para promover um levante local para depor o poder constituído, substituindo Rego Monteiro e seu grupo e assim iniciar a grande revolta nacional pelo Norte do país. Faltava apenas a oportunidade e o momento adequado para realizá-lo.

A rebelião tenentista já havia eclodido em São Paulo em 05 de julho de 1924, estimulando os líderes locais a apressar o movimento. O motivo para a sua deflagração surgiu dias depois, quando o governador Rego Monteiro impôs a candidatura de Aristides Rocha para lhe suceder no mandato seguinte, que seria iniciado em 1925-1929. Esse ato foi interpretado pelos rebeldes como a senha para iniciar as operações militares, pois viam na intenção do governador um plano para manter seu grupo no poder e assim também continuar o status de descalabro político-administrativo que vigorava no Estado.

O Destacamento do Norte do general Mena Barreto, desembarcando em Manaus em 1924.

Apesar de alertadas pelo governo federal, as autoridades locais nada fizeram para impedir o levante. Em 23 de julho de 1924, à frente das tropas do 27° Batalhão de Caçadores, o capitão José Carlos Dubois, comandante do referido batalhão, os tenentes Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, Joaquim Magalhães Barata, todos do Exército brasileiro, junto com os tenentes da Marinha de Guerra José de Lemos Cunha e José Becker Azamor, depuseram o Governador Turiano Meira, substituto de Rego Monteiro, que se encontrava em viagem a Europa. Sobre esse momento a historiadora Eloina Monteiro dos Santos o descreve com as seguintes palavras:

"Uma força do 27° Batalhão de Caçadores descia a Avenida Eduardo Ribeiro, conduzindo a artilharia. Os soldados marchavam na melhor ordem, em forma, como se fossem realizar uma parada. Mas o carro de guerra que puxavam, despertou a atenção de toda a gente, que observava discretamente o desfile da tropa. Dez minutos depois, ouviram-se ruídos de fuzilaria e alguns disparos de canhão em rumo do Quartel da Polícia".

Nesse ínterim, a população que residia próximo à área dos confrontos entrou em polvorosa, refugiando-se em suas casas ou aonde pudessem se proteger. A confusão era geral. Após escaramuças e muita fuzilaria entre tropas de rebeldes e legalistas da Polícia Militar, que duraram cerca de uma hora, o quartel dos milicianos estaduais é tomado pelos rebeldes, recebendo logo em seguida a sua rendição. No embate, o comandante da Polícia Militar, coronel Pedro de Souza, foi ferido gravemente.

Prosseguindo em suas ações, os insurretos subiram a avenida Sete de Setembro e tomaram de assalto o Palácio Rio Negro, bem como ocuparam as estações telegráficas e de telefonia da cidade, se apossaram do navio vapor Bahia, de propriedade do Lloyd brasileiro que se encontrava atracado no cais do porto de Manaus. Com os principais meios de comunicação da cidade sob seu domínio, os rebeldes passaram a difundir seus ideais da Revolução Tenentista por meio do "Jornal do Povo", ocasião em que tentavam explicar as razões do movimento e o que esperavam do sucesso dele.

Tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior.

Durante a invasão do Palácio, o governador Turiano Meira conseguiu escapar da prisão empreendendo fuga numa lancha previamente ancorada nos fundos do Palácio Rio Negro, supostamente trajando roupas femininas. Vários assessores de Rego Monteiro foram presos, inclusive seu irmão Mário Monteiro, acusado de ser o chefe do grupo criminoso que extorquia os funcionários públicos e promoviam os leilões escusos das casas confiscadas pela Fazenda Estadual.

O tenente Ribeiro Júnior ainda tentou negociar com representantes do poder judiciário local, a legitimidade de sua medida saneadora, pedindo-lhes o apoio necessário para dar encaminhamento de seus propósitos. Entretanto, a sua solicitação não foi acolhida por nenhum dos representantes dessa esfera pública, tendo ele mesmo que assumir a tarefa de governar o Estado extemporaneamente, até que o movimento ao nível nacional fosse vitorioso e a situação local se normalizasse.

O Estado do Amazonas foi governado pelo Tenente Ribeiro Júnior de 23 de julho a 28 de agosto de 1924. Neste período, Ribeiro Júnior instituiu o "Tributo da Redenção", ato que consistia no confisco e venda de bens roubados do Estado, que era revertido para o pagamento do salário atrasado do funcionalismo, desfez todos os atos arbitrários do governo anterior, prendendo e expulsando do serviço público os elementos envolvidos com o governo de César do Rego Monteiro.

O Governo Federal enviou uma força militar - o Destacamento do Norte, sob o comando do General João de Deus Mena Barreto, para debelar a rebelião. Em 28 de agosto de 1924, a força militar chegou a Manaus, depôs e prendeu Ribeiro Júnior junto com seus companheiros do movimento, alguns já haviam sido derrotados em breve combate na cidade de Óbidos, no Pará. Julgado no Rio de Janeiro pela Justiça Federal, Ribeiro Júnior é condenado a um ano e quatro meses de reclusão.

Depois de Restabelecida a ordem, o coronel Raimundo Barbosa assumiu o governo até a volta do governador deposto Turiano Meira, para que esse reassumisse suas funções sob garantias federais. Contudo, o governador recusou-se a voltar ao cargo renunciado em seguida. No seu lugar, o governo federal nomeou, dezembro de 1924, o chefe da polícia de Minas Gerais, o coronel Alfredo Sá, como interventor do Amazonas, que governou até 1925.


AGUINALDO NASCIMENTO FIGUEIREDO (56) é professor, escritor e historiador formado pela UFAM. Escreveu, durante três anos, as colunas de História do Amazonas e Museu do Conhecimento, publicações dominicais do jornal "O Estado do Amazonas", o que lhe valeu Votos de Aplausos, no Senado Federal em 2004. Aguinaldo possui mais de 500 artigos publicados em diversos jornais e revistas, como Folha Comercial do Amazonas, O Estado do Amazonas e Revista Big Amazonas. Suas principais obras são: História Geral do Amazonas (2000), 7.ed, trabalho que foi fruto de mais de 10 anos de pesquisas, Santa Luzia, História e memória do povo do Emboca (2008) e Os Samurais das Selvas, A presença japonesa no Amazonas (2012).




CRÉDITO DAS IMAGENS: http://www.manausonline.com/
                                   História do Amazonas - Aguinaldo Figueiredo
                                   http://catadordepapeis.blogspot.com.br/




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Meu Bairro Querido

Uma rua do bairro São Lázaro em 1960.

Moro na Zona Sul de Manaus. Essa zona, acredito eu, é diferente do que se vê em outras cidades do país. Ela não abriga bairros nobres. Aqui, a maioria dos mais abastados estão na Zona Centro-Sul e Oeste. A parte sul, porém, guarda os bairros mais antigos, os que deram origem a cidade.

O bairro São Lázaro nasceu na década de 1950. Eram tempos difíceis para o Amazonas. Passados o efêmero Ciclo da Borracha de 1890 a 1920 e a rápida recuperação Durante a Segunda Guerra Mundial, o Estado vivia mais de 30 anos em recessão econômica. Primeiro foram os europeus que a abandonaram, depois foi Getúlio Vargas, que utilizou a região para fornecer borracha para os Aliados.

Além da péssima situação financeira, a natureza também agravava a situação. Em junho de 1953, as águas do Rio Negro atingiram a marca de 29,69 metros. Essa foi, por décadas, a maior cheia do Amazonas. Várias famílias vieram do interior para a capital, ocasionando o primeiro boom populacional da cidade. O São Lázaro, ou "Barro Vermelho", nome que recebia por causa da coloração do solo, nasce durante esse período, sendo fundado por seringueiros abandonados, os 'Soldados da Borracha', e por pessoas vindas de cidades como Itacoatiara, Manacapuru e Parintins.

Com a instalação da Zona Franca em 1967, o progresso trouxe, além de melhorias, problemas que existem até hoje, tanto no bairro como na cidade. Ruas foram asfaltadas, a energia elétrica e a água chegaram nas residências. Os problemas ficam por conta das constantes invasões que o bairro sofreu, principalmente na Rua Magalhães Barata e adjacências.

Foi pelas mãos de Carlos Viana, um jovem de 14 anos que sonhava em ser padre, que o bairro passou a ser reconhecido desde 1958. Carlos saiu de Manaus em 1972, quando entrou para a Polícia Militar de Porto Velho. Desde aquela época, perdeu-se contato com ele. Seu nome caiu no esquecimento do bairro. Nenhuma rua ou instituição leva o seu nome. A História está aqui para lembrar as pessoas de suas origens.

Hoje o São Lázaro cresce à passos lentos. O progresso parece ter dado uma "pausa". O Catolicismo é a religião predominante, marcando a paisagem com procissões em nome do Santo Lázaro. No início, os moradores sobreviviam da venda de capim para fábricas de colchões, da coleta de caju e da produção de farinha. Hoje, a economia é baseada em pequenos comércios e na renda da maioria dos moradores que trabalham no Polo Industrial. Vez ou outra temos uma ocorrência, mas nada que abale as estruturas.


Bairro São Lázaro em 2013.



CRÉDITO DAS IMAGENS: Paróquia São Lázaro
                                   Google Street View




terça-feira, 15 de julho de 2014

Terror após a Guerra: Pogrom de Kielce

Vítimas do Pogrom de Kielce sendo transportadas em caixões para enterro em cemitério judaico. 1946.

Pogrom é uma palavra russa que significa "causar estragos, destruir violentamente". Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países. Acredita-se que o primeiro incidente deste tipo a ser rotulado pogrom foi um tumulto anti-semita ocorrido na cidade de Odessa em 1821. 

Durante o período do nazismo na Alemanha e no leste europeu, assim como havia acontecido na Rússia Czarista, os pretextos para os pogroms eram ressentimentos econômicos, sociais, e políticos contra os judeus, reforçando o já tradicional anti-semitismo religioso.

Os perpetradores dos pogroms os organizavam localmente, algumas vezes com o incentivo do governo e da polícia. Eles estupravam e matavam suas vítimas, além de vandalizar e roubar suas propriedades. 

A onda de violência nas ruas, orquestradas por todo o território alemão entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938 tornou-se conhecida como a Noite dos Cristais, o ápice de um longo período de violência esporádica contra os judeus. A Noite dos Cristais foi seguida por um dramático aumento de leis de cunho anti-semita no final de 1938 e início de 1939. Outro período de violência nas ruas ocorreu nos dois primeiros meses do regime nazista e culminou em uma lei, proclamada em 7 de abril de 1933, que demitia os judeus e comunistas de seus empregos públicos. Alguns meses antes de se anunciarem as Leis Raciais de Nuremberg, em setembro de 1935, ocorreram inúmeros atos de violência contra os judeus em diversas cidades alemãs. Tais atos envolviam a queima de sinagogas, destruição de casas e de negócios judeus,além de agressão física. A Noite dos Cristais foi, com certeza, o mais destrutivo e o mais claramente coordenado destes "pogroms".

Os violentos ataques continuaram mesmo com o fim da Guerra. Em 4 de julho de 1946, em Kielce na Polônia, moradores locais iniciaram um pogrom contra os judeus sobreviventes que retornavam à cidade e tentavam reaver suas propriedades, já ocupadas pela população local. Multidões atacaram os judeus após ouvirem falsos rumores de que os mesmos haviam raptado uma criança cristã para sacrificá-la em um ritual religioso. Os assassinos mataram pelo menos 42 judeus e feriram cerca de 50 mais.

O pogrom de Kielce foi um dos fatores que levaram centenas de milhares de judeus sobreviventes do Holocausto a migrarem do leste para o oeste da Europa. Um movimento, conhecido como Brihah, levou os judeus poloneses e de outros países do leste europeu para campos de deslocados de guerra, localizados em áreas no oeste da Alemanha e da Áustria ocupadas pelos Aliados, bem como na Itália. O medo dos violentos pogroms foi a motivação que levou a grande maioria dos judeus a sair da Europa após a Guerra.


FONTE: United States Holocaust Memorial Museum


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.museumoffamilyhistory.com/



O Dilúvio Greco-Romano

Deucalião e Pirra, uma versão de 1562 de Metamorfoses, de Ovídio.

O "Dilúvio" é uma inundação em grandes proporções, causada por dias de chuva. Ela é gerada por uma Divindade para limpar a terra de uma humanidade que se tornou impura. Esse evento é mais conhecido na mitologia cristã, da qual o personagem Noé faz parte. Existem registros de 4.500 anos, presentes nas civilizações sumérias, egípcias, assírias e persas. Abaixo, uma versão do mundo Greco-Romano.

"Júpiter resolveu punir os homens ímpios que violavam os juramentos, que não praticavam a hospitalidade e que repeliam os pedintes; Netuno foi encarregado do castigo. "O deus dos mares feriu a terra com um golpe do tridente; ela estremeceu e a água foi jorrando abundantemente dos mais profundos dos abismos.



Os rios, transbordando, inundaram a terra, arrebataram o trigo, as árvores, os rebanhos, os homens e fizeram ruir os templos e casas. Quando um palácio resistiu à impetuosidade da torrente, a água o cobria inteiramente e as próprias torres ficam submersas sob as ondas. Já estavam a terra e o mar confundidos.



Havia entretanto no meio dos mortais um homem justo, Deucalião, a quem os deuses resolveram poupar, com sua mulher Pirra. Refugiando-se numa arca,ancoraram-na no ao Monte Parnasso, quando o dilúvio terminou. Logo depois o casal chega a triste conclusão que só eles dois, é que se vê sobre a terra; o resto está sepultado para sempre debaixo das águas!

Decidiram implorar o socorro  do céu e a consultar os seus oráculos, a Deusa Têmis (a Justiça), rumaram então para o seu templo, onde que pelas súplicas os dois voltaram a povoar a terra".

(MENARD, René. Mitologia Greco-Romana. Vol 1, Editora Opus, 1991. P. 45-46)



O Titã Prometeu, pai de Deucalião, tinha o dom da profecia, e viu que os deuses planejavam purificar a terra varrendo a humanidade. Com as indicações dele, Deucalião construiu uma arca para sobreviver ao desastre.


Depois de escaparem do desastre, o casal recebeu esses dizeres do oráculo:


Saiam do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai para trás os ossos de vossa mãe.

Deucalião pensou seriamente e chegou à conclusão de que se a Terra era a mãe comum de todos, as pedras seriam os seus ossos. Resolveram tentar. Os dois velaram o rosto, afrouxaram as vestes, apanharam as pedras e atiraram-nas para trás. As pedras amoleceram e começaram a tomar forma humana. As pedras atiradas pelas mãos do homem, tornaram-se homens; pelas mãos da mulher, tornaram-se mulheres.



CRÉDITO DA IMAGEM: http://commons.wikimedia.org/




sábado, 12 de julho de 2014

Um intercâmbio de sabores

"Frutas brasileiras", Albert Eckhout.

Durante a colonização do Brasil, os portugueses foram responsáveis por introduzir no território espécies da fauna e da flora européia, asiática e africana. Daqui também saíram produtos que fizeram e ainda fazem sucesso na alimentação de vários povos. Foi uma globalização de sabores e aromas.

A banana, originaria do Sudoeste asiático, foi uma das primeiras frutas plantadas no Brasil, vinda provavelmente da ilha de São Tomé, na África. O inhame também veio do continente africano. Recompensamos os africanos com a mandioca, o amendoim, o cará, a batata-doce e a pimenta. Em Goa, na Índia, nosso mamão e caju encontraram um ótimo clima e logo se espalharam pelo Oriente. Da Ásia vieram algumas especiarias, como o gengibre. A cana-de-açúcar, também desse continente, chegou ao Brasil ainda no século 16, e foi responsável por um dos mais prósperos ciclos econômicos da nossa história.

De Portugal, vieram para o Brasil laranjeiras e limoeiros, além de várias frutas como marmelos, figos e melões, e também couves, alfaces, salsinha, coentro e muitos outros legumes e verduras. Nas caravelas, animas estranhos para os indígenas: vacas, porcos, cabras, carneiros e galinhas. E da África vieram as famosas galinhas d' Angola.

Os ingredientes nativos foram se misturando aos estrangeiros. Os peixes passaram a ser comidos com as verduras trazidas de Portugal; na falta dos vinhos de uva entravam as bebidas fermentadas feitas de mandioca ou de milho; sem o azeite de oliva, a banha de peixe-boi temperava carnes e saladas, e o trigo, artigo de luxo, era substituído pela farinha de mandioca fina, e bolos e compotas passaram a ser feitos com abacaxi, goiabas e outras frutas nativas.

Cobras, formigas, tartarugas e rãs foram ganhando o paladar dos colonizadores. Os índios, demoraram um pouco a assimilar os ingredientes introduzidos pelos portugueses. Pero Vaz de Caminha, em sua carta a El-Rei D. Manuel relata, quando entraram em contato com os primeiros indígenas no litoral

"Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora".

Esse intercâmbio de ingredientes provocou mudanças permanentes  em nossa alimentação, agricultura e economia. As espécies trazidas nos primórdios da nossa história, são até hoje criadas ou cultivadas, garantindo a formação do tão famoso e exótico cardápio brasileiro.




FONTES: HUE, Sheila Moura. Delícias do Descobrimento - a gastronomia brasileira no século XVI. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Carta a El-Rei D. Manuel. Pero Vaz de Caminha. Domínio público. Disponível em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/carta.pdf



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quinta-feira, 10 de julho de 2014

A diversidade religiosa da Índia


A diversidade religiosa indiana é algo impressionante. Hinduísmo, Islamismo, Cristianismo, Sikhismo, Jainismo, Budismo e Zoroastrismo são as religiões que marcam, com milhares de deuses e deusas; líderes espirituais; templos e tradições, a vida desse imenso país. Essa quantidade de religiões se explica a partir da quantidade de povos que formaram a Índia: Povos do vale do Indo, Arianos, mongóis, europeus, etc.

O Hinduísmo é a religião predominante, sendo praticado por mais de 80% da população. Sua marca é a presença de milhares de deuses e deusas e a doutrina da transmigração das almas de uma existência para a outra; e o complexo sistema de castas, que estrutura a sociedade hindu, confinando cada indivíduo, de acordo com seus antepassados, em um grupo com obrigações e proibições distintas. A Constituição do país declara que nenhuma religião tem preferência sobre qualquer outra.

Existem mais de 75 milhões de muçulmanos no país. O Islamismo, religião monoteísta, foi criada pelo profeta Maomé na atual Arábia Saudita. Seus ensinamentos encontram-se no livro sagrado conhecido como Alcorão. Foi introduzida no país por meio das invasões mongóis.

O Cristianismo possui cerca de 35 milhões de adeptos. Os cristãos da Índia são descendentes dos casamentos realizados nos séculos 18 e 19 entre indianas e ingleses.

Os praticantes do Sikhismo são cerca de 19 milhões. Essa religião, que surgiu no século 15, é uma mistura do politeísmo hinduísta com o monoteísmo islâmico. Segundo a religião, nossa vida atual está relacionada à acontecimentos em vidas passadas. Além disso, pregam a tolerância como um meio de libertação.

A religião Budista conta com 5 milhões de praticantes. Ele surgiu na Índia no século 6 a. C., Assim como o Hinduísmo, ela acredita na transmigração das almas que evoluem de um para outro instrumento terreno; não estabelece criador ou causa primeira; e rejeita o sistema de castas.

Surgida quase que no mesmo período do Budismo, o Jainismo com cerca de 3,5 milhões de praticantes, também não estabelece um ser criador ou causa primeira para o universo e prega a reverência a todos os seres vivos.

Há ainda, cerca de 100 mil persas, descendentes de antigos seguidores de Zoroastro -, cuja religião surgiu no século 6 a. C., - que, devido a perseguições religiosas posteriores à chegada do Islamismo, se deslocaram da Pérsia para o leste, e algumas centenas de judeus, sobretudo nas grandes cidades e no sudoeste.

Uma minoria da população não segue nenhuma dessas religiões. São os povos tribais, que possuem credos animistas, venerando as forças encontradas na natureza.




FONTE: Nações do Mundo - Índia. Tradução: Gabriel Tranjan Neto. Abril Livros: Rio de Janeiro, 1988.



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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Uma nova visão sobre as Capitanias Hereditárias


Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o engenheiro Jorge Cintra fez uma descoberta que pode mudar os livros escolares. Em um artigo recente, ele contesta o mapa das Capitanias Hereditárias eternizado por Francisco Adolfo de Varnhagen, considerado o pai da historiografia nacional, e propõe mudanças significativas no seu desenho. A partir de documentos da época, Cintra, que leciona na Escola Politécnica da USP, conseguiu reconstruir com maior exatidão os limites das porções de terra doadas, entre 1534 e 1536, pela Coroa Portuguesa a comerciantes e nobres lusitanos.


A técnica evoluiu muito, os instrumentos de medição também. Para a cartografia, isso proporciona maior rigor na obtenção de resultados. E, sobretudo, acho que o professor Cintra, por ser engenheiro, teve uma exatidão que talvez um historiador não tivesse. O grande mérito dele foi ter verificado um erro de base, um erro de interpretação - elogia o geógrafo Jurandyr Ross, responsável por romper um paradigma semelhante ao propor uma nova classificação para o relevo brasileiro.

O sistema de Capitanias Hereditárias, que já havia sido utilizado com relativo sucesso na África, dividiu o território em 15 partes e pretendia viabilizar a exploração das riquezas do “Novo Mundo”. As terras tinham como limites o Oceano Atlântico, a Leste, e o Tratado de Tordesilhas, a Oeste. Após recuperar, analisar minuciosamente as cartas de doação e de notar detalhes que passaram despercebidos por Varnhagen em mapas da época, Cintra assegura que, no Norte, a divisão das fronteiras não foi feita de acordo com paralelos, e sim através de meridianos.
- Coloquei tudo em dúvida. Descobri um erro ao Sul e resolvi conferir todo o resto. Logo percebi que, de fato, o Norte não estava bem resolvido. Havia capitanias finas demais, era uma incógnita - explica.
De fato, as fronteiras que constam no mapa do Atlas Histórico Escolar do MEC, desenhado por Manoel Maurício de Albuquerque sob forte influência das definições de Varnhagen, mostram territórios extremamente estreitos no Norte. Para Cintra, frases contidas nos documentos de doação são as chaves para a solução do problema. Por exemplo, o documento destinado a Antonio de Cardoso de Barros diz: “As quais quarenta léguas se estenderão e serão de largo ao longo da costa e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme adentro”.
- Se as divisas fossem para Oeste, o rei estaria doando um pedaço de mar. Isso é pouco lógico. Ora, o único jeito de se entrar sertão adentro é em direção ao Sul - sustenta.
Na mesma carta, há também uma cláusula de conflito. Ela previne a possibilidade de altercação sobre as limitações das divisas com os capitães vizinhos.
- Essa cláusula de compatibilidade não existe em nenhuma outra carta de doação. Como poderia haver conflito se as linhas fossem todas paralelas? - sentencia.

Finalmente, Cintra se valeu de uma observação sagaz do mapa de Bartolomeu Velho, de 1561. Nele, apesar de não haver divisas desenhadas, os nomes das capitanias ao Norte estão escritos em blocos separados de acordo com linhas imaginárias verticais.

- Se a divisão fosse horizontal como se pensava, o autor não precisaria “quebrar o texto” em duas ou três linhas e nem valer-se de abreviações. Ele poderia escrevê-los por extenso na mesma linha - pontua.

Além disso, no novo desenho proposto por Cintra, existem terras não distribuídas no Norte. Segundo o pesquisador, elas ficaram de fora das doações realizadas pela Coroa. Três capitanias — Maranhão, Rio Grande do Norte e São Vicente — também foram divididas em lotes. Por fim, o primeiro lote de São Vicente também teve divisas modificadas.

Para Cintra, o mapa de Varnhagen tem incorreções, pois o estudioso, em “História Geral do Brasil” (1854), recorreu a um desenho de Luis Teixeira onde as capitanias são representadas em 1586, mais de 50 anos após o início da divisão. Nele, a situação já não era mais a mesma. Por isso, o professor ressalta a importância de se duvidar de concepções tidas como definitivas:
- O artigo mostra uma coisa importante: até um entendimento que já vem de 160 anos pode ser derrubado. Ele deixa essa mensagem. Devemos colocar em dúvida outras coisas. Precisamos olhar novamente para os documentos cartográficos, voltar às fontes. Podemos ir mais fundo nos problemas.

Para Jurandyr Ross, que participou da banca de admissão de Cintra na Escola Politécnica, a descoberta é importante para o ensino de História no Brasil.

- O artigo me surpreendeu muito e causará um impacto significante para os livros escolares, que precisão corrigir esses mapas logo. Vamos ensinar uma História cada vez melhor - empolga-se.

Renato Franco, professor da disciplina Brasil Colonial no Departamento de História da UFF, elogia o artigo, mas não vê grandes mudanças na maneira com que o período pode ser enxergado pelos estudiosos do assunto.

- O texto é muito interessante. No entanto, não traz grandes impactos para a História do Brasil Colonial. Embora tenha sido completamente extinto apenas no século XVIII, o sistema de Capitanias Hereditárias rapidamente perdeu a força diante do desinteresse de boa parte dos donatários e do assédio de outras potências. Em 1549, a Coroa portuguesa mudou de estratégia e, progressivamente, as Capitanias Hereditárias foram perdendo força como forma de organização político-administrativa. O grande mérito do artigo é propor uma discussão sobre as eventuais imprecisões cartográficas, mas muda pouco no que diz respeito à nossa forma de enxergar a História do Brasil Colonial como um todo - opina.

Cintra concorda com Franco. Para ele, o período já “foi muito bem estudado” pelos profissionais brasileiros. Sobre a alteração dos livros escolares, diz não ter muita pressa. O cartógrafo explica que no meio científico, assim como na própria História, as coisas costumam levar tempo para serem completamente aceitas e solidificadas.

- A comunidade científica tem que ter calma. O primeiro reconhecimento foi ter sido publicado por uma revista de qualidade (“Anais do Museu Paulista”, da USP). Significa que revisores e editores de lá puseram a mão no fogo pelo meu trabalho. A partir daí, cada autor de livro didático tem que tomar conhecimento do artigo e se convencer dele. Então, vai começar a fase de transição - finaliza.



FONTE: Estudioso reconstrói Capitanias Hereditárias e afirma que livros escolares estão errados. Disponível em: http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/estudioso-reconstroi-capitanias-hereditarias-afirma-que-livros-escolares-estao-errados-13170302