terça-feira, 28 de junho de 2016

Heródoto e Tucídides: Uma breve comparação

Estátuas de Heródoto e Tucídides em frente ao Parlamento Austríaco.

Esse texto é uma pequena comparação entre dois historiadores clássicos da Grécia, Heródoto e Tucídides, e servirá de material de apoio para os estudantes da graduação em História da UFAM e de outras instituições:

Heródoto de Halicarnasso é autor das Histórias, uma série de relatos reunidos em 9 livros, sendo 6 voltados para o desenvolvimento do Império Persa e a descrição dos povos que o formavam; e 3 voltados para os conflitos entre gregos e estrangeiros. Tucídides escreveu sobre a Guerra do Peloponeso, conflito entre atenienses e espartanos, do qual foi protagonista. Enquanto Heródoto volta sua atenção para a descrição de vários aspectos dos lugares que visitou, utilizando conhecimentos de hidrografia, geografia, botânica etc, Tucídides se atém a descrever e procurar as causas de um único evento, nesse caso, a Guerra do Peloponeso.

A obra de Heródoto, ainda que produzida de forma “racional”, ainda possuía um vínculo religioso, diferente da de Tucídides, que não sofre “interferência” divina. Como metodologia, Heródoto utilizou fontes materiais e, principalmente, a observação direta e os relatos de terceiros. Para o exame destas fontes, recorria à análise crítica e, quando não tinha certeza da veracidade destas, ao ceticismo. Tucídides também utilizava informantes (períodos da Guerra do Peloponeso que não vivenciou diretamente), mas sua metodologia é mais complexa, com o objetivo claro de garantir a veracidade de sua narrativa, com a crítica aos documentos, aos discursos e a verificação da verossimilhança entre eles.

A concepção de história de Heródoto é pessimista. As ações do homem são controladas por forças divinas e, em sua narrativa, são feitas menções a oráculos, sonhos e previsões. Heródoto acredita em uma História Cíclica, na qual a sociedade se desenvolve através de ciclos que se repetem de tempos em tempos, e as divindades garantem a manutenção, por meio da punição, da ordem. Tucídides, que narra um evento militar, tem uma concepção de história que valoriza o homem, separando este da visão divina. Decisões políticas, econômicas e militares, decisões humanas, são o motor da história.

Heródoto escreve seus relatos em prosa, simples e direta, mais organizada que a dos logógrafos, com vocabulário simples e sem artifícios retóricos e estilísticos. O dialeto grego utilizado é o jônio. Tucídides tem a escrita mais refinada, no estilo paratático e em prosa. Utiliza o dialeto ático com influência do jônio, uma herança da prosa de Heródoto.

Entre o nascimento de Heródoto e Tucídides existe uma diferença de 35 anos, sendo o segundo autor mais jovem que o primeiro. Ambos, de famílias abastadas, foram exilados por motivos políticos. Heródoto recorreu aos relatos de terceiros e à análise de fontes materiais para construir sua obra. De um mundo ainda impregnado de aspectos míticos, é influenciado por uma visão fatalista da história, controlada por forças que ultrapassam a compreensão humana. Tucídides, protagonista de boa parte do evento que narrou, analisa as fontes e os relatos disponíveis de forma crítica, valorizando os feitos humanos como pano de fundo da história. 

Heródoto, por suas digressões sobre hábitos, costumes e outros aspectos dos lugares e povos que conheceu, é considerado um historiador cultural; enquanto Tucídides, buscando as causas de uma guerra, é um historiador político e militar.


FONTES: 

LÓPEZ, José Antonio Caballero. Inicios y desarrollo de la historiografía griega: mito, política y propaganda. Madrid: Editorial Sintesis, 2006.

CRÉDITO DA IMAGEM:

commons.wikimedia.org


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Periodização da História e percepção de tempo

História, do pintor grego Nikolaos Gysis (1892).

Texto produzido a partir de reflexões feitas durante as aulas de História Medieval I, ministradas pelo professor Sínval Carlos Mello Gonçalves, na UFAM.


A História enquanto ciência, já sabemos, é dividida em períodos que facilitam tanto o trabalho de quem a produz quanto o de quem empreende seu estudo. Nós, ocidentais, a dividimos da seguinte forma: Primeiro, temos a pré-história, período anterior ao surgimento da escrita. Depois, a Antiguidade, que vai do surgimento da escrita em mais ou menos 3.500 a.C. à queda do Império Romano do Ocidente, em 476. Terminada a Antiguidade, o homem passa para a Idade Média, até 1453, quando a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos é considerado o seu fim. De 1453 à 1789, vive-se na Idade Moderna. De 1789 aos dias de hoje, Idade Contemporânea.

O que determina quando inicia ou acaba um período histórico? Quando um ou mais profissionais da História nomeiam um período, deve-se levar em conta aspectos singulares, marcos significativos que irão diferenciar um período do outro. Em 1469, o bibliotecário do Vaticano e humanista, Giovanni Andrea, cunhou o termo Idade Média (medium aevum, media tempestas, mediae aetas), uma idade do médio, intervalo entre a Antiguidade Clássica, período de esplendor cultural para os humanistas, e a Idade Moderna, tempo em que viviam, marcado por inovações e revalorização da cultura greco-romana.

Algo que nos deixa pensativos, dependendo do nível de reflexão, é que as pessoas que viveram nesses determinados períodos não os nomeavam dessa forma, e até mesmo não sabiam ou percebiam as mudanças ocorridas em sua volta. Apenas lembrando uma fala do professor Sínval, "um homem que dormiu na noite derradeira de 476 e acordou em 477 não sabia que agora vivia na Idade Média". A percepção de passagem de tempo perpassa o campo histórico e adentra na psicologia e na neurociência. O professor de História da UFSM, em entrevista ao Infocampus, afirma que  "tempo é um conceito polissêmico, ou seja, ele depende de uma série de definições. Desde Aristóteles, por exemplo, definia-se o tempo como uma espécie de medida do espaço, medida do movimento" (1).

Em um questionamento feito ao professor, perguntei se "um homem que nasceu na Inglaterra em 1750, perceberia, em 1800, que estava vivendo em uma nova época? nesse caso, a Segunda Revolução Industrial"? O professor exclamou que "a resposta para essa pergunta é difícil, e que nos tornamos, de certo modo, reféns de uma periodização".


De fato, nos tornamos reféns dessa periodização da História, pois muitas vezes ela, por sintetizar o período, sem perceber muitas vezes continuidades, mais atrapalha do que ajuda. Um exemplo dessa condição é a obra de Jeróme Baschet, A Civilização Feudal: Do ano mil à colonização da América. Nesse livro, Baschet nos apresenta sua visão de que a Idade Média possui uma longa duração, que sobreviveu por meio de uma visão de mundo, práticas e técnicas oriundas do medievo, deixando heranças até mesmo no México Colonial, por meio de instituições trazidas pelos colonizadores espanhóis, homens que viveram na Idade Média.


Devemos, claro, nos lembrar que as periodizações Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea são adotadas pelo Ocidente, com a cronologia delimitada em acontecimentos antes e depois de Cristo. Em outras regiões do mundo, a periodização e a cronologia vão variar bastante, como por exemplo nos países islâmicos, onde o tempo é contado a partir da fuga de Maomé de Meca para Medina, em 16 de julho de 622.


Talvez em 1453, durante a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, o marco de fim da Idade Média e início da Idade Moderna, um camponês do interior de Portugal ou da Espanha não tinha noção do que estava acontecendo, estando apenas preocupado com o próximo dia de trabalho, no qual teria que alcançar uma meta de produção. Acredito que as periodizações da História devam ser revistas, analisadas com mais critérios, ver onde existem continuidades de um período sobre o outro e achar novas alternativas para o ordenamento da ciência histórica. Basta nos lembrarmos, por exemplo, sobre as discussões feitas sobre a Idade Contemporânea (a comunidade acadêmica discute se já não estamos em um novo período).


Para concluir, uma observação de outro professor do Departamento de História/ICHL: "Temos que ter compromisso com as datas, mas nossa preocupação contemporânea não é dizer quando ocorreu e onde, mas sim analisar e problematizar os fatos e a sociedade" - Luis Balkar Sá Peixoto Pinheiro, professor de metodologia da História (22/06).



NOTAS:


(1) A percepção da passagem do tempo. Infocampus, UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), 09 de dezembro de 2010. Endereço: http://w3.ufsm.br/infocampus/?p=3683


CRÉDITO DA IMAGEM:


commons.wikimedia.org