Neste mosaico, da cidade de Ravena, Jesus é retratado como um Imperador Romano, utilizando vestes militares. Em uma mão carrega um báculo, na outra, as Sagradas Escrituras.
O
Cristianismo é hoje a religião com o maior número de adeptos no
mundo. Dos praticantes aos não praticantes, ele se encontra presente
desde as
pequenas
vilas
nos Andes até as grandes metrópoles da Europa. Foi um longo
trajeto, desde
a Antiguidade,
até que essa religião com raízes no Oriente chegasse a essa
posição,
com
seus agentes encontrando diferentes formas para sua expansão. Uma
das mais conhecidas foi a apropriação de certos elementos do mundo
pagão de
forma a subvertê-los à nova realidade cristã, para atingir o maior
número possível de pessoas, o
que acarretou em verdadeiras conquistas simbólicas.
O inverso também ocorreu, com o Estado Romano procurando formas de
se associar ao novo culto para garantir uma ínfima sobrevida de suas
já desgastadas estruturas. Nesse
texto, destaco alguns exemplos, da Antiguidade, da Idade Média e da
Idade Contemporânea, de apropriações e conquistas simbólicas do
Cristianismo.
O
Cristianismo se tornou, em 392, a única religião legalmente
praticável no Império Romano. Os imperadores depois de Constantino,
com exceção de Juliano, que tentou reavivar os cultos pagãos,
realizavam doações em dinheiro, terras e financiavam a construção
de basílicas em Roma e outras cidades importantes do Império. Essas
medidas visavam a incorporação da população cristã ao Império,
evitando assim qualquer tumulto desta, tendo em vista a delicada
situação interna pela qual Roma passava pelo menos desde o
início
do século III. O Cristianismo tinha, agora, um terreno favorável
para se expandir pelo Império Romano e outras áreas fronteiriças.
Para
atingir ideologicamente a população e, como ocorrera antes com o
paganismo, legitimar o poder, os imperadores passaram
a associar suas imagens com a de Jesus Cristo. Dessa época existe
uma rica iconografia que atesta essa associação. Na primeira
imagem, um mosaico da cidade de Ravena, temos Jesus Cristo retratado
como um imperador, usando vestes militares ao gosto romano. Segurando
um báculo, insígnia dos bispos, traz na outra mão as sagradas
escrituras, com os dizeres latinos Ego
sum via,
veritas
et vita,
que significam Eu
sou o caminho, a verdade e a vida.
Em
outras ocasiões,
em painéis de marfim ou em mosaicos, esses
mesmos imperadores eram
representados sendo arrebatados por Deus, em famosas representações
de apoteoses. Os romanos mais abastados tinham gravados em seus
mausoléus cenas bíblicas como a expulsão do Éden, o martírio dos
apóstolos e a ressurreição de Cristo.
Detalhe do Sarcófago de Júnio Basso, senador romano do século IV d.C., mostrando Jó e Adão e Eva no Paraíso.
Um
pouco distante da vida política do Império, figuras do antigo
panteão greco-romano também eram incorporadas e associadas aos
simbolismos e práticas cristãs. Orfeu,
personagem da mitologia grega que era médico e poeta, foi inúmeras
vezes associado à figura de Jesus, do Bom Pastor e do Rei Davi.
Orfeu desafiou a morte indo ao submundo e ficando diante de Hades,
Deus do submundo e dos mortos. Jesus,
na Bíblia, ressuscitou após três dias de sua morte. A passagem nas
escrituras que melhor explica esse momento é: "E
ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; eu sou o
Primeiro e o Último; e o que vive; fui morto, mas eis que aqui estou
vivo para todo o sempre. Amém! E tenho as chaves da morte e do
inferno." (Apocalipse 3.18). Orfeu e Jesus Cristo, duas
personagens que escaparam da morte.
A
lira de Orfeu tinha o poder de apaziguar a mais selvagem das feras, o
que fazia os cristãos lhe associarem a Jesus e seu poder sobre a
natureza e ao Bom Pastor que cuida de seu rebanho. O Rei Davi […]
“quando o espírito maligno vinha sobre Saul, tomava a harpa, e a
tocava com a sua mão; então Saul sentia alívio, e se achava
melhor, e o espírito maligno se retirava dele” (1Sm 16.23). A
harpa de Davi tinha as mesmas propriedades da lira de Orfeu. O
mosaico abaixo, datado do século V, encontra-se no interior de uma
igreja cristã de Jerusalém. Nele vemos, no centro, Orfeu tocando
sua lira enquanto acalma algumas feras ao seu redor, incluindo o Deus
Pã e um sátiro.
Mosaico do século V d.C. localizado no interior de uma igreja cristã de Jerusalém. No centro, Orfeu toca sua lira para apaziguar as feras ao seu redor, incluindo o Deus Pã e um sátiro.
Mais
afastado
do centro do antigo Império Romano no Ocidente, já
na Idade Média,
no
Norte da Europa, o
Cristianismo já não tinha mais como ameaça os romanos. O inimigo
agora era outro: Os bárbaros germânicos que começavam a atravessar
as fronteiras e a entrar em contato com outros povos, eram em sua
maioria pagãos ou cristãos arianos. Esses
povos eram, de acordo com os escritos de Orósio, genuinamente
pagãos, pois viviam nos campos onde realizavam seus cultos rurais.
Tornou-se
necessária
a dessacralização da natureza e a valorização do elemento humano.
O culto dos santos cumpre a função de substituir os antigos
elementos pagãos presentes na natureza. O culto dos santos se mostra
uma arma poderosa na luta contra o paganismo, pois torna o processo
de conversão mais maleável, dessacralizando antigos símbolos
pagãos e substituindo-os por imagens cristãs. São frequentes as
iconografias de santos abatendo bestas como
dragões, serpentes etc.
O
ato mais simbólico foi a derrubada, por São Bonifácio, no ano de
723, do Carvalho de Thunor (Thor), o Deus nórdico
dos trovões e das batalhas. Da madeira da árvore Bonifácio
construiu uma capela consagrada a São Pedro, o
que marca o início da conversão da
Germânia
ao Cristianismo.
Gravura do século XVIII representando São Bonifácio derrubando o Carvalho de Thunor (Thor).
Na
Idade Moderna, inúmeros territórios foram conquistados em nome da
Coroa e
da
Igreja, ou de
la
espada e
la
cruz,
como bem escreveu Ruggiero Romano, destacando a aliança militar e
espiritual da conquista da América. Os
ídolos maias, incas e astecas foram substituídos por imagens sacras
de Santiago Apóstolo, Virgem Maria e Jesus Cristo. Boa
parte das cidades coloniais foram erguidas sobre antigos templos
nativos e cemitérios indígenas. A Catedral Metropolitana da Cidade
do México, símbolo do poder espiritual cristão no continente, foi
erguida sobre os escombros de um templo asteca.
Esse
processo de apropriação, que leva à conquista simbólica, também
ocorre entre diferentes vertentes do Cristianismo. Curiosamente,
caminhando por meu bairro, me deparo com um arraial sendo realizado
em uma Igreja mórmon
de nome Jesus
Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Era final de julho, fora da
época dos festejos. Nenhuma menção a São Pedro, Santo Antônio e
São João, nem de frases como anarriê,
alavantú, balancê. O
arraial foi
apropriado do Catolicismo, este
tendo apropriado a festa do paganismo, com
a exclusão de vários elementos, preservando
apenas
o caráter popular da festa, que sempre atrai grande público. Essas
apropriações parecem ser válidas a partir do momento em que são
dados novos significados para antigos elementos e estes passam a
contribuir para o fortalecimento e crescimento da religião.
FONTES:
_____Bíblia
Sagrada. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/
_____Impérios
sitiados (200-600) - O declínio romano, Renovação no Oriente
Médio, Reinos chineses em tumulto e um vigoroso Novo Mundo.
Tradução de Pedro Maia Soares. Rio de Janeiro, Editora Cidade
Cultural, 1990. (Coleção História em Revista).
BASCHET,
Jérôme. A
Civilização Feudal: Do ano mil à colonização da América.
São Paulo: Globo Editora, 2006.
ROMANO,
Ruggiero. Os
Mecanismos da Conquista Colonial.
São Paulo, Editora Perspectiva, 1972. (Coleção Kronos).
CRÉDITO DAS IMAGENS:
commons.wikimedia.org
Rijksmuseum van Oudheden - Museu Real de Antiguidades dos Países Baixos
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