segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Espião do Rei (dica de leitura)



Título: O Espião do Rei
Autor: Mário Ypiranga Monteiro
Número de páginas: 335
Local e data: Manaus, 1950


O Espião do Rei é um romance histórico-ficcional, lançado em 1950 pelo professor, advogado, escritor e pesquisador amazonense Mário Ypiranga Monteiro. A trama se desenvolve em 1820, em Manaus, então Vila da Barra naqueles longínquos anos 20 do século 19. Com incríveis descrições histórico-geográficas, esse romance é marcado por intrigas, traições e jogo de interesses, característicos de uma sociedade dividida entre a continuidade da Monarquia Portuguesa e a Independência do Brasil. O contexto amazônico durante esse processo de independência ainda é pouco estudado.

O livro foi reeditado em 2002 pela Editora Valer.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Historiadores Gregos I: Heródoto de Halicarnasso (obra, metodologia e linguagem)


1. Introdução

Heródoto de Halicarnasso (Herodotus Halicarnassus, circa 484 - 425 a.C.) foi um historiador grego, eternizado pelas palavras de Marco Túlio Cícero como o "Pai da História". Esse grande historiador da Antiguidade, nascido na colônia grega de Halicarnasso, na Ásia Menor, teve sua vida marcada por duas grandes guerras: As Guerras Médicas, entre gregos e persas; e a Guerra do Peloponeso, entre diferentes cidades-estado gregas, com destaque para Esparta e Atenas.

Destas duas guerras, Heródoto passou a buscar as causas das Guerras Médicas, conflitos ainda "frescos" nas memórias de gregos e persas. Talvez, essa escolha tenha partido pela importância do conflito, que contribuiu para o fortalecimento econômico, político e militar da Grécia; e pelo contato que o historiador teve com diferentes povos na Ásia Menor. Heródoto foi o primeiro historiador a utilizar a palavra História (historíe, em dialeto jônico) com o sentido de indagar, investigar as causas dos feitos contemporâneos. Ele deixa isso explícito na introdução de sua obra, História:

"Esta é a exposição da investigação feita por Heródoto de Halicarnasso para que nem os feitos dos homens, com o tempo, se reduzam ao esquecimento, nem as obras grandes e admiráveis - tanto as realizadas pelos gregos quanto as realizadas pelos bárbaros - fiquem sem glória e as demais coisas por causa das quais foi o motivo de guerrearem uns com os outros".

Heródoto, assim como outros historiadores da Grécia Antiga, foi exilado. Esse exílio (cumprido em Samos) seu deu após uma tentativa frustrada de derrubar do trono grego o tirano Lígdamis I. Foi durante esse "castigo" que Heródoto viajou e colheu relatos nas principais cidades e regiões da época: Egito, Mesopotâmia, Fenícia, Magna Grécia, Sicília, Scitia, Ásia Menor e Atenas. Não se sabe em que ordem e nem se realmente todas as cidades mencionadas em sua obra foram visitadas. Após essa breve explanação sobre Heródoto, vamos compreender como se divide a obra, a metodologia empregada para a sua realização e a linguagem utilizada.

2. O Conteúdo da obra

A principal obra de Heródoto, História, foi dividida pelos gramáticos alexandrinos em 9 livros, cada um recebendo o nome de uma das musas gregas: Livro I - Clio (musa da História); Livro II - Euterpe (musa da Música); Livro III - Tália (musa da Comédia); Livro IV - Melpômene (musa da Tragédia); Livro V - Terpsícore (musa da Dança); Livro VI - Erato (musa da Poesia Lírica); Livro VII - Polímnia (musa da Música Sacra); Livro VIII - Urânia (musa da Astronomia e da Astrologia); Livro IX - Calíope (musa da Eloquência). Os assuntos abordados em cada livro são:

Livro I: As origens do Império Persa e a descrição dos povos e regiões que o formavam.
Livro II: A ascensão de Cambises, filho de Ciro, fundador do Império Persa e a descrição geográfica, histórica, cultural e religiosa do Egito.
Livro III: Continuação da descrição do Egito, a invasão dessa região pelas tropas de Cambises, as tentativas do monarca em invadir outros territórios, a morte de Cambises e a organização política e econômica do Império Persa.
Livro IV: As campanhas militares de Darío e a descrição das regiões e povos conquistados no processo: escitas, getas, saurómatas etc.
Livro V ao IX: Após abordar a formação do Império Persa e descrever os diferentes aspectos das regiões e povos incorporados a ele, o historiador começa de fato a falar das Guerras Médicas, elencando os fatores que levaram Darío a invadir a Grécia.

Antes de dar início à descrição das causas que motivaram as Guerras Médicas, Heródoto se empenha em descrever as regiões e os povos que englobavam e que foram conquistados pelo Império Persa. Para tal, utilizou conhecimentos em Hidrografia, Botânica, Economia, Política etc, tornado-se, de acordo com José Luís Romero, o precursor de uma História Cultural. O autor também revoluciona ao não deixar a mitologia interferir, apenas em casos necessários, na totalidade de sua narrativa.

3. Metodologia

Para produzir sua obra, Heródoto utilizou três métodos: ópsis, historíe e gnóme. A Ópsis é a observação pessoal, o que foi visto pelo autor durante suas viagens (Geografia, costumes e monumentos); A Historíe é a indagação, a pesquisa acerca do que se quer saber, feita mediante o recolhimento de fontes documentais e principalmente as orais. O autor, quando se refere aos relatos de terceiros, utiliza expressões como "de acordo com", "segundo tal pessoa". Foram consultados registros governamentais, listas administrativas e obras de outros autores. Diferente dos antigos escritores, que apenas compilavam em suas obras diversas informações, sem irem em busca de suas veracidades, Heródoto adota uma postura crítica em relação aos dados obtidos, comparando suas informações e, em alguns trechos de seu livro, demonstra não crer totalmente sobre determinada informação:

"Eu, por minha parte, devo dizer o que me disseram, porém não sou obrigado a acreditar totalmente nisso; tenha isso em conta para o conjunto de minha obra".

A narrativa da obra não segue uma linha cronológica definida. Como unidade de tempo são utilizados os cálculos por gerações (cada uma com duração de 30 a 35 anos; três gerações, 100 anos); como principal referencial para os tempos remotos, a Guerra de Tróia; e o Arconte Epónimo, uma espécie de cargo político com duração de 10 anos, indicado pelo nome de um nobre. Heródoto tinha uma visão cíclica da História, isto é, com início, meio e fim previsível.


4. Linguagem

A escrita de Heródoto é produzida a partir do dialeto jonio, herança dos logógrafos, e do dialeto ático. Seu estilo é marcado pela acumulação de orações, do tipo coordenativo e subordinada, combinadas entre si por seus conteúdos e por verbos de ligação, pronomes, adjetivos e advérbios anafóricos. Também é muito recorrente a repetição de palavras em diferentes orações ou parágrafos; e o uso do discurso direto (com as palavras do próprio autor) e do discurso indireto (através do narrador ou de alguma outra pessoa).


Aos interessados, a obra está disponível no site eBooksBrasil, na célebre versão do historiador francês Pierre-Henri Larcher (1726-1812). No Brasil, o advogado acriano Mário da Gama Kury, considerado o maior tradutor brasileiro de clássicos, foi o responsável por traduzir essa obra para o português (o livro foi editado pela Universidade de Brasília).


sábado, 20 de junho de 2015

A Insustentável Leveza de Tanta Primavera (crônica de Ellza Souza)


Velhice. Um estágio, uma etapa. Não tem para onde "correr", ela sempre nos alcança. Não é um bicho de sete cabeças, mas sim uma primavera, como bem expressa a crônica da leitora e amiga Ellza Souza, que trata essa etapa da vida com muito humor e energia. Sobre a História da velhice, recomendo o livro História da Velhice no Ocidente, do historiador francês Georges Minois (edição em português, 1999). Leiam abaixo a crônica de Elza Souza.

Fazia tempo que meu aniversário não "caía" no domingo, um dia que adoro, que é azul, em que o mato é mais verde, em que o mundo é mais calmo. Agora que o Celdo me confirmou que na Amazônia tem sim primavera, posso me regozijar com as minhas também e distribuir com vocês para não ficar tão pesado esse buquê. Convenhamos que mesmo sendo primavera que implica em beleza e flores, que pesa, pesa.


Amanheci com a sensação do peso de tantas primaveras. Com a sensação de quem está mais pra lá do que pra cá. Lógico que é assim e tem que ser assim pois o tempo não para e precisamos subir aos céus para dar lugar a outros, quem sabe nós mesmos em outra configuração.

Ao chegar na 61ª. primavera da minha existência percebo com clareza o que chamam por aí de “melhor idade”. Apesar de estar apenas começando uma nova etapa de vida, todos já te olham como se estivesse no fim. E o pior como se não tivesse mais capacidade de pensar e de ser feliz. Claro que não me refiro aos parentes e amigos mas aos que correm por fora. No ônibus, por exemplo, quando precisamos correr com a carteirinha para provar o que está na cara e no corpo todo. É meus amigos, a pele afrouxa, o bucho cresce, o braço engrossa, as pestanas acho que já eram. O olhar perde a tonalidade, o viço. Aí lascou-se. Vai-se formando todo o jeitinho de uma simpática velhinha bondosa, mas gagá, segundo os “por fora” como disse antes.

As dificuldades são muitas e precisa de grande esforço para continuar. Ao fazer 50 anos escrevi por aí que nunca ia usar uma bata pois achava que era roupa de velha. Mas confesso que tenho reavaliado as ditas vestimentas. E estou olhando-as com outros olhos e dando preferência as de manga longa e gola role. Captou? Não que ache feia a velhice. Acho que existe beleza numas preguinhas bem feitas mas que pesa, pesa e vou me preparar para a minha primeira bata, que ninguém é eterno.

De tudo que vivi até aqui o melhor foi o amor que tenho pelos meus filhos, Suzana e Eduardo, o convívio com meus familiares e esses encontros que de vez quando fazemos com as pessoas que gostamos e admiramos. Vocês. Uns mais outros menos na “melhor idade” e como a melhor idade é a idade que cada um vive vamos mesmo é aproveitar momentos como esse e enriquecer a VIDA de boas histórias.

Desculpem a xaropada...mas é o que gosto de fazer: escrever. E na melhor idade ganhei o direito de fazer o que gosto nem que os que correm por fora achem que “velho não faz isso ou aquilo”. Não faz se não quiser, amigos.  Vamos fazer: amor, amizade, solidariedade, bondade. Vamos dançar, rebolar, contar piada, rezar, conversar, ler, ouvir música. Pronto já nem estou sentindo mais o peso das 61 primaveras e sim estou envolvida na leveza das 16. Essa é a leveza que devemos preservar até a primeira bata.




Ellza Maria Pereira Souza é Jornalista formada pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), com vários cursos na área de produção de rádio, Televisão e roteiro para cinemas. É autora do livro São Raimundo: Do "alto" da minha colina - sem os bucheiros o bairro de São Raimundo perdeu o encantamento, publicado em 2008.

Algumas impressões sobre o bairro de Aparecida (Manaus)

Beco Carolina das Neves

A sensação de “voltar” no tempo é uma das melhores que se pode ter. Já a tive várias vezes ao visitar locais históricos da cidade. Em passeio no bairro Nossa Senhora de Aparecida, zona Sul de Manaus, presenciei a continuação de antigos costumes e tradições e também tomei nota sobre as características de algumas ruas e construções. A seguir, minhas impressões sobre os lugares visitados.

Beco Carolina das Neves: Esse é um dos vários becos existentes no bairro e também o mais famoso. As casas são simples, construídas em alvenaria e madeira, a maioria de apenas um andar e algumas aparentando possuir mais de 50 anos. A proximidade das casas é tanta que permite que os vizinhos conversem sem precisar ir para a rua. Nela fica o “Boteko da Fundação”, que recebe este nome por ter sido, em 15 de março de 1980, o local de fundação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Aparecida, é um típico comércio das antigas, onde é possível encontrar desde a manteiga salgada, “sebo de holanda” e as quase extintas bolinhas de gude.

A "Casa dos Leões". Infelizmente, por ser um péssimo fotógrafo, não consegui enquadrar o terceiro leão.

Beco da Indústria: O que mais me chamou atenção no Beco da Indústria (antigo Chora-Vintém) foi uma residência, que parece ser do início do século passado. Janelas, gradis Art-Nouveau e, em destaque, no muro, as esculturas de três leões. Essa é uma simbologia nobre, que representa as feras em posição de guarda, como se estivessem protegendo a casa. Outras casas antigas podem ser vistas no beco, com um autêntico sobrado português próximo à “casa dos leões”.

Beco Vera Cruz: Sem placa de identificação ou alguma residência suntuosa, o ponto de destaque do Vera Cruz é a proximidade que este tem com o Igarapé de São Raimundo. As poucas casas do local, a maioria delas construída em madeira, ficam, na época da cheia, com a água batendo na porta. Galinhas são criadas livremente no lugar, alimentando-se de capim e dos detritos presentes na água.

Uma parte do Beco Vera Cruz.

Rua Dr. Aprígio: A rua do castelo da Cervejaria Miranda Corrêa, prédio de destaque na paisagem e na História do bairro. No seu início, do lado esquerdo, existe uma fonte de água potável, na qual o líquido sai da boca de uma figura grotesca, semelhante às fontes coloniais existentes nas cidades históricas de Minas Gerais. Do lado direito, um conjunto de 7 residências construídas na década de 1930 para abrigar os altos funcionários da Cervejaria. A última residência, a maior, no sentido de quem vem do Igarapé de São Raimundo, é curiosa. Com decoração mais rebuscada, frontão trabalhado no estilo Art-Nouveau, semelhante às residências históricas do Centro, ostenta a data de 1958, bem posterior à construção das outras casas. As águas do Igarapé de São Raimundo estão desgastando o terreno em que as casas foram erguidas, comprometendo suas estruturas, que correm o risco de desabar. Com a cheia do Rio Negro, uma parte da rua invadida pela água serve para o atraque de canoas e barcos de médio porte.


Rua Dr. Aprígio de Menezes.

Essas foram minhas impressões sobre quatro dos vários lugares pitorescos do bairro. Não foram profundas análises do passado histórico (com algumas exceções necessárias), mas sim a construção de relatos do tempo presente. Recomendo aos que ainda não conhecem visitar o bairro de Aparecida, onde os mais antigos se conhecem e guardam recordações do passado, e a vida ainda parece ser regida pelas cornetas do já inexistente Batalhão do bairro de São Vicente, de forma bem provinciana.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Aprendendo a Identificar os Séculos



O século (cem anos), tradicionalmente identificado por algarismos romanos, é uma unidade de tempo bastante utilizada no ensino da História. Além dessa unidade de tempo, também temos o biênio (dois anos), quinquênio (cinco anos), década (dez anos), quartel (vinte e cinco anos) e milênio (1000 anos). Saber identificar o século é bastante importante para o historiador situar os fatos, o contexto em que estes ocorreram e, principalmente, organizá-los em ordem cronológica. A contagem do tempo é diferente para cada cultura. O calendário muçulmano é diferente do calendário judaico. O Cristianismo, presente na maior parte do mundo, influencia a contagem do tempo da seguinte forma: a . C. (antes de Cristo) e d. C. (depois de Cristo).

Para saber a que século pertence um ano, utilizamos uma conta simples, somando o 1 ao número referente à centena do ano:

- 1895 – 18 + 1 = 19. O ano de 1895 pertence ao século 19.

Quando o ano terminar em zeros, a centena indica o século:

- 1700 – 17 . O ano de 1700 pertence ao século 17.


ANOS/SÉCULOS

1 a 100/ século I
101 a 200/ século II
201 a 300/ século III
301 a 400/ século IV
401 a 500/ século V
501 a 600/ século VI
601 a 700/ século VII
701 a 800/ século VIII
801 a 900/ século IX
901 a 1000/ século X
1001 a 1100/ século XI
1101 a 1200/ século XII
1201 a 1300/ século XIII
1301 a 1400/ século XIV
1401 a 1500/ século XV
1501 a 1600/ século XVI
1601 a 1700/ século XVII
1701 a 1800/ século XVIII
1801 a 1900/ século XIX
1901 a 2000/ século XX
2001 a 2100/ século XXI


FONTES: COTRIM, Gilberto. História e Consciência do Brasil. 7° edição, São Paulo, Saraiva, 1994.


BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 2° edição, São Paulo, Moderna, 2010.


CRÉDITO DA IMAGEM: www.comoassim.com.br