quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Tudo está na raiz


No curto período em que trabalhei em um Sebo (loja de livros usados), de 24/08 a 26/10, coloquei minha cabeça em reflexão sobre a História da humanidade até os dias de hoje. Há três sextas-feiras atrás, um senhor, cujo nome a memória impede que eu lembre, entrou no recinto atrás de livros de História. Peguei alguns, e ele lia e relia, avaliando quais levaria. Começamos a conversar sobre essa ciência. Uma simples exclamação desse senhor, fez eu pensar bastante sobre a origem de todas nossas realizações e males: “tudo está na raiz, na essência do homem”.

Somos seres incríveis, mas com grande tendência a cometer erros. O homem que lascava pedras evoluiu, passou a poli-las, dominou os metais, criando instrumentos mais resistentes. Da observação das plantas, inventou a Agricultura. Dos excedentes de produção surgiu o escambo, antecessor do comércio. Do convívio com os animais, passou a domesticá-los. O nomadismo deu lugar ao sedentarismo, e as comunidades lugar às cidades.

Os membros mais fortes das antigas comunidades tornaram-se chefes políticos das urbes, que iam surgindo ao redor de lugares férteis, geralmente à margem dos rios. O crescimento dessas cidades, a demanda de espaço e de alimento, fez com que surgisse o expansionismo. Era a guerra, que em pouco tempo, devastava ambos os lados combatentes. Desses conflitos surgiram impérios poderosos. Para sustentá-los, foram criados impostos, taxas que se pagam para realizar atividades ou usufruir de alguns benefícios.

O desconhecido, que no passado movia os homens, tornou-se um dos instrumentos de dominação por parte dos líderes imperiais. Foi dado o nome de religião. Budismo, Cristianismo, Islamismo e Hinduísmo. Além de garantir o conforto espiritual, algumas pessoas viram nas diferentes religiões uma maneira de controle emocional e político. O que existia além dos limites antigamente estabelecidos? O homem ficou curioso e foi atrás de respostas. Em pouco tempo, encontrou novos territórios, novos produtos, novas pessoas. Destruiu civilizações, tradições e aniquilou vidas. Já não se trocavam excedentes, pois foram criadas as moedas, que tinham valor estabelecido.

Revoluções, contra a tirania dos governantes, começaram a estourar em vários lugares. Sob as bandeiras de liberdade, igualdade e fraternidade, foram derrubados antigos governos, mas a forma de governar continuou a mesma. Ideologias utópicas surgiram. O Comunismo, a maior representante, almejava uma sociedade igualitária, sem divisão de classes (coisa que não ocorreu nos países em que foi “implantado”). Situação irreversível, pois há milênios o homem se tornou um ser individual, criou classes sociais, a propriedade privada e as divisões de trabalho. São esses os sólidos alicerces de nossa sociedade.

No final do século 19 e boa parte do 20, a genialidade humana deu um salto imenso. Inventamos a luz elétrica, o cinema, o telefone, o automóvel, o rádio, encontramos novas matérias-primas, perfuramos o primeiro poço de petróleo. Criamos armas poderosas, capazes de abater o inimigo mais rápido: revólver, metralhadora, granadas, morteiro e lança-chamas. Em pouco tempo, estaríamos novamente invadindo territórios que já tinham donos, só que dessa vez estávamos atrás de mercados consumidores e matérias-primas.

Essa disputa comercial e territorial foi a responsável por uma Grande Guera, que envolveu nações do mundo todo. Os ressentimentos guardados desse conflito culminaram em outro, que viria a estourar anos mais tarde. Da guerra emergiram os países que controlariam os outros, política e economicamente: Estados Unidos, representando o capitalismo e União Soviética (Rússia) representando o comunismo. O homem foi à lua, criou computadores, novos alimentos e formas de comunicação. Em mais de 40 décadas de polarização, o Comunismo definhou e o Capitalismo se mostrou o sistema “triunfante”.

Nesse século que vai passando rapidamente, estamos sendo bombardeados a cada segundo por informações. Novas tecnologias, com incrível poder de alcance, descobertas de novas espécies, a invasão de territórios, novos embates entre Esquerda e Direita, e novamente, se percebe a ascensão da Direita, crises humanitárias e a descoberta de novos planetas. O que me pareceu uma simples exclamação, citada no início do texto, fez eu perceber que, um simples lascar de pedras em tempos remotos, foi a fagulha do nascimento uma civilização que até hoje caminha entre os erros e os acertos. Humanos, inventivos, por necessidade de sobrevivência. Destruidores, por falta de consciência. Nossa essência é inventiva e destruidora.


CRÉDITO DA IMAGEM: seuhistory.com

sábado, 24 de outubro de 2015

Lugares Pitorescos de Manaus

Toda cidade possui suas particularidades e lugares curiosos. Em Manaus, algumas pessoas diriam que é a alta temperatura, ou o "aroma" dos nossos igarapés; outras, mais "maldosas", diriam que é a "preguiça" do povo (algo que não passa de lenda, pois o manauara é muito criativo). Com uma carga histórica de 347 anos, a cidade guarda lugares de nomes curiosos, de origem popular, e paisagens bucólicas cheias de História. Alguns lugares já desapareceram, outros tiveram o nome alterado.

Bairro de São Vicente (Centro Antigo): Localizado no Centro antigo da cidade, essa região, compreendida entre as ruas 5 de Setembro, Bernardo Ramos, Frei José dos Inocentes, Visconde de Mauá, Monteiro de Souza, Tamandaré e Itamaracá, é o início da expansão e urbanização de Manaus. Em São Vicente estão muitas das edificações mais marcantes da cidade, como o Paço Municipal, o Palácio Rio Branco, o antigo Hotel Cassina, o antigo Hospital Militar, a Praça D. Pedro II e  a casa considerada a mais antiga da cidade (1819) e muitas outras edificações da segunda metade do século 19 e do início do século 20. Na atual rua Visconde de Mauá, ficava a capela de N. S. da Conceição, erguida em 1695. O primeiro teatro da cidade, o Éden Teatro, inaugurado em 1869, ficava na esquina da rua Bernardo Ramos com a Frei José dos Inocentes; e o primeiro arranha-céu da cidade, o prédio do IAPETEC, inaugurado em 1954, na Av. Sete de Setembro. O nome São Vicente é uma homenagem ao santo padroeiro de Lisboa, Portugal.

Rua Bernardo Ramos, no bairro de São Vicente. Acervo Jornal A Crítica.

Rua da Bosta (atual Rua São Francisco, bairro de São Raimundo): O nome, um tanto engraçado, é de origem popular. Segundo a pesquisadora e antiga moradora do bairro de São Raimundo, Elza Souza, alguns moradores das redondezas criavam porcos e cabritos aos ar livre. Esses animais, que pastavam pela rua, acabavam por fazer suas necessidades ali mesmo. Em pouco tempo "Rua da Bosta" se tornou referência para localizar a via.

Boca do Emboca (atual bairro Santa Luzia): O bairro de Santa Luzia, criado oficialmente em 1951, já vinha sendo ocupado desde 1920. De acordo com o historiador Mário Ypiranga Monteiro, o nome Emboca foi dado pelo guarda de 1° Classe do Corpo de Segurança Pública do Amazonas, Sebastião Feliciano de Oliveira, morador do local. Este é uma alusão à embocadura (foz de rios) dos igarapés do Mestre Chico e o da Pancada, que formavam um maior, o Igarapé de Educandos. A referência são os fundos da Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa.

Planeta dos Macacos (Atual bairro da Redenção): Surgido de uma invasão de operários em 1974, o bairro da Redenção, na Zona Centro-Oeste, quando ainda era uma simples comunidade, era conhecido como Planeta dos Macacos. Existem duas versões para a origem desse nome. Para alguns, o nome é uma referência à presença de diferentes espécies de macacos na região, que tinha bastante área verde quando foi criada. Outra, talvez mais coerente, diz que o nome foi uma homenagem ao universo da franquia de filmes "Planeta dos Macacos", criada no final dos anos 60 e que passou a fazer enorme sucesso nos anos 70.

Vista aérea do bairro de Santo Antônio. Acervo Skycrapercity.

Morro do Bode (atual bairro de Santo Antônio): Localizado na Zona Oeste da cidade, o bairro de Santo Antônio foi, durante os anos 50, conhecido como Morro do Bode. O nome é de origem popular. Um morador de nome Sabino criava bodes e cabras em um morro perto da atual Rua Presidente Dutra, que liga o bairro de Santo Antônio ao bairro da Glória. O nome não agradou nem um pouco os moradores do bairro nascente que, em reunião com o padre da região, decidiram mudar o nome do local para Santo Antônio, exatamente no dia do santo em que a reunião foi realizada.

Ladeira do Quebra C* (parte da rua Saldanha Marinho, que desemboca na rua da Instalação, Centro): O nome, engraçado, é de origem popular. No final dos anos 1930, segundo Mário Ypiranga Monteiro, esse nome se tornou referência para aquela parte da rua Saldanha Marinho. Mário afirma ainda que esse nome se dava pelo fato de que, na época das chuvas, as pessoas escorregavam nos paralelepípedos que calçavam a ladeira, e acabavam caindo sentadas. Tombos e mais tombos no final dos anos 1930 popularizaram o nome.

Rua Saldanha Marinho, no Centro, em 1890. Registro do alemão George Huebner. Acervo Brasiliana Fotográfica.

Travessa dos Inocentes (rua Visconde de Mauá): Na época colonial, essa rua ficava na parte de trás da Matriz velha, destruída em um incêndio. Nesse local eram enterradas as crianças que morreram de forma prematura, sem a oportunidade de serem batizadas e por isso consideradas pagãs. O historiador Antônio Loureiro afirma que, na tradição popular, é possível ouvir, de noite, o pedido de ajuda delas ou o choro de suas mães.

Rua Visconde de Mauá, no Centro antigo da cidade.

Vila Mamão (entre os bairros da Cachoeirinha, em frente ao antigo Cine Ipiranga, até a beira do Igarapé, e São Francisco): A Vila já existia nos anos 1940, ocupada por nordestinos que vieram para cá durante a Segunda Guerra. A fama desse lugar surge no início da década 1950, quando passou a receber parte das meretrizes do Cabaré Chinelo, expulsas por ordem do interventor Álvaro Maia, em 1951. Segundo o pesquisador Marçal, as meretrizes ficaram na Vila Até 1970, quando esta desaparece com a construção do Hospital Adriano Jorge.

Muitos desses lugares já desapareceram ou mudaram de nome. Nesses 346 anos, Manaus é uma cidade que ainda guarda muitas surpresas, que estão esperando para serem encontradas. Existem muitos outros (Buraco do Pinto, Beco da Marreca, Vila Mamão... vai ficar para o ano que vem). Nesses 5 anos em que me interesso por História, Manaus faz eu me sentir vivo, quando escrevo ou quando a cito. Não me imagino vivendo em outra cidade ou em outro bairro. Me imagino findando meus dias em Manaus, essa cidade de desigualdades gritantes, de sol escaldante, de problemas seculares, onde o homem, com toda a sua genialidade moldada em milênios, soube estabelecer a civilização que deu origem à essa metrópole, que me abriga e que me conforta. Parabéns Manaus, 347 anos.


Este texto foi produzido com informações dos historiadores Roberto Mendonça, Aguinaldo Nascimento Figueiredo, Marçal, Antônio Loureiro, Elza Souza e Ed Lincon.




Manaus nos anos 40 (II): A Segunda Guerra Mundial

2° parte da postagem. Anteriormente, tivemos um panorama da sociedade manauara nos anos 1940. Agora, vamos entender como Manaus foi inserida no contexto da Segunda Grande Guerra, e quais os proveitos tirados desse período obscuro da História Mundial.

Pelo Porto de Manaus, no início do século passado, passaram inúmeras pélas de borracha. Em um breve momento dos anos 40, essa mesma situação voltaria a ocorrer. Foto de 1940, A Favorita.

Em 1939, a deflagração da Segunda Guerra Mundial envolveu os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e países do bloco Aliado (Inglaterra, França, Estados Unidos, etc.), atraindo o mundo para um desastre letal. Em 1941, o Japão atacou bases militares norte-americanas e britânicas no Pacífico e invadindo possessões asiáticas produtoras de borracha, responsáveis por 95% de toda a produção mundial desse produto. Privados desta preciosa matéria-prima, os aliados voltaram seus interesses para a única região com capacidade suficiente para suprir esta perda - a Amazônia.

O torpedeamento de navios brasileiros, dentre eles o Baependi, que ceifou a vida de muitos amazonenses e provocou uma onda de ira na cidade, com patriotas amazonenses depredando e agredindo cidadãos de origem alemã e italiana, fez o governo brasileiro declarar guerra aos países do Eixo, inserindo o país no conflito mundial. Incorporado diretamente no conflito como potencial fornecedor dessa matéria prima o Amazonas assistirá novamente um surto de migração rumo aos rios e florestas em busca da borracha.

Para atingir esses objetivos é necessário reestruturar toda organização produtiva no Estado, no que diz respeito à força de trabalho, transporte, estocagem, comunicação e infraestrutura administrativa e Manaus foi escolhida para ser uma das sub sedes desse monumental plano proposto nos “Acordos de Washington”, assinado pelo Brasil com governos aliados, capitaneados pelos Estados Unidos da América e gerenciado pela Rubber Development Company, cujo escritório foi instalado nas dependências do Teatro Amazonas.


Presidente Getúlio Vargas em visita a Manaus, 1940. Registro feito pelo fotógrafo americano Hart Preston, nas dependências do antigo Quartel da Polícia Militar do Amazonas, atual Centro Cultural Palacete Provincial. Sua visita visava acordos comerciais para o fornecimento de borracha para os Aliados.

Este foi um período ruim para todos e sofreram muito com o conflito. A cidade, que já vinha tendo problemas de abastecimento de alguns gêneros alimentícios e outros produtos como café, açúcar, óleo de cozinha, feijão, arroz, sal, carne entre outros mais vitais, já que não os produzia, por conta da estagnação econômica e dependia do abastecimento externo, com a entrada do Brasil no conflito, terá a situação agravada com o bloqueio naval e o racionamento. Com a falta de produtos industrializados, principalmente combustíveis, roupas, remédios e equipamentos de reposição o povo teve de se virar com improvisos regionais. O mercado negro nessa época foi muito ativo, enriquecendo muito comerciantes inescrupulosos.

A situação da energia elétrica só piorou com a guerra, porque se acentuaram os apagões, que se tornaram uma verdadeira agonia por conta do excesso de zelo das autoridades militares, que temia um improvável ataque de aviões do Eixo a tão longínqua capital do Amazonas realizando exercícios de blackout durante todo o período da noite. Todavia, essas interrupções ocorriam, na maior parte, tão somente por causa do desabastecimento de combustível usado para movimentar os precários geradores instalados ainda no período da borracha, muitas das vezes, suspenso pela falta de liquidez do sistema que, até 1932, fora controlado pelos ingleses e, desde então, subsistia sempre deficitário. Na verdade, quem sofreu mesmo com o impacto das restrições foram apenas os mais pobres.

Mesmo com a desorganização e falta de sintonia entre os vários órgãos gestores do mega projeto americano, que não alcançou seus objetivos e produziu uma quantidade pífia de borracha nativa, pois o preço estava abaixo do mercado, foi a partir dos investimentos oriundos dele que a cidade vai ter algumas reformas na sua infraestrutura, reformando e construindo novos edifícios públicos, recebendo novas vias e recuperando outras, reaparelhando portos e locais de embarque e desembarque de borracha, inclusive dando sinais de um curto ciclo de desenvolvimento a partir da circulação monetária acompanhada de uma tímida especulação imobiliária. O comércio revigorou seus estoques por algum tempo, ganhando folego e renovando esperanças, já que não se sabia quando a guerra iria acabar.

Seringueiro, 1943, Acervo IBGE. Uma nova leva de nordestinos viria para a Amazônia, para suprir a falta de mão de obra para a extração do látex, utilizado para fabricar borracha para os Aliados. Durante a 2° Grande Guerra, esses trabalhadores ficaram conhecidos como "Soldados da Borracha". Até hoje lutam por reconhecimento e pagamentos do governo.

Em 1944, foi inaugurado o Aeroporto de Ponta Pelada no bairro da Colônia Oliveira Machado, introduzindo a cidade nas comunicações aéreas, muito embora as rotas comerciais aéreas já operem em Manaus desde 1932, com os hidroaviões da Panair do Brasil. Muitos migrantes nordestinos, que compunham os “Soldados da Borracha” que não chegaram nem a ir aos seringais ou fugiram deles durante e depois da guerra, se refugiaram na cidade, aumentando consideravelmente sua população, indo habitar antigos bairros como Colônia Oliveira Machado, Educandos, Santa Luzia, bem como contribuíram para a formação de novos a exemplo do Morro da Liberdade, da Chapada e Barro Vermelho ou se alojando em locais já visivelmente estrangulados, como a “Cidade Flutuante”, se constituindo como um novo componente do estrato social da cidade.

Muitos manauaras participaram diretamente do conflito nos campos de batalhas europeus à frente das tropas do 27º Batalhão de Caçadores, (o famoso 27BC) que foi incorporado ao 5º Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) do general Mascarenhas de Moraes, em 1945. O sargento Manoel Chagas, que era natural de Manaus, foi o único militar a perecer no conflito, vitima de uma mina terrestre que explodiu a viatura em que viajava.

Manoel Chagas. Foto do livro o Amazonas na Segunda Guerra Mundial.

Mas a guerra teve seu fim e, com ela, as esperanças de tirar a região do abismo sem fim do subdesenvolvimento. Os planos de desenvolvimento concebidos nos “Acordos” foram abandonados, as verbas indenizatórias dos trabalhadores foram descaminhadas, as estruturas do atraso não foram rompidas e tudo voltou como dantes. As atenções do governo federal agora são para as regiões Sul-Sudeste, por estas apresentarem mais condições de dinamismo econômico. A Amazônia vai ser mesmo esquecida do resto da nação por muito tempo.

Como medida de alento, a partir da formulação da nova Constituição brasileira, promulgada em 18 de setembro de 1946, em seu Artigo 199, introduzido pelo deputado federal Leopoldo Peres, a União passa a ser obrigada a destinar pelo menos 3% de toda a receita tributária bruta do país para financiar o Plano de Valorização Econômica da Amazônia como meio de fomentar o progresso regional. As expectativas tomaram contas das mentes e dos sentimentos dos amazonenses, principalmente dos manauaras, interessados em romper as amarras da indigência econômica e fomentar algum progresso na cidade. No entanto, as medidas não se concretizaram e, somente a partir da década seguinte, é que alguns mecanismos de operacionalização dos recursos serão implementados e, mesmo assim, de forma muito tímida, sem trazer resultados práticos de imediato, sendo que, a maior parte deles, se concentrou na parte oriental da região beneficiando tão somente o estado do Pará, trazendo apenas como consequência mais desigualdades regionais.



Manaus nos anos 40 (I): A sociedade

Mais uma vez, em uma série de postagens sobre a História de Manaus, que comemora neste 24 de outubro 346 anos, o professor e historiador Aguinaldo Nascimento Figueiredo, “prata da casa”, nos brinda com mais um de seus artigos. Dessa vez, voltaremos aos anos 1940, quando Manaus, outra vez, sentiu o ânimo de um rápido crescimento econômico, entre 1942 e 1945, quando fez acordos com os Aliados durante a Segunda Grande Guerra. Este texto faz parte da obra inédita Manaus: História e Memória, que está com lançamento previsto para o final desse ano.

Por Aguinaldo Nascimento Figueiredo*


Vista aérea de Manaus em 1940. Acervo da revista americana LIFE.

Ao iniciar os anos 40, Manaus era um aglomerado urbano com uma população em torno de 100 mil habitantes, vivendo dias de desolado “Porto de Lenha”, segundo expressão popular da época, para se referir ao retrocesso que a cidade sofreu. A vida fluía sem muita pressa, num ritmo ditado pelas condições espaciais, econômicas e culturais de uma cidade do interior do Norte do país, com duas décadas de atraso e fortemente marcada por valores morais tradicionais católico-cristãos, forjados ao longo de sua mutante história.

Os limites territoriais da cidade alcançavam a Leste, os bairros de Educandos e Cachoeirinha, ao Norte a Vila Municipal (hoje Adrianópolis) e a Oeste o bairro de São Raimundo e Glória, considerados os subúrbios mais afastados. A rigor, a fronteira urbana compreendia o espaço delimitado entre esses bairros e o Centro histórico da cidade.

De acordo com dados colhidos no livro -“Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei, do senador Jefferson Péres, publicado pela Editora Valer em 2002, o que era considerado Centro de Manaus se constituía pelo entorno compreendido entre a orla fluvial, a Rua Joaquim Nabuco, os igarapés da Cachoeirinha, do São Raimundo e o de Manaus, indo, no máximo, ao Boulevard Amazonas, onde se concentrava o coração e vida nervosa da cidade. Eram nesses espaços que funcionavam o comércio, as repartições públicas, os centros culturais, as diversões profanas, bem como era local de residência da maior parte da classe média, ocupando seus bangalôs, sobrados, alguns palacetes remanescentes da era da borracha e poucos prédios de apartamentos construídos no final dos anos 40.


O tradicional Colégio Santa Dorotéia, na Av. Joaquim Nabuco, em 1940. Acervo Manaus Sorriso.

Manaus era dividida em duas classes sociais bem distintas em relações aos seus interesses e propósitos - a classe dos pequeno-burgueses e a dos trabalhadores. O que poderia se chamar de burguesia em Manaus era um seleto grupo de comerciantes, geralmente lojistas, de origem árabe, judia, síria, libanesa e portuguesa, bem como dos herdeiros da “era do fausto”, a maioria dedicados ao comércio de armarinhos, tecidos importados, material de construções, móveis e secos e molhados, agrupados em torno da Associação Comercial do Amazonas, longe de se constituírem como uma classe social abastada, cuja convivência existencial e moral se confundiam com a própria classe média, por adotarem estilo de vida e valores semelhantes.

Com a decadência do látex, os grandes proprietários rurais não tinham maior expressão social, somente exercendo alguma influência na política local, graças à herança do mandonismo dos tempos áureos da borracha e pelo controle de uns poucos currais eleitorais no interior, poder esse, exercido em razão do peso do chicote dos seus obedientes capatazes administradores dos seringais sobreviventes e das fazendas extrativistas.

Quanto ao proletariado, este era um conjunto disperso de trabalhadores formais e informais labutando em fábricas e oficinas ou vivendo do subemprego nas mais diversas atividades fabris e de prestação de serviços. Longe de qualquer possibilidade de “consciência de classe”, esse proletariado não passava de uma massa amorfa, sem organização sindical.

A vida política, administrativa e cultural da cidade era comandada por indivíduos oriundos da classe média, constituída, essencialmente, por profissionais liberais, funcionários públicos, políticos e comerciantes que acabavam por se tornarem governadores, prefeitos, secretários de Estado, senadores, deputados, vereadores, dirigentes de órgãos de imprensa, de entidades literárias e de clubes importantes, por representarem a sociedade civil organizada e pelo papel que exerciam nela, carreando alguma influência pessoal ou ocupando postos de expressão na comunidade.


Parque Dez de Novembro, 1950. Bazarfoto.

Governava Manaus nesse momento o superintendente Antônio Maia, irmão do governador Álvaro Maia que se desdobrou no cargo para poder honrar os compromissos oficiais da pasta, tendo mérito de ter brindado a cidade com o complexo esportivo do Parque Dez de Novembro, uma belíssima paisagem recreativa e bucólica da cidade, que serviu de espaço de distração por décadas a população manauara e que foi destruída pelo desleixo e incompetência da ação pública e privada.





*Aguinaldo Nascimento Figueiredo é professor, escritor e historiador, autor dos livros História Geral do Amazonas (7 edições), Santa Luzia - História e Memória do povo do Emboca (2008) e Os Samurais das Selvas - A presença japonesa no Amazonas (2012).

domingo, 18 de outubro de 2015

Manaus nos anos 30 (II) - Final

Guia Turístico e Comercial da cidade de Manaus e seus arredores.

Segunda e última parte da postagem Manaus nos anos 30, com recortes do Coronel Roberto Mendonça. Na primeira parte, foram apresentadas informações sobre a educação, a saúde e a mobilidade urbana. Nessa segunda parte, serão apresentados alguns dados estatísticos, como o número de atendimentos dos hospitais da cidade, e fatos curiosos da época, como a contabilização, em 1936, de 21 suicídios:

A Inspetoria de Veículos oferecia o seguinte cadastro em 1936: automóveis de aluguel, 55; automóveis particulares, 58; caminhões, 71; bicicletas, 161; motocicletas, 4; carrinhos de bagagem, 42; carrinhos de frutas, 4; carroças, 22; carros de gelo, 6; animais de cangalhas, 115; cavalos de sela, 10 e 22 cavalos de corrida.

Outra evidência do início da década se constituía nos meios de comunicação escrita e falada, específico para o interior do Estado, na divulgação de informes de interesse governamental; e aquele, exercitado pela iniciativa privada constante de jornais e revistas e do Diário Oficial como órgão inerente aos atos e procedimentos do Poder Público, inclusive com edição aos domingos.

Em verdade, o veículo oficial se apresentava com dupla função: a de editar os atos oriundos do Poder Judiciário e de oferecer informações locais e nacionais, transcrição diversas de origem pública e privada, além dos programas de diversão. "Muito grato ficarei prezado amigo se numa das vagas do serviço sanitário ou da profilaxia ocorridas com a saída de Paulo Cerqueira fosse aproveitado o doutor Moraes Rego. Abraços. Efigênio” (nota: tratava-se de um telegrama do senador Efigênio Salles ao presidente Dorval Porto – Diário Oficial, 5 de outubro de 1930).

Outra interessante noticia reproduzia o bilhete seguinte: Rio de Janeiro, 12 de setembro (de 1930). "Meucaro Raimundo Moraes. Recambiado de Madri, onde não estou desde julho passado, recebi aqui o País das Pedras Verdes, que acabei ontem de ler. Como felicita-lo por mais essa obra-prima? V. é de fato um grande escritor e, além disso, um escritor inconfundível. Ex corde. Luís Guimarães.

Outro anúncio, esse de caráter mercantil exercido pelo próprio órgão: "Venda de hoje em diante (10.10.30) lindos álbuns do Brasil, ilustrados, encadernados, dourados a fogo. Próprios para fino presente a preço de Rs. 10$000 quanto cobramos por exemplar, chega ser irrisório. Pedimos ao publico para vir ver o famoso trabalho”.  Tratava-se, portanto, de uma originalidade que os tempos modernos não admitem mais o seu emprego, da mesma maneira, em noticiar os filmes que seriam oferecidos pelos cinemas Odeon, Politeama e Popular, sempre no horário noturno das 8h30, discriminando tanto o elenco como o número de partes de cada exibição.

Os convites naturais aos responsáveis de Na. Sa. de Nazaré em benefício da construção de uma capela, iniciativa de frei José de Leonissa, pároco de São Sebastião, "obreiro incansável da Fé e da Igreja”:“Ontem vieram a esta casa, a Sra. Emília de Castro Santa Cruz e senhorita Maria Cruz  Valdez, a convidar o nosso diretor para mordomo dos solenes festejos que a religião de Manaus promove em honra e benfazeja santa. Tais solenidades que constam de novenário e de quermesse em benefício  da capela de Nossa Senhora de Nazaré prometem revestir-se de desusado brilho”.

A comunidade manauara servia-se do horário oficial adotado pelo Governo, de conformidade com o decreto específico, que indicava o Relógio Municipal situado à Praça Osvaldo Cruz como seu informante, após os melhoramentos elaborados pela administração Araújo Lima, assim como a partir de 3 de outubro de 1931 a 31 de março de 1932, assumia-se a "hora da economia da luz" (versão antiga do Horário de Verão) em cumprimento ao Decreto n.º 20.466, do Ministro da Justiça.
 
Outros acontecimentos comunitários:
 
• as audiências públicas na Interventoria Federal eram realizadas nas segundas e últimas quartas-feiras das 10 às 12 horas e na primeira e terceira terça-feira, de todos os meses, das 20 às 22 horas, sendo proibida a audiência às senhoras no horário noturno. 

• no período de maio/dezembro de 1932, o Posto Lactométrico de Manaus aprovou para consumo os seguintes produtos: 839.470 litros de leite, 9.703 quilos de manteiga, 5.705 quilos de queijos e condenou 11.209 litros de leite pela sua má qualidade.

• o consumo de carne vermelha obtida do abate no Matadouro Municipal apresentou o seguinte resultado no ano: 15.384 bovinos com 2.418.700 quilos; 8.046 suínos com 387.500 quilos; 996 ovinos com 13.600 quilos e 89 caprinos com 750 quilos.

• embora sob promessa da realização da primeira viagem aérea para o dia 20 de outubro de 1933, ao Dr. Waldemar Pedrosa, Interventor interino, a Panair de Brasil somente realizou no dia 25, chegando de Belém às 16horas, cujo regresso ocorreu na manhã de 28 do referido mês.

• a iniciativa do jornalista Jorge de Andrade de solicitar ao funcionalismo estadual, voluntariamente, a doação de um dia de vencimento por mês, para auxiliar o Estado a cumprir seus compromissos externos, era um dos destaques do Diário Oficial do Estado, em virtude da adesão que "continuava a merecer o apoio de tão alevantada ideia".

• o trabalho benemérito da Cruzada Nacional da Educação sob a administração do Dr. André Vidal de Araújo, para cujo empreendimento a Associação Comercial contribuiu com 500 cartas de ABC, 500 tabuadas, 12 dúzias de lápis "Especial", 10 caixas de giz "Victória", 2 resmas de papel almaço "Victória"e 35 volumes de publicações diversas.

• Edezio de Freitas editava o primeiro Guia Turístico de Manaus, contendo inúmeras fotografias de edifícios e trechos de nossa urbe.

• a instalação da Sociedade dos Amigos das Árvores com o escopo primordial de incentivar o culto e proteção das árvores, concorrendo, também quanto possível, para evitar as devastações das nossas reservas florestais, já bastante desfalcadas pela imprevidência humana.
 
• algumas autoridades do início da década: Dr. Vicente Telles de Souza, diretor da Escola Normal; comandante Braz Aguiar da Marinha Nacional; Prof. Marciano Armond, prefeito de Manaus; Dr. Odilon Conrado, delegado Fiscal; Prof. Plácido Serrano, diretor de Instrução Pública; Dr. Jatyr Pucu de Aguiar, diretor da Repartição das Águas; Desembargador Hamilton Mourão, presidente do Tribunal de Justiça; Dr. Júlio Nery, Fiscal Federal de Ensino; Dr. Francisco Pereira, secretário-geral do Estado; Prof. Felismino Soares, secretário da Escola Normal; Dr. Gentil Bittencourt, secretário da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais.

• a Escola Royal , direção de Hylma e Zenir de Medeiros Raposo, realizou exames finais em 1º.11.30, com a presença do Prof. Agnello Bittencourt, na qualidade de presidente da Banca Examinadora, da senhorinha Sylvia Carneiro dos Santos e do Dr. Admar de A. Thury, examinadores, do Dr. Álvaro Maia, como paraninfo. Diplomados: Leonilda de Carvalho Barroco 
Adrião, Plínio Ferreira dos Santos, Cecília Silva, Guilherme Marques de Souza, Gilberto Queiroz Rodrigues, Maria Fernandes Ferreira, Aurélia Albano Romero e Laura Couceiro.

• a nova diretoria da União dos Proprietários de Alfaiatarias de Manaus apresentava a seguinte composição: presidente - José M. Figueiredo; vice-presidente - José Bezerra; 1º secretário - Manuel Arraes P. Barreto; 2º dito - Guilherme Johnson; tesoureiro - José Mafra Filho. Diretores: José Alves Ribeiro do Souto e Nicolau Miguel; Conselho Fiscal: Inácio Coelho, Miguel Antônio da Silva e Assírio de Aguiar Silva.

• a Sociedade Portuguesa Beneficente tinha a seguinte administração: Presidente da Assembleia-Geral, comendador Joaquim Gonçalves de Araújo; 1º Secretário, barão Joaquim de Machado e Silva; 2º dito,José Corrêa dos Santos. Diretoria: Francisco da Silva Mattos Cardoso, presidente; Joaquim Pereira de Moraes Carneiro, vice; João Travassos Vinagre, 1º secretário; 
Armando Arnaldo Ferreira de Miranda, 2º dito, José Pinheiro Vieira, tesoureiro; José Pereira Manarte, adjunto e Joaquim Pinto da Silva Junior, como procurador.

• concluíram o ensino secundário no triênio de 1934 a 1936, no Ginásio Pedro II e no Colégio Dom Bosco, 84,51 e 60 alunos respectivamente, enquanto na Escola Normal colocou a disposição da sociedade no mesmo período: 48, 52 e 53 professores de 1º grau.

• o ensino comercial no ano de 1936 apresentou um quadro de134 concludentes preparados pela Escola Solon de Lucena, Colégio Dom Bosco, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Instituto Benjamin Constant e Escola Prática Senador Lopes Gonçalves.

• o curso superior nos anos de 1934 a 1936 teve a seguinte performance: Faculdade de Direito, 17 advogados, Faculdade de Farmácia e Odontologia, 66 profissionais e Faculdade de Agronomia, 16 agrônomos.

• a Santa Casa de Misericórdia atendeu 1.331 internações, sendo 772 do sexo masculino e 559 mulheres, enquanto o movimento do Hospício Eduardo Ribeiro foi de 23 homens e 22 mulheres, segundo o relatório do governador, Dr. Álvaro Maia, perante à Assembleia Legislativa do Estado no ano de 1936, com referência a assistência hospitalar sob a responsabilidade do Poder Público.

• a estatística criminal expressada pelo Estado, no ano de 1936, ofereceu o seguinte desempenho: 18 defloramentos, 22 estupros, 1 rapto, 4 atentados contra o pudor, 33 homicídios, 4 tentativas de homicídios, 44 lesões corporais leves, 18 lesões corporais graves, 2 castigos imoderados, 16 crimes culposos, 1 calúnia, 1 dano, 11 furtos, 2 estelionatos, 3 roubos 1 desacato, totalizando 182 contravenções e crimes.

• ocorreram em 1936: 21 suicídios, sendo 15 diurnos e 6 noturnos, tendo como causas presumíveis: amores/3, alienação mental/3, revés da sorte/4, doenças diversas/2, desgostos de família/2 e sem qualquer possibilidade de presunção/7. Os locais do infortúnio apresentaram como ambiente: casas de família/17, baia do Rio Negro/2 e casas de prostituição/2.

• a movimentação aeroportuária constituída de aeronaves, embarcações interioranas, navegação de cabotagem e de longo curso no ano de 1936, exibiu a seguinte performance: 55 aviões, 86 motores, 394 lanchas, 357 vapores e 56 paquetes, sendo sua procedência do interior (621), outros Estados (240) e do exterior (87).



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Manaus nos anos 30 (I)

Praça do Comércio, 1933.

Fazia quase duas décadas que Manaus viu sua principal fonte de rendas, o comércio da borracha, ser barrado pela concorrência asiática. O Brasil tomava novos rumos, com o fim da República Velha e o governo de Getúlio Vargas. Mas as oligarquias continuavam a influenciar o cenário local. Em Manaus, a sociedade vivia de forma tranquila, sem aquela pujança do início do século, e o Estado tentava manter, mesmo com a arrecadação em baixa, um nível de vida aceitável.

O Coronel e historiador amazonense Roberto Mendonça, em seu blog Catador de Papéis, no qual publica artigos diversos sobre a História de Manaus, compartilhou conosco recortes do livro Amazonas: aspectos socioeconômicos (1930-1939), produzido por José Lopes da Silva (SESC/AM, 1995). Neste livro temos informações sobre a educação, a saúde e a mobilidade urbana naqueles não tão longínquos anos 30. Seguem abaixo os recortes feitos pelo Coronel Roberto Mendonça:

Sem a ostentação do início do século, a capital do Amazonas contentava-se com a singeleza de uma urbe provinciana, estigmatizada por um centenário econômico decadente sem maiores perspectiva de seu soerguimento. Entrementes, com toda essa adversidade estrutural herdada da "belle epoque", convivia-se com uma comunidade sem traumas, lúcida e até certo ponto tranquila, em decorrência do exercício da verdadeira cidadania, onde os direitos e obrigações eram devidamente respeitados, mesmo com os desequilíbrios sociais, à época, menos danosos que os da atualidade. 

Desenvolvia-se uma educação sob à custodia da Instrução Pública, onde o respeito pelo mestre iniciava-se com a conquista do cargo de Professor, submetido a concurso com defesa de tese e dissertação, prova escrita, preleção e arguição. A educação secundária na escola pública era exercitada na Escola Preparatória com acesso a Escola Normal e no Ginásio Amazonense Pedro Il,cuja frequência dos alunos e das aulas não dadas pelo professor responsável era publicada no Diário Oficial do Estado, diariamente, bem como todas as notas das provas parciais e finais. Havia um compromisso firmado entre a classe docente e discente.

A Escola de Aprendizes Artífices localizada na Cachoeirinha, em um prédio modestíssimo todo coberto de zinco, antigamente destinado a uma feira municipal, exercia um papel preponderante na formação profissional do amazonense de extraordinária utilidade a sociedade.

Era administrada pelo Dr. Esmeraldo Coelho, em cujas salas de aula aprendiam-se a arte das forjas, marcenarias, da modelagem, sapatarias e tantas outras profissões. Tratava-se de uma escola federal, que tinha como fundamento transformar a Escola em casa de educação prática e de disciplina do trabalho, nas quais a criança aprendia, educava-se e habilitava-se a competição no mercado de trabalho.
A saúde pública na capital do Amazonas era motivo de regozijo para o amazonense, principalmente, quando nos defrontamos com o noticiário da Revista da Associação Comercial, que transcreve a seguinte publicação:

Além de Euclides da Cunha, muitos escritores e sábios têm escrito sobre o nosso ótimo estado sanitário. Falem agora as estatísticas. Nas últimas, distribuídas pelo Governo Federal, há o seguinte: as capitais de maiores coeficientes de mortalidade são Recife, Natal e Vitória, sendo Curitiba e Manaus os de menores coeficientes. É a maior prova em prol de nossa terra, ora procurada pelas correntes migratórias.


A infraestrutura hospitalar independente daquela oferecida pelo setor privado, representada pela Beneficente Portuguesa, apresentava como base física a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital São Sebastião, o Asilo de Mendicidade e a Colônia de Alienados Eduardo Ribeiro, que se corporificou na gestão do provedor Dr. Aluísio de Araújo, sucessor do coronel Leopoldo Matos, nomeado pelo Dr. Efigênio de Salles, então presidente do Estado, em 23 de janeiro de 1928.

Confrontando-se com as dificuldades financeiras inerentes a assistência hospitalar, em um interregno de depressão econômica inibidora de maior arrecadação do Erário estadual, o Dr. Aluísio de Araújo, empreendeu um movimento benemerente junto à sociedade, objetivando arrecadar recursos para remodelação de toda a estrutura física do edifício, que obrigava o hospital base de Manaus, incluindo dentro de suas perspectivas as demais unidades.

O projeto consistiu na construção de três bangalôs localizados nas imediações da atual Praça do Congresso, ainda hoje existentes, os quais foram sorteados mediante a venda de bilhetes, com relativo sucesso “apesar da crise avassalante, entorpecente de todas as iniciativas, conseguiu-se vencendo tremendas dificuldades dotas a cidade de mais esse próprio”, conforme assinalou o articulista, após o sorteio do terceiro prédio em 25 de abril de 1930. Empregando os seus conhecimentos de arquiteto, dentro da filosofia de Le Corbusier, o jovem e promissor provedor viabilizou, segundo informes da época,

“atacar de frente todas as dificuldades, prosseguindo e aumentando o plano delineado para a transformação e remodelação do grande hospital. Essa obra patriótica serve prova-o o suntuoso hospital de hoje, no largo trecho da rua Dez de Julho, em frente ao jardim Leopoldo Matos. De prédio desengonçadamente colonial, brotou o palácio esplendoroso com seu gramado simétrico valorizando o busto do homenageado. Entre as suas modificações é consolador ver a maternidade para indigentes, a enfermaria de segunda classe, o salão nobre, além de outros melhoramentos”.

A reforma alcançou o custo de mais de 3 mil contos de réis.

O corpo clínico era composto pelos médicos Basílio de Seixas, Alfredo Augusto da Mata, Antônio Ayres de Almeida Freitas, Fulgêncio Martins Vidal, Álvaro Madureira de Pinho, Vivaldo Palma Lima, José Francisco de Araújo Lima, Jeronimo Ribeiro, Xavier de Albuquerque, Turiano Meira, Jeremias Valverde, José Linhares de Albuquerque, Agenor de Magalhães, Flávio de Castro, H. Wolferstan Thomas e Cruz Moreira. Havia um quadro de suplentes para a clínica médica formada pelos médicos Joaquim Augusto Tanajura, Galdino Ramos, Adriano Jorge e Aurélio Pinheiro. Hamilton Nelson, J. Miranda Leão e J. de Brito Pereira atuavam como substitutos na pediatria.

As especialidades médicas eram oferecidas pelo Hospital, como o de otorrinolaringologia, Dr. J. de Brito Pereira; cirurgia geral, Moraes Rego e Angelo D'Urso; tendo os Drs. Carlos Bunetti e Jorge de Moraes como responsáveis pela sala de operações. Moraes Rego também atuava no segmento de "doenças de senhoras"; obstetrícia e ginecologia eram atribuições de Almir Pedreira e J. Miranda Leão. Sífilis e pele eram da competência de Paulo Cerqueira e de tisiologia o Dr. Hamilton Nelson.

Independente desse elenco de profissionais altamente credenciados, existia outro corpo médico considerado "em disponibilidade" constituído de Teogenes Beltrão, José Antônio de Figueiredo Rodrigues, Jorge de Moraes, Sebastião Barroso Nunes, Fernando de Castella Simões, Basílio Franco de Sá,  Manoel Barreto Lins, Francisco da Costa Fernandes, Carlos Studart Filho, Almério Diniz e Luís Paulino de Mello.

Esses abnegados cidadãos respondiam pela assistência médica vinculada aos serviços prestados pela Santa Casa, dedicada praticamente aos carentes, já que o movimento de pensionistas não era relevante. Os recursos recebidos em 1930, foram de Rs. 77:331$000 do Tesouro Público; Rs. 80:019$200 do imposto sobre caixas e castanhas junto a Manáos Harbour Limited; Rs. 7:519$338 do imposto de caridade; Rs. 8:000$000 de quotas lotéricas do 1º semestre de 1930 e Rs. 76:275$241 de rendimentos da porta, prédios e contas. A assistência aos desamparados foi de 164 indigentes, 80 alienados do Hospício Eduardo Ribeiro e nove tuberculosos no Hospital São Sebastião.

A cidade era servida por um sistema de transporte urbano, que tinha nos bondes a sua principal estrutura, como meio de locomoção popular, cuja concessão de exploração era exercida por uma companhia inglesa -- Manáos Tramyaws Ltd., cujos serviços eram prestados através dos seus 35 quilômetros de rede, abrangendo praticamente toda a periferia, tendo o centro como seu núcleo, excetuando-se os bairros de Educandos e São Raimundo, possivelmente pela inexistência de acesso racional, havendo transportado em seus 36 carros de passageiros e 10 carros mistos (reboques) cerca de 8.434.000 usuários no decorrer de 1930.
Tratava-se de um serviço eficiente, seguro e com uma pontualidade de sua veiculação invejável. Para o transporte de grandes cargas a empresa possuía 6 outros carros de características específicas. O total de veículos existentes na cidade completava-se com 156 automóveis, 80 auto-caminhões e 1 auto-ônibus, que pela ausência de normas disciplinadoras de trânsito legais, obedecia aos critérios emanados do comandante da Guarda Civil, tenente Ismael Tomas de Lima.


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domingo, 11 de outubro de 2015

Geografia antiga do Centro de Manaus

Mapa do Centro de Manaus, na zona Sul.

O Centro, conhecido por abrigar os lugares de maior interesse histórico da capital, sofreu, nos últimos 100 anos, mudanças expressivas em sua geografia e urbanização. Muitos logradouros desapareceram ou tiveram o nome alterado. O Centro, que de acordo com a Lei Municipal N° 287, de 23 de maio de 1995, é um bairro que começa no Ig. Dos Educandos com o Rio Negro; deste último até o Ig. De São Vicente; deste até a rua José Clemente; desta até a rua Luiz Antony; desta até o Ig. Da Castelhana; deste até a Av. Constantino Nery; desta até a Av. Sen. Álvaro Botelho Maia; desta até a rua Major Gabriel; desta até a rua Ramos Ferreira; desta até o Ig. Do Mestre Chico; deste até o Ig. Dos Educandos e deste até o Rio Negro (1), era, há mais de um século, dividido em “distritos” menores, cada um com suas delimitações.

Para elucidar a localização e os limites (com o nome das ruas atualizados) desses distritos desaparecidos há tempo, utilizo aqui informações retiradas do livro Bombeiros do Amazonas: Retrospectiva (1876-1998), do historiador e Coronel Roberto Mendonça, que utiliza para tal a obra descritiva Um olhar pelo passado, de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha.

Bairro da Campina: começava onde hoje está a Praça e o Colégio Dom Bosco, passando pela sede do Atlético Rio Negro Clube, em frente a Praça da Saudade, e se estendia até os reservatórios da Castelhana e do Mocó.

Bairro Espírito Santo: estava limitado pela rua da Instalação, avenida Sete de Setembro (entre a rua Instalação e a avenida Eduardo Ribeiro), Henrique Martins, Lobo D' Almada, Joaquim Sarmento e Saldanha Marinho.

Bairro São Vicente: tinha seus limites nas ruas 5 de Setembro, Bernardo Ramos, Frei José dos Inocentes, Visconde de Mauá, Monteiro de Souza, Tamandaré e Itamaracá.

Bairro dos Remédios: estava limitado pelas ruas Marquês de Santa Cruz, Leovigildo Coelho, Barés, Miranda Leão, dos Andradas, Barão de São Domingos, Rocha dos Santos e Joaquim Nabuco.

Bairro de Nazaré (Alto de Nazaré): No local onde hoje fica a Praça Santos Dumont, considerado o mais distante da cidade.

Bairro República: Limitado pela Avenida Sete de Setembro (entre a Avenida Eduardo Ribeiro e Avenida Floriano Peixoto), e as ruas Marechal Deodoro, Guilherme Moreira, Quintino Bocaiúva, Teodoreto Souto, Marcílio Dias, Dr. Moreira, José Paranaguá e Rui Barbosa.

Como subúrbios existiam o Alto da Bela Vista (Constantinópolis, mais tarde Educandos); São Raimundo, Saco de Alferes (Cornetas, bairro dos Tocos, Aparecida) e a ilhota de Caxangá, onde hoje está localizado o Makro Atacadista, na Av. Lourenço da Silva Braga. Quando algum incêndio atingia esses locais, os bombeiros, apoiados pelas Igrejas Católicas da cidade, tinham uma forma de saber em qual desses distritos ocorria o fogo:

Uma badalada para o bairro de S. Vicente; Duas ditas para o do Espírito Santo; Três ditas para o da Campina; quatro ditas para o dos Remédios; Cinco ditas para o de Nazaré (2). Para não confundir os bombeiros, havia um entre o sinal do bairro e o toque de rebate, um espaço de tempo.

Com o crescimento da cidade, o surgimento de novos bairros e zonas, e a constante prática de mudança de nomes de logradouros, essas divisões do Centro desapareceram, tornando-se o local um único bairro. Em São Paulo, por exemplo, a região do Centro é formada pelos distritos de Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Sé e Santa Cecília. Para as autoridades culturais de Manaus, seria bom pelo menos espalhar placas com a identificação antiga, de forma que resgatasse essa memória.


NOTAS E FONTES:

(1) Lei Municipal N° 287, de 23/05/1995

(2) MENDONÇA, Roberto. Bombeiros do Amazonas – Retrospectiva (1876-1998). Manaus, Editora Travessia, 2013, Pág. 16.

ARANHA, Bento de Figueiredo Tenreiro. Um Olhar pelo passado. Manaus, Imprensa Oficial, 1897.

MENDONÇA, Roberto. Bombeiros do Amazonas – Retrospectiva (1876-1998). Manaus, Editora Travessia, 2013.


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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Os governos de Lobo D' Almada e Eduardo Gonçalves Ribeiro

Amigos e amigas, depois de ter ficado um tempo afastado do blog, retorno agora com uma série de postagens sobre História de Manaus, pois neste mês (10), a capital amazonense completa 346 anos.

É uma tendência da nova historiografia deixar o tema de grandes personagens de lado. Não acho que isso seja algo bom, pois existem nomes que merecem ser celebrados por seus feitos. Aqui, me dedico a dois: Manuel da Gama Lobo D' Almada e Eduardo Gonçalves Ribeiro, dois importantes personagens da História do nosso estado e, principalmente, da capital. De épocas diferentes, o primeiro do final do século 18 e o outro do alvorecer da República Velha, esses dois homens empreenderam governos que ficaram eternizados por sua eficiência em modernizar e dotar Manaus das condições necessárias para o seu crescimento.


Quartel das Tropas da Guarnição da Vila de Barcelos. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Alexandre Rodrigues Ferreira, 1783-1792.

Ao assumir a Capitania de São José do Rio Negro, em 178
8, Manuel da Gama Lobo D' Almada, Brigadeiro e engenheiro militar português, deu início a uma série de mudanças na estrutura política e econômica da região. Transferiu, em 1791, a capital de Mariuá (Barcelos) para o Lugar da Barra (Manaus), que possuía localização geográfica privilegiada, na confluência dos rios Negro e Amazonas, o que acabava facilitando a defesa e o comércio da Capitania. Prédios públicos foram erguidos: No lugar da antiga Igreja de N. S. da Conceição, erguida em 1695, manda construir um novo templo; construiu um Palácio dos Governadores, Quartel e Cadeia Pública.

No campo econômico, deu destaque para a indústria e expandiu o setor primário. Introduziu gado no Vale do Rio Branco, atual estado de Roraima. Foram construídas uma fábrica de panos de algodão, uma de tecidos e redes; um depósito de pólvora; uma terracena para construir embarcações [...]; uma padaria de pão de arroz; uma fábrica de panos de algodão em rolos, com 18 teares e 10 rolos de fiar com 24 fusos cada uma; cordoaria para fabricação de cordas e amarras de piaçaba e calabres; uma fábrica de fécula de anil, uma nora para distribuir água; uma horta; olaria fábrica de velas de cera, um açougue; e um engenho para moer cana e fabricar cachaça e mel (1). Parafraseando o professor Carlos Moreira Neto (1928-2007), essa foi uma administração extremamente proveitosa, diferente do que acontecia até então em outras localidades colônia portuguesa.

Além de aumentar consideravelmente o “parque industrial” do Lugar da Barra, também construiu uma escola de música e aumentou o número de soldados para a proteção da capital. Foram, sem dúvida, os melhores tempos dos quais a Barra desfrutou durante o período colonial. Temeroso pelo rápido crescimento do Lugar da Barra e o prestígio de Lobo D' Almada, que acreditava poder tomar seu posto de governador, o Capitão-general Francisco de Sousa Coutinho, do Grão-Pará, com o auxílio de seu irmão Rodrigo, Ministro de Portugal, corta as verbas para a Capitania do Rio Negro e persegue Almada, conseguindo fazer a capital retornar para Barcelos, em 1799. Pobre e abandonado, Lobo D' Almada morre em Barcelos, em 27 de outubro de 1799.

Eduardo Gonçalves Ribeiro.

A 27 de fevereiro de 1892 tem início o governo de mais um militar, que ficou marcado como um dos mais bem executados do Amazonas. Era o governo do engenheiro militar maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro, que já havia estado no cargo entre 2 de novembro de 1890 e 5 de maio de 1891.

Nos quatro anos em que governou o Amazonas, de 27 de fevereiro de 1892 a 23 de julho de 1896, Eduardo Ribeiro soube aproveitar perfeitamente o aumento da arrecadação dos cofres públicos, em ascensão graças à exportação da borracha, e realizou obras de embelezamento, saúde e educação. 

Em sua administração, nivelou e criou bairros; pavimentou ruas; construiu o Instituto Benjamin Constant para jovens órfãs; foram entregues seis escolas públicas primárias em Manacapuru, Humaitá e Lábrea; Criou um hospício; abriu a estrada Manaus – Rio Branco; construiu as Pontes Romanas, Ponte Benjamin Constant e Ponte da Cachoeira Grande; Teatro Amazonas; Iluminação elétrica a arco voltaico; contratou o serviço de navegação com escalas para o Mediterrâneo; implantou o telégrafo subfluvial; e inaugurou o serviço de locomotivas de tração a vapor (2). Essas são apenas algumas das realizações do ex-governador, que em uma de suas memórias, afirma ter governado o Amazonas duas vezes como um ditador, talvez uma referência às suas ações contra membros do Partido Nacional, opositor ao seu governo ligado ao Partido Democrata. Talvez Eduardo Ribeiro tenha governado com mãos de ferro, mas não podemos negar a eficiência de sua administração.

Em tempos de disputas violentas como os da República Velha, Eduardo Ribeiro sofreu perseguições políticas. Seu mais célebre adversário foi a oligarquia da família Nery, que desejava assumir o governo em nome do Partido Nacional. O “Pensador”, como era conhecido por ter sido um dos editores do jornal republicano Pensador, no Maranhão, faleceu em Manaus em 14 de outubro de 1900, aos 38 anos.

Manuel da Gama Lobo D' Almada e Eduardo Gonçalves Ribeiro, administradores visionários, perseguidos e caluniados por aqueles que procuraram no Estado um apoio para seus interesses pessoais. Sem dúvida estão no Hall de homens ilustres que viram na Amazônia o potencial para o engrandecimento do Brasil. Os dois, cada um em seu tempo, utilizando os recursos disponíveis, garantiram o progresso da capital amazonense, a liberdade individual de seus habitantes e o bom funcionamento da máquina pública, coisas que se esperam de um digno representante do povo.


NOTAS E FONTES:

(1) MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. Manaus, Editora Metro Cúbico, 4° edição, 1994. Pág. 51 (adaptado).

(2) MONTEIRO, Mário Ypiranga. Negritude e Modernidade: A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro. Manaus, Governo do Estado do Amazonas, 1990. Pág. 96 - 97 (adaptado).

REIS, Arthur Cézar Ferreira. Lobo D' Almada – Um estadista colonial. Manaus, Editora Valer, 3° edição, 2006.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

brasil500anos.ibge.gov.br
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