sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Um antigo problema do Amazonas: buscar outras alternativas de desenvolvimento

Vista aérea do Polo Industrial de Manaus.

O Amazonas continua repetindo erros tão antigos quanto sua História. O Estado de grandes dimensões territoriais, lar de 16% da reserva de água doce do mundo; de cidades com grande potencial de crescimento, de minérios, fauna e flora abundantes e produtos naturais, importa quase 80% do que consome. Isso ocorre desde os tempos da colonização, quando predominava a monocultura e eram deixadas de lado áreas importantes para o desenvolvimento interno.

Nos tempos coloniais e provinciais, o Amazonas sobrevivia da extração das Drogas do Sertão, produtos de alto valor comercial extraídos da floresta (salsaparrilha, anil, piaçava, sementes oleaginosas, madeiras e urucu). Toda a força de trabalho era empregada na coleta desses gêneros, fazendo com que outras atividades, como a indústria e a agricultura, ficassem abandonadas. Quase tudo que era consumido vinha de Províncias vizinhas. Isso foi motivo de reclamação de vários presidentes que governaram a Província.

" A colheita de productos silvestres, sejam quaes forem as circumstancias é altamente prejudicial ao trabalhador e ao emprehendedor. A primeira vista parece conveniente, e lucrativa a apropriação pura e simples das riquesas naturaes (...) Colher um producto valioso, sem ter empregado capitaes, é o que se reputa bom negócio, apesar da experiência diaria provar o contrario (...) desperdício de tempo é tão grande, o trabalho tão precário e tão arriscada a sorte do trabalhador, que em resumo, os productos naturaes vêem a sahir mais caros do que se fossem cultivados (...) (Moura, Sinval Odorico.  Relatório à Assembléia Provincial do Amazonas. 25-03-1863).

Por volta de 1850, um novo produto iria figurar como o principal na pauta de exportação amazonense: a borracha. A produção de borracha da Amazônia foi responsável por 40% das exportações brasileiras. Novamente, todas as atenções ficaram voltadas para o extrativismo. O Amazonas e a região como um todo foram inseridos no mercado capitalista. No entanto, Brasil perdeu o monopólio da produção de borracha por volta de 1912, quando a produção inglesa, planejada e cultivada, ultrapassou as exportações da região Amazônica. Esse foi o primeiro sinal de que, viver apenas de uma atividade econômica, é algo muito perigoso.

Sem querer quebrar uma lógica cronológica e regional, temos como exemplo atual a falência da cidade de Detroit, nos Estados Unidos, que após mais de 70 anos como maior centro mundial da indústria automobilística, declarou uma das piores falências do país em 2013, por não suportar outros concorrentes, com uma dívida que varia entre os 18 e 20 bilhões de dólares.

O governo federal e a quase decadente elite regional buscam a reconstrução do Amazonas: Passados o efêmero ciclo da borracha e a rápida recuperação durante da Segunda Guerra, o estado vivia mais de 30 anos em recessão econômica. Em 1967, em plena Ditadura Militar, foi instalada a Zona Franca de Manaus, uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais. Esse foi um modelo bastante popular em outros continentes na década de 1960. A Zona Franca, atualmente, é a principal fonte de renda do Estado do Amazonas. Os dirigentes e empresários repetem o mesmo erro: importamos farinha, peixes, frutas e cheiro-verde. Tudo isso, com um pouco de vontade política, apoio ao agricultor e modernização do campo, poderia ser produzido aqui em larga escala.

Quando se fala em perder a Zona Franca, todos os políticos esquecem seus partidos e se unem para prorrogar esse modelo de desenvolvimento. Porquê? Por que valoriza-se mais a quantidade (altos lucros) do que a qualidade (desenvolvimento). Esse é o maior erro de todos. Podemos fazer o exercício mental, por exemplo, de imaginar Manaus e outros municípios vivendo do turismo, da agricultura, de áreas diversas. No entanto, sabemos como elas são mal aproveitadas. Quem sabe, se sofrermos outro baque como o de 1912, os políticos se conscientizem de que o Amazonas precisa aprender a andar com as próprias pernas, aproveitando melhor seu potencial natural e investindo mais em outras áreas.



CRÉDITO DA IMAGEM: www.suframa.gov.br

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Sob duas coroas: a União Ibérica



Na segunda metade do século 16, Portugal empreendeu investidas militares no Marrocos. O jovem D. Sebastião, com um exército de mais de 17 mil homens, desembarcou no Tânger, na África, e caminhou até Larache, cidade costeira do Marrocos. O exército português, sem experiência, sucumbiu junto com seu rei diante das forças mouras na Batalha de Alcazer-Quibir, em 1578.

Portugal perdeu seu exército, seu rei e o dinheiro para se reerguer. O único herdeiro vivo de D. Sebastião era seu tio-avô, o cardeal D. Henrique, único filho vivo de D. Manuel I, que já estava com a idade bastante avançada. Henrique governou durante 2 anos, vindo a falecer em 1580, sem deixar sucessores.

O trono ficou vago, e alguns netos de D. Manuel I se candidataram a ocupar o cargo: D. Catarina, Duquesa de Bragança, filha de D. Duarte, Duque de Guimarães; D. Antônio, Prior do Crato, filho de D. Luís, Duque de Beja; e Filipe II, rei da Espanha, filho de D. Isabel.

A disputa ficou entre D. Antônio e Filipe da Espanha. Antônio, querido pelo povo, não chegou ao cargo porque sua mãe era cristã-nova (judeu convertido ao Cristianismo). Felipe, invadindo Portugal com um grande contingente militar e comprando a corte portuguesa e a burguesia, venceu a disputa.

Reconhecido como rei pelas Cortes de Tomar, Filipe II da Espanha foi coroado Filipe I de Portugal, em 1581. As duas coroas, portuguesa e espanhola, foram unidas, criando um grande império colonial que duraria 60 anos. Ficaram garantidas a autonomia administrativa de Portugal e seus territórios.

Inglaterra e Holanda eram inimigas da Espanha e, como resposta à união ibérica, começaram a invadir as possessões coloniais portuguesas. Foram invadidos territórios na Ásia, na África e no Brasil, maior colônia portuguesa (os holandeses foram os principais invasores, dominando Salvador, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Sergipe).

No Brasil,  o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, passou a ser ignorado e os portugueses, aproveitando a situação, expandiram suas posses para o Sul e o Oeste. Nesta última região, se iniciaram as expedições conhecidas como Entradas, por ordem da Coroa; e as Bandeiras, realizadas por particulares. Os bandeirantes procuravam metais preciosos e índios para serem escravizados.

Portugal sofria com a cobrança de altos impostos e com a invasão de suas colônias. Os holandeses, principais inimigos da Coroa, dominariam Olinda e Pernambuco por 24 anos, de 1630 a 1654. Em 1639, o clero e a nobreza, camadas importantes da sociedade lusitana, apoiaram o povo em um movimento de contestação ao domínio espanhol. 

O Duque de Bragança foi aclamado rei em 1° de Dezembro de 1640, com o nome de D. João IV, após uma rebelião em Lisboa. Acabava a União Ibérica e tinha início a Dinastia de Bragança, que governaria por quase trezentos anos.



FONTE: FROTA, Guilherme de Andre. 500 anos de História do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2000.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.raiadiplomatica.com/




segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Poder Divino: o Absolutismo na Europa


O Absolutismo pode ser definido como um sistema político no qual todos os poderes estão centralizados nas mãos do rei. Esse sistema vigorou na Europa entre os séculos 15 e 18.

Durante a Idade Média, quando predominava o Sistema Feudal, os reis cumpriam apenas funções militares e políticas. Seus poderes eram limitados pelos senhores feudais, donos das terras onde viviam. 

Como foi visto na postagem As origens do Feudalismo, o poder na Europa era baseado em alianças recíprocas entre chefes e guerreiros, o que acabava criando um poder descentralizado. A centralização do poder só foi possível com a união entre reis e a burguesia (a burguesia dava capitais para a nobreza e, em troca, recebia benefícios comerciais). Esse processo se iniciou no século XI e deu origem à países como França, Inglaterra e Espanha.

Para consolidar o Regime Absolutista, foram criadas várias teorias, algumas com bases políticas e outras voltadas para o poder divino. O principais teóricos foram Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes, Hugo Grotius, Jacques Bossuet e Jean Bodin. Maquiavel, em sua obra O Príncipe, afirma que o soberano não deve medir esforços para governar, pois "os fins justificam os meios". O interesses reais devem ser superiores a qualquer valor cultural ou social de um povo; e os súditos devem cumprir seus mandos e desmandos.

Em Leviatã, Hobbes diz que o homem, em seu estado natural, é egoísta, instintivo e ambicioso - "O homem é o lobo do homem". Em síntese, o homem viveria em conflito com o próximo e, para que isso fosse evitado, seria necessária a intervenção do Estado, a autoridade inquestionável. 

Hugo Grotius, autor de Direito da Paz e da Guerra, lança nessa obra os fundamentos do Direito Internacional, no qual prevalece um governo despótico e o poder ilimitado do Estado. Jacques Bossuet, com Política Segundo as Sagradas Escrituras, influenciou o absolutismo francês, afirmando que o rei é um representante de Deus na Terra. Bodin cria a teoria do poder indivisível, isto é, os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário estariam nas mãos do monarca, que só se submeteria às leis naturais divinas.

O Absolutismo Inglês tem início após a Guerra dos Cem anos e a Guerra das duas Rosas. Duas famílias vão governar o país nesse período: Os Tudor e os Stuart. A primeira família, com o apoio da burguesia e do Parlamento, conseguiu centralizar o poder e governar a Inglaterra por mais de um século. Henrique VIII, principal monarca dessa dinastia, rompeu com a Igreja Católica e criou o Anglicanismo, religião oficial da Inglaterra. Sua filha, Elisabeth I, impulsionou o desenvolvimento das atividades marítimas. Nessa época, perseguidos religiosos ingleses começam a ocupar a América do Norte.

Em 1648, durante o governo Stuart, o Parlamento e a burguesia, comandados por Oliver Cromwell, deram um golpe na monarquia. Cromwell criou os Atos de Navegação, pelo qual as mercadorias importadas pelos países europeus fossem transportadas apenas por navios do próprio país ou da Inglaterra. O último rei absolutista, Jaime II, foi deposto em 1688, quando ascendeu ao poder o holandês Guilherme de Orange. O fim do absolutismo inglês ficou marcado pelo Poderio Parlamentarista. O rei reina, mas não governa.

Na França, os Capetíngios iniciaram o processo de formação do Estado centralizado, criando um poderoso exército e saindo vitoriosos em conflitos contra os ingleses. O primeiro-ministro do rei Luís XIII, Armand Jean du Plessis, o Cardeal de Richelieu, articulou estratégias para o fortalecimento do poder real: controlou a nobreza e depois se envolveu na Guerra dos Trinta Anos, com o intuito de aumentar a influência na Europa.

Luís XIV, o "Rei Sol", é o rei mais conhecido desse país.  Luís sustentou-se na teoria do governo divino, se considerando um representante de Deus na terra. A frase mais conhecida de Luís dava uma ideia de seu governo: "O Estado sou eu!". A política externa do país ficou marcada por constantes conflitos, principalmente de embates entre católicos e protestantes. Enquanto a população sofria com a miséria e a cobrança de altos impostos, foi iniciada a construção do Palácio de Versalhes.

As péssimas condições de vida da maioria da população, o descontentamento da burguesia, os ideais iluministas, etc; levaram o absolutismo francês à decadência em 1789, com a Revolução Francesa.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://jardimdasreflexoes.blogspot.com.br/









sábado, 23 de agosto de 2014

Um parque macabro: as esculturas de Veijo Rönkkönen



Existe na Finlândia uma atração turística de arrepiar. O local, considerado como o conjunto mais importante de arte popular contemporânea desse país, fica localizado na floresta de Parikkala, na parte oriental da Finlândia. O ponto forte do parque é a ornamentação, feita com centenas de esculturas com feições e poses assustadoras.

O autor desses trabalhos é o finlandês Veijo Rönkkönen, antigo funcionário de uma fábrica de papel. Veijo completou sua primeira escultura em 1961 e, nos dias de hoje, acumula mais de 450, das quais 200 tem inspiração em posições de ioga que ele dominou até a sua morte. O realismo com que as esculturas são produzidas fizeram Veijo ganhar, em 2007, o Prêmio Finlândia (prêmio concedido anualmente para artistas que se destacam em diferentes estilos). Além das esculturas em posição de Yoga, existem também cenas da Grécia Antiga, do folclore finlandês e do cotidiano. Parte das esculturas possuem dentes de verdade.

Para intimidar os visitantes, o artista inseria nas esculturas alto-falantes que produziam efeitos sonoros assustadores e davam um clima diferente no lugar. Vários foram os convites para expor e vender suas obras, mas Veijo Rönkkönen nunca aceitou algum. Toda vez que era convidado, o artista dizia que precisava falar com suas esculturas. Elas nunca concordaram com as exposições e as vendas...

Veijo Rönkkönen era uma pessoa que gostava da solidão. faleceu sozinho em sua casa, em 2010, aos 56 anos. O Parque de Esculturas é livre para a visitação. As reações podem ir do medo à admiração...



FONTES: Big in Finland - www.biginfinland.com
                      Por Descubrir - http://finlandia.pordescubrir.com/

CRÉDITO DAS IMAGENS: http://bocaberta.org/



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

As origens do Feudalismo



O Feudalismo é um modo de organização política, social e econômica baseado no sistema de servidão, no qual o trabalhador rural era o servo e o dono de terras, o senhor feudal. Suas origens remontam à crise do Império romano do Ocidente, no século III. Para entender a origem do sistema Feudal, é preciso analisar os fatores que ocasionaram a crise romana.

A crise do Império Romano do Ocidente inicia-se no período conhecido como Baixo Império (século III ao V). A sociedade romana era escravista, isto é, baseada no trabalho escravo. Os escravos eram conseguidos através de guerras de conquista e utilizados em trabalhos rurais. Apesar de ter a economia baseada na agricultura, Roma tinha uma intensa vida urbana. Guerras civis, gastos militares e levantes de escravos fizeram Roma parar sua onda de expansionismo e, para piorar a situação, o Império era constantemente invadido por bárbaros. Com a decadência, os grandes proprietários saíram da área urbana e foram residir nas vilas, espécies de propriedades rurais. Com a queda de Roma em 476, formaram-se na Europa Ocidental os reinos bárbaros.

Mudaram-se as relações de trabalho: no campo, pessoas pobres, pequenos proprietários e escravos, tornaram-se colonos e, nessa condição, ganharam em troca proteção e terras para trabalhar. Tinham como obrigação entregar parte do que era produzido para o grande latifundiário. Dos bárbaros, que também eram povos que viviam da agricultura e de atividades pastoris, o sistema feudal assimilou o comitatus, relação de lealdade recíproca entre chefes e guerreiros, que criava um poder descentralizado; e o direito consuetudinário (não escrito) baseado nos costumes herdados. Os bárbaros assimilaram costumes romanos, criando o Beneficium, uma remuneração paga com terras para seus guerreiros; e converteram-se ao Cristianismo.

A sociedade feudal estava dividida em três classes. O Clero, primeira camada da sociedade, considerado o mediador entre o mundo terreno e o espiritual, era formado por membros da Igreja Católica (Papa, bispos, arcebispos e cardeais). Como eram os únicos que detinham os conhecimentos clássicos, preservados da Antiguidade, ditavam os costumes e a vida da sociedade. A nobreza era representada pelo senhor feudal, detentor de vastas extensões de terra e de poderio militar. Base da sociedade, os servos produziam o que seria consumido pelas outras classes. O servo não era livre e também não era um escravo. Ele estava preso à terra e não podia ser vendido pelo senhor feudal. Tinha inúmeras obrigações: Talha, entrega de parte da produção para o latifundiário; Corvéia, prestação de diversos tipos de serviços (manutenção de construções, limpeza, etc); Banalidades, pagamento para a utilização de instalações do castelo (ex: forno para assar pães); Mão Morta, taxa paga pelo servo para continuar trabalhando no feudo onde o pai trabalhava; e o Tostão de Pedro, entrega de 10% da produção para a Igreja.

O modo de produção feudal, formado por estruturas romanas e bárbaras, teve seu apogeu durante a Alta Idade Média (século V ao XI) e entrou em declínio na Baixa Idade Média (século XI ao XV), com a dissolução deste sistema de produção e a transição para o Capitalismo.



CRÉDITO DA IMAGEM: www.brasilescola.com












terça-feira, 19 de agosto de 2014

Manaus, uma cidade pra ser amada


Por Otoni Moreira de Mesquita


Chegar a Manaus é sempre um impacto. Depois de horas de voo ou dias navegando por densas áreas verdes, recortadas por curvas ocres e negras, depara-se com uma grande clareira que ruge animadamente. Surge clara e nua, banhada pelas águas escuras de um belo rio que lhe embeleza. De noite ou de dia, é sempre um espetáculo, mesmo para aqueles que estão sempre a retornar. Mas parte do encanto se desfaz, ao constatar que a ânsia de modernizar se desfaz de suas belezas naturais. 

Quarenta anos após a implantação da Zona Franca de Manaus não há como duvidar do crescimento manifesto em vários setores da sociedade. A arrojada expansão da cidade é sem dúvida conseqüência de suas atividades econômicas que vem atraindo grande contingente de trabalhadores de outros estados. O crescimento populacional, assim como o nível de desigualdade social pode ser medido pela ampliação exagerada das periferias suburbanas e dos arrojados empreendimentos verticais que se multiplicam, em algumas áreas da cidade. Contudo, a falta de infraestrutura necessária, não somente material, mas, sobretudo, sociocultural, faz deste crescimento uma coisa ameaçadora para todos os segmentos sociais.

Tal como ocorreu no final do século XIX, um novo surto de prosperidade econômica direciona mudanças radicais na cidade, visando atender as novas necessidades de circulação, segurança e garantir as demandas de crescimento, sobretudo dos setores industriais e comerciais. Contudo, populações sem qualquer qualificação sobrevivem com grande dificuldade nas áreas urbanas e sem condições de penetrarem no mercado de trabalho, portanto, sem instrumentos que permitam exercitar pleno direito de cidadania, permanecem excluídos. O desafio é estabelecer políticas públicas capazes de promover a integração, valorização e a inclusão deste contingente no viver social da cidade.

Compreende-se que uma sociedade democrática, deva ser regida por interesses dos mais variados segmentos, não somente pelas políticas econômicas. Certamente, as decisões seriam representativas, contemplando múltipla participação e promovendo diferentes necessidades e interesses. Assim, gerando uma sociedade mais humana, justa e sensível.

Quanto aos aspectos ambientais, históricos e patrimoniais, nota-se que mesmo, parcialmente protegido pela Lei Orgânica do Município, e ensaiadas algumas tentativas no sentido de recuperar, sobretudo, alguns exemplares do patrimônio arquitetônico. No entanto, grande parte das belas edificações do Centro histórico de Manaus se encontra completamente abandonada, outras sem qualquer conservação, e muitas definitivamente agredidas: descaracterizadas ou demolidas. Patrimônio arquitetônico e o natural permanecem em risco, agredidos e degradados em uma velocidade acelerada. Igarapés continuam poluídos, mesmo que parte de suas margens tenham sido embelezadas. O verde da arborização e das praças, com raríssima exceção, foi subtraído ou substituído por magrelas palmeiras importadas de outras regiões. Para o cidadão não há caminhos com sombra, transporte digno ou calçadas contínuas e regulares.

Infelizmente, o patrimônio material e imaterial não está amparado por uma política pública autônoma e contundente, capaz de se confrontar com interesses econômicos. Com amplos poderes de atuação, não somente em sua extensão geográfica, mas, sobretudo, no âmbito cultural. Para tanto, suas ações devem encontrar respaldo nos currículos escolares, cujos conteúdos e metodologias inculquem idéias e valores que fortaleçam as noções de cidadania e pertencimento da cidade.

Grandes empreendimentos na área da construção civil e das obras públicas vêem produzindo construções arrojadas, denotando uma clara situação de prosperidade. No entanto, esta aparência não parece de acordo com as condições enfrentadas pela maior parte da população. Ou seja, a convivência com deficiências de serviços públicos básicos, como a educação, saúde e transporte. Além de uma rotina marcada por outros setores que necessitam ser continuamente acompanhados, ou seja, a melhoria e ampliação do serviço de distribuição de água, iluminação pública, pavimentação de ruas, calçamento para pedestres, ciclovias, instalação de rede de esgotos, engenharia e sociologia do trânsito. Que pensem no homem como usuário da cidade.

A sociedade tem pressa em demasia, violência em excesso e solidariedade e fraternidade de menos. Por este ângulo, a cidade humanizada, embelezada, e tranquila só faz sentido e só será economicamente rentável, para usuários sensibilizados com estes aspectos. Não se deve esperar uma mudança radical no modelo de cidade, se não houver mudanças nas relações sociais, econômicas e, sobretudo, culturais que se processam em seu interior. Novas práticas exigem o apoio de uma população sensibilizada e predisposta a adotá-la. Assim, a aceitação e a eficácia de sua implantação, em geral, exigem um trabalho de médio e longo prazo, vinculado a uma mudança substancial no processo educativo. Não há como preservar a mais bela das cidades, ou as práticas mais tradicionais se não tiverem sentido para os seus usuários. Não se trata de decorar um discurso ou obedecer a leis, mas de uma relação afetiva que envolve sensibilidade e pertencimento.

Não é suficiente recuperar, conservar, limpar e embelezar espaços públicos, nem estabelecer leis de conservação e fiscalizar sua aplicação. É necessário inculcar idéias que sensibilizem aqueles que usufruem desses espaços; planejar estratégias para as gerações futuras. Que as manifestações culturais não sejam transformadas apenas em espetáculos, nem que os espaços públicos sejam embelezados somente para o lazer de alguns. Mesmo que os espaços ganhem novos significados, que se busque preservar as referências e a memória que possam proporcionar um relacionamento afetuoso com a cidade.

Acreditamos que recuperando monumentos e seus entornos, é possível propiciar uma valorização da auto-estima da população, fazendo com que esta se reconheça, não somente como usuária, mas como a protetora que ama, preserva e se orgulha de sua cidade. De fora para dentro, a recuperação destes espaços poderá auxiliar na construção e difusão de uma imagem da cidade mais bela e humana.

Sem dúvida é necessário que as idéias circulem na esfera da administração pública, dos empresários e da população, mas a ideia não é suficiente, se faz necessário animá-las a partir do pronunciamento de nossos representantes, na Câmara, na Prefeitura, na Assembléia, no Senado, sobretudo, no governo do Estado: administradores competentes, políticos sensíveis e sabedor das necessidades e processos, que trabalhem pelo bem comum e sejam capazes de convencer seus pares e mantenham a continuidade dos projetos. Sem dúvida, é um filão político e que poderá trazer grandes dividendos econômicos para a cidade, mas que ainda exigirá algum tempo.






Otoni Moreira Mesquita nasceu em Autazes-AM, em 27 de junho de 1953. É artista plástico e professor da Universidade Federal do Amazonas. Formado em jornalismo (1979 - UFAM) e em Gravura (1983 - Escola de Belas Artes - UFRJ). É mestre em Artes Visuais e História e Crítica da Arte (1992 - UFRJ). De março de 1997 a dezembro de 1998, atuou como coordenador do Patrimônio Histórico, da Secretaria de Cultura e Estudos Amazônicos. É doutorado em História Social pela UFF, concluído em 2005 com o trabalho O Mito de progresso na refundação da cidade de Manaus: 1890/ 1900. Livros publicados: La Belle Vitrine: Manaus entre dois tempos - 1890/1900 (2009) e Manaus: História e arquitetura - 1852/1910 (3 edições. 1997, 1999 e 2006).








CRÉDITO DA IMAGEM: http://turismo.culturamix.com/

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Dia do Historiador

Clio, a musa grega da História.

O dia 19 de agosto foi escolhido para celebrar o Dia do Historiador, profissional que atua ministrando aulas ou se dedicando à pesquisas. A Lei N°12.130, de 17 de dezembro de 2009 institui o Dia do Historiador, que passou a ser comemorado oficialmente em 2010.

LEI Nº 12.130, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2009.

Institui o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.

O VICE–PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o É instituído o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.

Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Comecei a gostar de História aos 4 anos de idade. Me lembro do meu primeiro livro, um Atlas de História do Brasil e, lendo ele, percebia que mesmo que quisesse, jamais viveria o que aquelas pessoas do livro viveram, não iria ver pessoas com roupas, hábitos e costumes daquela época. O homem evolui, os tempos mudam, a vida passa. Sabia que era a História que eu iria estudar no futuro, e aqui estou.

A data é uma homenagem à Joaquim Nabuco (1849-1910), diplomata, jurista, jornalista, político e historiador brasileiro. Trabalhar com a História e ser historiador é uma dádiva. Analisamos e interpretamos fatos e momentos históricos que, como por um passe de mágica, ficaram no passado. objetos de estudo do historiador são pessoas, sujeitos, fatos, culturas, acontecimentos, sociedades e formas de pensar, cada um em seu tempo e espaço.

Mesmo com um pouco de saudosismo, a História é uma ciência séria, pois os fatos que ocorreram no passado, distante ou não, tem reflexões no tempo presente. Graças a História, aliada a outras ciências como a Sociologia, Geografia, Arqueologia e etc., podemos compreender o passado, o tempo presente e planejar o nosso futuro.


"O primeiro dever do historiador é não trair a verdade, não calar a verdade, não ser suspeito de parcialidades ou rancores" .

Marco Túlio Cícero foi político, filósofo, orador, escritor e advogado romano.


Deixo um Feliz dia do Historiador, adiantado, para: Aguinaldo Nascimento Figueiredo, Eylan Lins, Otoni Moreira Mesquita, Claudio Amazonas, Ed Lincon, Marcos Paulo Mendes Araújo, Roberto Mendonça, Nonato Braga e Luiz Maximino de Miranda Corrêa (historiadores e pesquisadores amazonenses).



CRÉDITO DA IMAGEM: http://fenixdefogo.wordpress.com/


Diferenças entre Colonialismo e Neocolonialismo


Colonialismo:  controle político, anexação de território e perda da soberania. Neocolonialismo ou Imperialismo:  controle e influência que é exercido tanto formal como informalmente, direta ou indiretamente, política ou economicamente.

Na época das Grandes Navegações, os interesses econômicos das potências europeias estavam voltados para a América, onde conseguiam matérias-primas tropicais, metais preciosos (ouro e prata) e mercados consumidores de produtos manufaturados. A colônia só poderia negociar com sua metrópole. Além dos pioneiros Portugal e Espanha, também participaram, mais tarde, a Inglaterra, a França e a Holanda. Os principais financiadores foram: a burguesia mercantilista, interessada no ouro e na prata, utilizados na cunhagem de moedas; e a Igreja Católica, interessada em expandir o Cristianismo.

- Obtenção de matérias-primas tropicais (de alto valor comercial);
- Mercados consumidores de produtos manufaturados;
- Expansão do Cristianismo;
- Metais preciosos (em falta na Europa e de total importância para a cunhagem de moedas);
- América como principal destino;
- Encontrar novas rotas comerciais que quebrassem o monopólio comercial veneziano;
- Predomínio do Pacto Colonial (a colônia negociava apenas com sua metrópole;

Já no século 19, com a Revolução Industrial, as potências, dessa vez apoiadas pela burguesia industrial, foram atrás de matérias-primas energéticas (carvão, petróleo e ferro), mão-de-obra em grande quantidade, novos mercados consumidores de produtos industrializados, locais de investimento para o capital excedente e produtos alimentícios, sempre em falta na Europa, que investia de forma pesada na indústria. A rota geográfica também mudou: Ásia, África e Oceania, com vastos territórios ainda desconhecidos, receberiam a atenção dos europeus. 

- Obtenção de matérias-primas energéticas (para as indústrias);
- Mão de obra barata e em grande quantidade;
- Locais de investimento para o capital excedente;
- Produtos alimentícios (com a industrialização, se deu pouca atenção para a agricultura);
- Mercados consumidores de produtos industrializados;
- África, Ásia e Oceania se tornaram os principais pontos de interesse econômico;
- Época de Teorias raciais que justificavam a dominação dos europeus sobre outros povos e territórios;
- Fim do Pacto Colonial e implantação do Liberalismo Econômico;



CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.litrixlinux.org/

domingo, 17 de agosto de 2014

Hitler - Os Últimos 10 Dias


"A agonia do Terceiro Reich em uma recriação plausível e um pouco claustrofóbica que percorre pela atividade de Hitler e seus comparsas no bunker onde esperam a queda iminente de Berlim e do Terceiro Reich" (trecho da sinopse).

Hitler - Os últimos 10 dias, é um filme de 1973, do diretor italiano Ennio De Concini. O filme retrata os últimos dias de Hitler antes de cometer suicídio, a única saída para a agonia de se ver derrotado pelos Aliados. Adolf foi interpretado pelo premiado ator britânico Sir Alec Guinness (1914-2000). O filme se inicia no 56° aníversário de Hitler, em 20 de abril e termina com seu suicídio em 30 de abril.

Gerhard Boldt (1918-1981) foi um oficial do Exército Alemão, que escreveu sobre suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial. Terminado o conflito, Boldt tornou-se escritor e relatou suas experiências no livro Os Últimos dias de Hitler: Uma testemunha ocular. Foi esse livro que serviu de inspiração para a produção cinematográfica. No filme, Boldt foi interpretado pelo ator inglês Kenneth Colley.

Vale a pena assistir. A história e a ótima atuação dos atores, que nos faz voltar no tempo, dá um toque a mais na produção. OBS: Classificação indicativa de 16 anos, por causa das cenas de tortura, assassinato e mutilação.

Sir Alec Guinness interpretando Adolf Hitler.


CRÉDITO DA IMAGEM: www.americanas.com.br
                                 toutlecine.com

sábado, 16 de agosto de 2014

Imigração italiana no Brasil

"Saudades de Nápoles", de Bertha Worms.

A grande imigração de italianos para o Brasil ocorreu entre 1861 e 1918, datas, respectivamente, da unificação italiana e do final da Primeira Guerra Mundial. A conturbada Unificação deixou problemas principalmente para a camada mais pobre da sociedade, que sobrevivia da agricultura, principal fonte de renda do Estado. Com isso, muitas pessoas saíram o interior e se dirigiram para as cidades. Infelizmente, a Revolução Industrial, instalada recentemente no país, não foi capaz de absorver todo o contingente vindo das áreas rurais. Essa situação gerou graves crises sociais e econômicas. Como solução, esses trabalhadores se dirigiram para as Américas, na esperança de reconstruir suas vidas. Os principais destinos eram os Estados Unidos, a Argentina e o Brasil.

Decretado o fim do tráfico de escravos, em 1850, o Império do Brasil passou a adotar políticas imigratórias com o objetivo de atrair estrangeiros para formar colônias agrícolas na Região Sul e servir de mão-de-obra nos cafezais paulistas. Era época também de teorias raciais, e os italianos, com uma língua próxima do nosso português, europeus e brancos, eram vistos pelo governo como "componentes" que tornariam o país mais "civilizado". Mesmo trabalhando em condições de semi-escravidão nos cafezais, alguns conseguiram fazer fortuna e aqui deixaram sua marca: fundaram escolas; associações comerciais, times de futebol, hospitais; jornais; e sindicatos.

De 1880 a 1960, o Brasil recebeu mais de um milhão e meio de imigrantes italianos, vindos das seguintes regiões: Vêneto, Campânia, Calábria, Lombardia, Toscana, Sardenha, Ligúria, Sicília, Lácio, Puglia, Emília-Romagna, Abruzzo-Molise, Úmbria, Piemonte, Marche e Basilicata.

Na período Fascista, chegaram ao Brasil, entre 1939 e 1941, cerca de 500 judeus italianos que, diferente das levas proletárias que vieram na época imperial e Republicana, faziam parte de uma classe média composta por comerciantes, médicos e advogados. Em diferentes cidades do Brasil, com a entrada do país na Segunda Guerra Mundial, muitos italianos foram hostilizados e tiveram seus bens confiscados. Com o fim do conflito em 1945, cerca de 3.000.000 de indivíduos saíram da Itália em direção aos Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina e Venezuela. Esse processo durou até 1960. Desse total, 512.538 retornaram ao país de origem.

O italianos foram pioneiros em várias áreas do conhecimento. Entre os principais cientistas estão Gleb Wataghin, César Lattes, Daniela Lazzaro, Giuseppe Occhialini e Nicola Petragnani. 

Professor de origem russa e cidadão italiano desde 1929, Gleb Wataghin veio para o Brasil com o propósito de criar o Departamento de Física da Universidade de São Paulo. Foi criador de um programa de pesquisas sobre raios cósmicos. César Lattes atuou como professor na Universidade de São Paulo, na antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ) e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, do qual foi um dos fundadores. Mantinha, desde 1962, colaboração com o Japão no estudo da radiação cósmica. Foi membro de várias academias e sociedades científicas brasileiras e internacionais. Prêmios recebidos: Prêmio Einstein, em 1950; o Prêmio TWAS, da Academia de Ciência do Terceiro Mundo em Trieste (Itália), em 1987, e da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1978, além de várias medalhas. Faleceu em 2005, aos 80 anos.

Outra cientista de origem italiana com destaque no Brasil foi Daniela Lazzaro, bacharel em astronomia pela Universidade de São Paulo em 1983. Doutorou-se em Ciências em 1988, especializando-se no sistema solar. Assumiu a coordenação de vários projetos sobre asteroides, cometas e satélites, a astrofísica de pequenos corpos do sistema solar, a formação e evolução dos sistemas planetários.

Os italianos foram um dos muitos povos que se dirigiram para o Brasil no século 19. Aqui, com a vontade de começar um novo capítulo em suas vidas, contribuíram imensamente para o progresso econômico do país, servindo de mão-de-obra na agricultura e em serviços urbanos, e intelectualmente, sendo pioneiros em pesquisas e nos brindando com importantes figuras da nossa intelectualidade.



FONTES: Brasil: 500 anos de povoamento/ IBGE, Centro de Documentação e Disseminação de Informações. 2°.ed. Rio de Janeiro, IBGE, 2007.

BIGAZZI, Anna Rosa Campagnano. Italianos: história e memória de uma comunidade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.


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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O médico e governador Jônathas Pedrosa

Jônathas de Freitas Pedrosa.

Jônathas de Freitas Pedrosa foi político, médico e militar. Foi duas vezes Senador da República e governador do Estado do Amazonas em uma época difícil, quando o ciclo da borracha já estava em franca decadência. Além das dificuldades econômicas, Jônathas também enfrentou a oposição de poderosos grupos oligárquicos locais. Abaixo, texto sobre a trajetória desse político, publicado no jornal Amazonas em Tempo em 21 de março de 2002, de autoria do Mestre em Artes (Música) e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) Márcio Páscoa.

"Nascido na Bahia em 8 de abril de 1848, formou-se médico antes de vir para Manaus, o que se deu em 1876. Chegou à capital do Amazonas na condição de segundo tenente cirurgião do Exército, mas demitiu-se da função em 1878, assumindo consecutivamente o posto de médico da Guarda Policial, de inspetor da Saúde Pública e comissário vacinador.

Neste meio tempo ocupou outras funções, como a de professor de francês do Liceu Amazonense, concursado em 1879 e aposentado desta cadeira em 1901, bem como serviu de primeiro suplente do cargo de juiz municipal da capital.

Sua carreira pelo serviço público continuou de forma rápida, posto que em 1882 foi nomeado diretor da Escola Normal e em abril de 1883 chegava a diretor geral da Instrução Pública do Amazonas, ainda que de forma interina.

Deve ter estado entre março de 1884 e o início de 1885 na Europa. De retorno, rassumiu as funções interinas que deixara. Ainda neste ano foi nomeado médico do Instituto Amazonense de Educandos Artífices e, em 1887, médico da Câmara Municipal de Manaus.

Sua passagem por muitos cargos da Instrução Pública motivaram-lhe a abrir uma escola própria, o que ele fez em 1889, inaugurando o Ateneu Amazonense; neste mesmo ano atingiu a posição de inspetor da Higiene Pública.

Em 1890 lançou-se ao Senado Federal pelo Partido Republicano que organizara no Amazonas, partido este que depois mudaria para Partido Nacional.

Entretanto sua projeção ao Senado deu-se apenas em 1907 e daí então fez a sua base de sustentação à eleição para o governo do Estado do Amazonas, no período de 1913 a 1917. Seu mandato está longe de ser considerado tranquilo. Os anos em questão foram adversos para ele e o Amazonas.

A economia da borracha declinava abruptamente e sua gestão viu-se em grandes dificuldades; mesmo assim foi pela sua administração que se terminaram muitas das obras iniciadas na década anterior e algumas planejadas no século passado. Para isto foi necessário cumprir um plano orçamentário que proporcionasse a liquidação das dívidas do Amazonas com as obras públicas e a gestão de bens e serviços.

Não fez isto tudo senão debaixo das críticas ferozes, perpetradas desde o seu adversário local, o coronel Antônio Guerreiro Antony, até o Senado Federal, onde Rui Barbosa proferia petardos contra seu governo. Além de tudo, passava-se por um grave problema de conjuntura internacional, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

Cumprido o mandato, retirou-se para o Rio de Janeiro, onde esteve até 1919, voltando para Manaus em dezembro desse ano.

Ao menos na classe médica amazonense ele manteve intacto o seu prestígio que conquistara havia décadas. Foi chefe do corpo médico da Santa Casa de Misericórdia desde sua fundação, em 1880, bem como da Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas. Em vista de toda a sua carreira, foi considerado o decano dos médicos do Amazonas.

Casou-se duas vezes, mas deixou filhos apenas do primeiro matrimônio. Faleceu em Manaus, a 7 de julho de 1922".

(Jornal Amazonas em Tempo. Quinta-feira, 21 de março de 2002)



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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Um olhar sobre o século 21



1997, ano do meu nascimento e final do século 20. Com quatro anos, assisti pela televisão, um dos atentados mais marcantes da História: em 11 de setembro de 2001, dois aviões foram lançados por terroristas islâmicos nas duas torres do World Trade Center; um terceiro avião no Pentágono; e um quarto no Estado da Pensilvânia. Morreram cerca de 2977 pessoas, entre funcionários do WTC, passageiros dos aviões sequestrados, funcionários do Pentágono e bombeiros que socorriam as vítimas. A Guerra Santa (Jihad) promovida por radicais islâmicos; o preconceito religioso e étnico contra os árabes, gerado pelo trauma da sociedade americana; e a Guerra ao Terror, investida militar americana contra o terrorismo, marcada pela invasão do Iraque e Afeganistão. Ao meu ver, assim começava o século 21, de forma conturbada e marcado pela guerra.

A primeira resposta dos Estados Unidos ao atentado de 2001 foi a Guerra do Afeganistão, na qual forças americanas, apoiadas pela Força Islâmica Unida e países como a França e Reino Unido, visavam a captura do terrorista Osama bin Laden e outros membros da Al Qaeda e por um fim no regime Talibã. Em 2011 bin Laden foi capturado e morto. Os Estados Unidos, no entanto, tiveram grandes baixas e altos gastos.

Em 2002, os Estados Unidos, sob o comando do presidente George W. Bush, acusavam o Iraque de possuir um poderoso arsenal de armas de destruição em massa. Não só o Iraque, mas também o Irã e a Coréia do Norte, que, nas palavras do presidente, formavam o "Eixo do Mal". Os Estados Unidos estavam planejando invadir o país caso a ONU não tomasse medidas drásticas. A Organização investigou o Iraque, mas não foram encontradas provas a favor da acusação americana. Contrariando a ONU, Os Estados Unidos, com o apoio da Grã-Bretanha, invadiu o Iraque em 2003 e, no mesmo ano, conquistou a capital Bagdá. Mais tarde, ONU legitimou a presença anglo-americana no território. O ditador Saddam Hussein foi capturado em 2003 e condenado por cometer crimes de guerra. Foi enforcado em 2006. Terminada a guerra, com um saldo de 100 mil civis mortos, as forças anglo-americanas não conseguiram provar a presença de armas de destruição em massa no Iraque.

Sabe-se que, além de justificativas militares e investidas contra o terrorismo, os Estados Unidos tinham interesses econômicos, pois o Iraque é rico em reservas de petróleo. O brasileiro Sérgio Vieira de Mello, funcionário da ONU e Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Unidos - e outros 14 funcionários da organização, foram mortos em um atentado em Bagdá, atribuído à Al Qaeda.

A economia mundial também mostrou que era propensa à grandes crises como a que se iniciou em 2008. Depois dos atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos passaram a investir maciçamente em material bélico e também estavam importando mais do que exportavam. Com a economia fragilizada e recebendo ajuda financeira do exterior, o governo americano reduziu os juros numa tentativa de incentivar o consumo. Milhões de americanos, alguns considerados de risco (nome sujo), financiaram a compra de imóveis. A situação econômica foi piorando, a inflação aumentou, e os juros tiveram que ser aumentados pelo governo. Os financiamentos, muitas vezes, tinham juros variáveis, fazendo com que pessoas que financiaram com juro baixo tivessem que pagar um juro mais alto.

As pessoas que fizeram os empréstimos ficaram sem condições de pagá-los, o que gerou um efeito dominó: sem o pagamento dos empréstimos, as casas financiadoras ficaram sem dinheiro para pagar os bancos. Em pouco tempo, a Bolsa de Valores foi atingida. Igual a Crise de 1929, os países que mantinham relações econômicas com os Estados Unidos também tiveram suas economias atingidas. Aumento de juros bancários e queda de bolsas se tornaram frequentes na vida desses países.

Neste século, a internet, o celular, computadores multi-uso, DVDs e produtos de última geração estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano. Além desses avanços, a descoberta de novos planetas, a maioria deles em condições de abrigar vida;  o Projeto Genoma, criado para desvendar o código genético dos organismos; e melhorias na Medicina e em tratamentos, são avanços técnicos que permitem o intercâmbio de conhecimentos e o aumento da expectativa de vida.

Uma Primavera jamais vista atingiu o Norte da África e o Oriente Médio. Era a Primavera Árabe, uma onda de revoluções e protestos contra governos corruptos e autoritários e a favor de melhores condições de vida. Os primeiros protestos começaram na Tunísia em 2010, e terminaram vitoriosos em 2011, com a deposição do ditador Abidine Ben Ali, que estava no poder desde 1987. A vitória tunisiana influenciou a Líbia, o Egito, a Argélia, a Síria, o Barhein, o Marrocos, o Iêmen, a Jordânia e Omã. Além do governo da Tunísia, também foram derrubados os da Líbia, Egito e Iêmen.

O Brasil ficou marcado pelos Protestos de Junho de 2013. A redes sociais se mostraram poderosos mecanismos de mobilização popular. Mais de 430 cidades, capitais ou interioranas, estiveram envolvidas nesse evento. As causas que motivaram as manifestações foram várias: aumento da tarifa do transporte público; PEC 137, projeto de lei que, se fosse oficializado, tiraria do Ministério Público o poder de investigar crimes; Repressão policial; e gastos vultosos em obras e eventos esportivos. Em meio aos manifestantes que queriam mudanças na "ordem" vigente, existiam pessoas que agiam de forma violenta, depredando o patrimônio público, agredindo pessoas e envolvendo na causa o partidarismo político. Terminados os protestos em julho de 2013, algumas medidas foram tomadas pelos governantes: redução da tarifa do transporte público; Aprovaram o projeto de lei que tornava a corrupção um crime hediondo; e arquivaram a PEC 137.

Século 21. Em um curto espaço de tempo já presenciamos momentos que entraram para a História. Avanços tecnológicos, guerras, invasões de territórios, embates entre Esquerda e Direita, enfraquecimento das religiões dominantes e ascensão de outras, manifestações no Brasil e disputas por territórios. Todos esses eventos em menos de duas décadas. Até 2100, nos surpreenderemos com nossos próprios atos, tanto para o bem quanto para o mal.



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