quinta-feira, 31 de agosto de 2017

I Semana de História da Universidade do Amazonas (1986)


Recupero, a seguir, algumas matérias publicadas no Jornal do Comércio entre 19/08/86 a  06/09/1986 por ocasião da realização da I Semana de História da Universidade do Amazonas (01/09/86), evento que teve grande repercussão na cidade pela quantidade de participantes, mais de 200 professores das redes estadual e municipal, e também pelo tema: Como Ensinar História.


PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

1° Dia: Sessão solene de abertura, às 08 horas, seguida da elaboração de diagnósticos sobre a realidade do ensino de História no Amazonas. Às 15 horas, abertura de uma sessão plenária com apresentação e discussão dos relatórios por unidade educacional.

2° Dia: Curso de Metodologia da História, com as professoras Patrícia Alves de Melo, Regina Celestino de Almeida e professor Hideraldo Lima da Costa. Curso "A Questão do Ensino de História" ministrado pelo professor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro. Curso de História do Amazonas ministrado pelo professor Ribamar Bessa Freire. A partir das 10 horas, mesa redonda sobre a "Visão da História" com representantes da Seduc, Semec, IGHA, Biblioteca Pública, Arquivo Público, Cedeam, Museu do Homem do Norte, Museu do Porto e Museu Tiradentes, tendo como debatedores a professora Vânia Tadros e o professor Luís Balkar Peixoto. Às 15 horas, apresentação do filme "No Paiz das Amazonas", com comentários da professora Selda Valle.

3° Dia: Mesa redonda "A Regionalização do Ensino", com participação dos representantes da Seduc e da Semec, além do professor Francisco Jorge. Os debatedores serão a professora Patrícia Alves de Melo e o professor Geraldo de Sá Peixoto. Às 15 horas, mesa redonda "Os Currículos de 1° e 2° graus", com representantes da Seduc e da Semec.

4° Dia: Às 08 horas o tema "A Formação do Operariado no Amazonas 1890-1920" será exposto pelo professor Ribamar Bessa Freire, seguido da exposição, pelo mesmo professor, do tema "O que mudou no Amazonas com a Criação da Província".

5° Dia: Debate com o tema "Recuperação da Memória: Levantamento de Fontes Primárias para a História dos Municípios do Amazonas", com participação dos professores Geraldo Sá Peixoto, Francisco Jorge dos Santos e Sínval Carlos Mello Gonçalves.

Mais importante do que fazer parte ou interferir na História do seu Estado, País, ou região, é dar condições às pessoas de entenderem o processo histórico a que estão submetidas. Mais ou menos nesse sentido é que se pautou as discussões da I Semana de História promovida pela Universidade do Amazonas, cujo objetivo principal foi justamente reformular a metodologia do ensino, de 1° a 3° graus, da disciplina História. Nesse encontro, que terminou ontem, foram postos em evidência os principais problemas no desenvolvimento desta disciplina no Estado: falta de documentação e o incentivo à pesquisa.


COMO ENSINAR HISTÓRIA

Mudar, de certo modo, a visão “tendenciosa” que os professores de História vinham dando ao ensino da matéria e fazer com que muita coisa mude nesse sentido, foram os pontos principais das discussões que envolveram a I Semana de História

Da equipe do JC

Numa promoção do Departamento de História da UA-ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História), dirigida a todos os professores da rede Estadual que buscam o aprimoramento de seus conhecimentos e desenvolver, a partir daí, uma nova metodologia do ensino dentro dessa área terminou ontem a I Semana de História.

Vários professores, entre eles o professor Ribamar Bessa (chefe do Departamento), a professora Vânia Novoa Tadros (coordenadora de extensão), a professora Selda Valle da Costa (FUA), e muitos outros representantes desta área de ensino no Amazonas, organizaram a Semana, de forma que pudessem ser discutidos os problemas do ensino e fossem feitas reciclagens através de três cursos: Metodologia da História, A Questão do Ensino da História e História da Amazônia. E, através dos cursos de extensão, tentar levar à comunidade aquilo que é feito dentro da universidade. Os trabalhos iniciaram com a colocação de todos os problemas enfrentados pelos professores das unidades educacionais, abrindo-se uma discussão em torno deles, tentando formular um diagnóstico sobre a realidade do ensino de História no Amazonas.

Essa tentativa de mudança se dá pelo fato de que a visão que um aluno de 1° e 2° graus tem da História é muito complexa. Decorar apenas datas e nomes não fará com que ele entenda os fatos de maneira compreensiva e clara ao ponto de conseguir se situar em qualquer época, num determinado momento histórico. Como explica a professora Vânia Tadros, é necessário mostrar ao aluno o outro lado dessa realidade, porque essa disciplina, por ser muito complexa, chega a ser um tanto “tendenciosa”, encaminhando os fatos apenas num sentido, quando na verdade existe uma série de episódios que devem ser mostrados porque através deles a compreensão pode ser ainda maior.

Por isso, foi feita uma mesa redonda para se debater “A Visão da História”, tendo como expositores representantes da Seduc, Semec, IGHA, Biblioteca Pública, Arquivo Público, Cedeam/UA, Museu do Homem do Norte, Museu do Porto e do Museu Tiradentes. Logo após foi mostrado um filme sobre a Amazônia na época da borracha, intitulado “No Paiz das Amazonas” (de Silvino Santos), apresentado e comentado pela professora Selda Valle. O filme foi feito em 1920 a 1922 por um contrato firmado pela firma JG com o cineasta Silvino Santos para retratar tudo o que estava acontecendo naquela época da decadência. “A firma JG, naqueles tempos, era muito poderosa, e foi uma das poucas que conseguiram superar esse período por ter conseguido diversificar sua economia. Não só se dedicando ao cultivo da borracha, mas utilizando o comércio da castanha, as padarias e o extrativismo como outras formas de renda. E isso lhe deu condições de comandar todo esse setor dentro da Amazônia. Esse filme foi mostrado também em Paris e Nova York, na tentativa de resgatar todo o poderio da borracha”, explicou a professora Vânia.


DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA

A falta de documentação suficiente que venha a servir como fontes de pesquisa é um dos principais problemas enfrentados pelos professores. E com a utilização deste filme a Semana de História tomou um novo rumo e Vânia explica porquê: “A imagem como objeto de estudo para o pesquisador ligado à área de Ciências Sociais, serviu para refletir as condições da sociedade naquela época, facilitando uma análise e debates sobre a questão. É um estudo que serve não somente para esse encontro, mas para qualquer filme que venham a assistir”.

O problema da falta de documentação suficiente para pesquisas é um problema relativo e o bibliotecário especializado em obras raras, Geraldo Xavier, explicou que em Manaus existe muito pouco interesse na conservação das coisas antigas, tudo que é considerado velho é jogado fora. No incêndio que houve na Biblioteca Pública em 45, muitos documentos foram perdidos, apenas alguma coisa foi salva. “Mas são documentos que poucas pessoas sabem de sua existência apesar das listas que são enviadas para os órgãos de ensino, principalmente às Universidades. Mesmo assim, não existe um interesse muito grande por parte dessas pessoas no sentido de procurar as fontes. É um trabalho que requer tempo e paciência o que geralmente é muito difícil”, destacou Geraldo.

Na Semana foi muito discutido também a falta de apoio e incentivo à pesquisa, reclamado pelos professores, que acham que só agora, com a nova direção de Roberto Vieira, esse apoio começou a ser dado; antes eles consideravam extremamente reprimida. “Às vezes é necessário buscar informações em outros lugares como Amsterdã, Paris e isso leva tempo e dinheiro, dificultando ainda mais as coisas. Um documento só não faz a História. Dele deve se iniciar um trabalho no sentido de tentar facilitar a sua compreensão. E trabalhar esse documento em cima de uma linha metodológica e teórica, não é fácil. Com um filme adquire-se uma forma de provar aquilo que se está falando. A imagem nesses momentos é muito importante”, ressaltou Vânia Tadros.

Quando se desenvolve uma pesquisa, vai-se encontrando ao longo dela muitos furos que devem ser preenchidos, já que se busca a verdade. Não se pode pegar um documento e acreditar em tudo que está contido. Deve-se buscar principalmente o outro lado da versão. “Nosso trabalho é um trabalho acadêmico, não é o fato de apenas tentar provar alguma coisa, só por ter levantado a questão. Acaba-se chegando à conclusão de que o erro dentro da hipótese é muito relativo. Não se pesquisa para se provar uma hipótese, mas para se procurar uma aproximação da verdade”, explicou Vânia.

A Semana, enfim, foi considerada muito importante para todos os participantes, principalmente no que se refere ao aprimoramento da metodologia, como destacou uma professora: “Na tentativa de passar os fatos históricos de uma forma muito mais dinâmica e atual”.


FONTES:

Jornal do Comércio, 19/08/1986
Jornal do Comércio, 02/09/1986
Jornal do Comércio, 06/09/1986

 

São Raimundo: Um bairro rodeado de beleza e muitas histórias

Por Elza Souza

Vista parcial do bairro de São Raimundo. Foto de 1960.

O registro da história de São Raimundo, zona oeste da cidade de Manaus, começa em 1849 quando foi feita a doação das terras ao Seminário São José. Por ali já havia alguns moradores vindos do Nordeste. E foram chegando cada vez mais. No lugar, uma pequena colina quase toda cercada pelo rio Negro, azulado às vezes, havia uma densa floresta com grandes árvores frutíferas, palmeiras e olhos d’água pra todo lado onde se formaram as cacimbas usadas pela população. Era a época das epidemias e, portanto, o governo fez daquele lugar “distante” do berço da cidade, um isolamento de doentes que por lá eram enterrados.

Em 1879 o conhecido e atuante padre amazonense Raimundo Amâncio de Miranda, nascido em Maués, que prestava seus serviços na igreja dos Remédios, começou os trabalhos religiosos no bairro trazendo a primeira imagem de São Raimundo Nonato. O padre emprestava os paramentos para as celebrações da Matriz e durante um ano organizou a igreja e orientou os moradores para o prosseguimento das atividades após sua saída. No topo da colina ficava o hospital e depois a igreja que iniciou num pequeno depósito de ferramentas onde hoje é mais ou menos a sacristia. A imagem resistiu até a época do padre Carlos Flhur, anos 1930. Depois sumiu tirando da História importante registro do bairro.

Entre 1892 e 1896 Eduardo Ribeiro, atento as necessidades urbanas, “enxergou” o bairro, que sempre foi esnobado por todos, autoridades e moradores do outro lado do rio, até então área nobre da cidade. No máximo ali se via uma aldeia. Mas que lugar lindo era aquela colina com uma imensidão de rio ao redor, com aquela praia, com aquelas árvores frondosas? Dizem que do alto daqueles barrancos o Ajuricaba, líder indígena dos Manáos, observava a passagem de seus opositores. Em 1928, Raimundo de Menezes, em seu livro Nas Ribas do Rio Mar, descreve o passeio que fez na cidade e cachoeira do Tarumã com o médico Araújo Lima e Raimundo Moraes: “Ao longe surgiu o bairro de São Raimundo, refletindo-se na água de um igarapé. É o subúrbio dos operários. Arruados enormes de casas. Uma capela. Um grupo escolar. Iluminação elétrica. Do outro lado a cidade imensa com o seu casario a rebrilhar ao sol. Bem pertinho o edifício enorme da fábrica de cerveja com os seus oito andares. Em São Raimundo está a estação rádio telegráfica do Estado...”

O bairro mudou muito. A floresta se reduziu a quintais que hoje não existem mais. As ruas e becos por onde a gente se perdia nas brincadeiras entre as árvores, estão asfaltadas e movimentadas e não são mais lugar pra criança brincar. A praia infinitamente bela que cercava toda a colina, foi aterrada, virou orla. As palafitas foram retiradas, alguns flutuantes teimam em ficar com negócios que não se sabe exatamente quais. As pedras jacaré que enfeitavam a área, no meu olhar, e serviam fragmentadas para as brincadeiras de “pedrinhas”, foram arrancadas dos barrancos. Como as árvores. O que vai evitar a queda das terras altas se retiraram a proteção natural que de fato seguravam os barrancos? Vão surgindo indagações para as quais não temos resposta. Uma coisa ninguém tira daquela colina. Foi o mirante do Ajuricaba e é o ponto de observação dos cenários mais lindos de Manaus. No fim do passeio do escritor Menezes, ele anotou que “o sol morria, num crepúsculo ensanguentado, a beijar docemente, suavemente, a linda cidade dos sorrisos”. Pois é.

Do alto da colina dá para apreciar o nascer e o pôr do sol e seus reflexos inebriando o rio e o igarapé que ali se juntam e formam paisagens que só os moradores têm o privilégio de ver e clicar a melhor foto. Se olharem para o além-rio e não para seu próprio umbigo. Os muros da Compensa (que já fez parte do velho São Raimundo) impedem qualquer olhar de afeto para o Negro e seus reflexos. Daquelas beiradas se observa a cidade, de longe uma beleza. De perto a cervejaria do outro lado e a Vila Aprígio estão decadentes como qualquer prédio que remonte a nossa história. Não tem mais praia. A festejada orla não tem dono. O projeto de governo que pintou e bordou por lá aterrando nascentes e histórias, calou perante o serviço mal feito. Mas o bairro continua lindo. Encolheu. As terras foram divididas em outras comunidades. Compensa, Santo Antônio, Glória. O povo foi bem-educado pelos padres e a partir dos anos de 1950 com as freiras que se esforçaram por deixar um conteúdo não só religioso, mas cultural e de boas maneiras. Rio e colina ninguém separa. E a igreja do alto ninguém derruba.

Nada, porém foi capaz de evitar o avanço das drogas que corrompeu mentes e corações de parte da juventude local que antes se envolvia com grupos de convivência, com teatro, com esportes, com música (coral, serenata, bailes). A luta continua para preservar o que restou. A igreja católica faz a sua parte junto com a maioria dos moradores, mas o mundo mudou, o bairro mudou, as pessoas mudam. A esperança continua inabalável. A união de todos vai fazer do São Raimundo, aquele lugar da minha infância onde o sorriso era constante e as portas não tinham grades, onde o violão vivia embaixo dos braços dos jovens para encantar as namoradas, um bairro de paz, de amor, de infinita beleza. Deus o criou assim. Vamos manter isso. E viva o Bairro de São Raimundo que está em festa com quase 168 anos.


Elza Maria Pereira Souza é Jornalista formada pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), com vários cursos na área de produção de rádio, Televisão e roteiro para cinemas. É autora dos livros São Raimundo: Do "alto" da minha colina - sem os bucheiros o bairro de São Raimundo perdeu o encantamento, publicado em 2008; Moacyr de todas as cores, 2010, e Palafitas, 2016.










CRÉDITO DA IMAGEM:

Instituto Durango Duarte


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O Pensamento Político de Frei Bartolomé de Las Casas

Frei Bartolomé de Las Casas (1474-1566), Bispo de Chiapas, México.

Bartolomé de Las Casas (1474-1566) foi um frade dominicano espanhol que atuou na América durante o processo de conquista, no século XVI. Mas, mais que um frade dominicano, Las Casas pode ser considerado, dada a produção, a dimensão e a difusão de suas ideias, um pensador político que atuou tanto em defesa dos nativos americanos quanto na reflexão sobre a diversidade de poderes políticos existentes naquele momento.

Dois mundos entraram em choque quando do “descobrimento” da América. De um lado, uma sociedade unida pelos valores culturais e políticos da cristandade europeia. Do outro, um mundo que apresentava-se como novo, com outros povos e realidades distintas. O impacto foi grande, pois como escreveu o cronista Fernando López de Gómara em sua História Geral das Índias (1552) “a maior coisa depois da criação do mundo, tirando a encarnação e a morte de quem o criou, foi o descobrimento das Índias”. O dominicano Frei Bartolomé de Las Casas, vindo para a América em 1503, aperfeiçoou seu pensamento político, ou teoria política, ao longo da evolução do processo de conquista empreendido pelos espanhóis.

O pensamento político de Las Casas caracteriza-se pela ênfase ao Direito Natural e aos valores cristãos, estes aplicados em defesa dos nativos, bem como à soberania popular e questões sobre a diversidade de poderes e seus papéis. Las Casas, a Espanha, a Europa, faziam parte da Cristandade, esta entendida como uma sociedade global unida por uma mesma religião, por um mesmo Deus e pela tradição escrita da língua latina. O objeto de estudo de Las Casas era a América, terra que ainda estava sendo incorporada a Cristandade. É nessa questão de incorporação da América ao mundo cristão que o frade dominicano começa a expressar seus primeiros questionamentos.

Para Las Casas, a forma como o continente estava sendo incorporado à Cristandade passava por cima de todos os preceitos do Direito Natural e daquela sociedade assentada nas bases cristãs católicas: A Igreja e o príncipe de Castela não tinham domínio sobre as populações americanas enquanto estas, de livre e espontânea, não aceitassem a nova religião e o novo soberano. Em Treinta Proposiciones Muy Jurídicas (1552) ele afirma que

“Todos os reis e senhores naturais, cidades e povos das Índias são obrigados a reconhecer os reis de Castela como universais senhores soberanos e imperadores da maneira dita, depois de terem recebido de sua própria e livre vontade nossa santa fé e o sacro batismo, e se antes que tenham recebido ou não queiram receber, não podem ser por algum juiz ou Justiça punidos” (Las Casas, 1965, vol. 1, p. 483 APUD Bruit, 2003, p. 9).

Já é por demais conhecido que os conquistadores não esperaram a “livre e espontânea” vontade dos nativos. Igreja e Coroa Espanhola passaram por cima das tentativas de uma incorporação mais “democrática” da América. Estava instalada uma crise de valores, pois para Las Casas, as ações violentas dos conquistadores impediram a formação de uma sociedade cristã livre, justa, com respeito à condição humana. Dado esse fracasso, era necessária a elaboração de uma teoria política sobre a sociedade e o Estado. Os primeiros argumentos de Las Casas são religiosos e humanitários, assumindo posteriormente um caráter jurídico-político.

Em Tratado Comprobatorio del Império Soberano e Algunos Princípios que deben servir de punto de partida, ambas de 1553, Las Casas escrevia que a sociedade deveria funcionar em equilíbrio a partir do império da lei, que mediaria as relações entre governantes e governados (LE BRUIT, 2003, p. 7). Para o frade dominicano os fundamentos do Cristianismo rejeitavam a força como instrumento de expansão da fé. O Papa era o senhor espiritual dos cristãos e também dos nativos, mas destes últimos apenas por suas vontades e consentimentos. Por essas ideias sobre os nativos e o Papa que Las Casas travou um acirrado debate, em 1550, com o sacerdote e filósofo Juan Ginés de Sepúlveda (1489-1573). Sepúlveda tinha como base a filosofia aristotélica e defendia que o nativo americano, “por sua bestialidade e inferioridade, marcadas por suas práticas de idolatria, politeísmo, canibalismo, sodomia, incesto e sacrifícios humanos, era escravo natural dos espanhóis” (FIGUEIREDO JÚNIOR, 2011, p. 5). Acusava, também, que Las Casas negava o poder temporal do Papa.

Em contrapartida, Las Casas defendia os nativos afirmando que qualquer nação e povos, possuidores de terras e reinos que habitam desde o início dos tempos, são povos livres que reconhecem apenas a autoridade de seus senhores. Em sua defesa também utilizou o preceito cristão de que todos os homens são criados à imagem e semelhança de Deus e de que somente pela fé, e não pela força, poderiam ser amenizadas e modificadas certas práticas nativas. Ele não negava o poder temporal do Papa, mas defendia veemente que este não poderia usar instrumentos que fossem contra a vontade dos indígenas. Las Casas nunca se questionou sobre a importância do poder espiritual, pois este se originava de Deus, estando acima do poder dos reis de Castela. O poder temporal “aperfeiçoava-se e atingia seu verdadeiro sentido pela aprovação do Papa, mas isto não queria dizer que esse poder tivesse origem no Papa, pois era de direito natural e estava fundado no povo” (BRUIT, 2003, p. 8).

Em outras palavras, quando os nativos aceitassem a fé cristã católica os reis teriam a jurisdição sobre eles. O poder político era uma consequência do espiritual eclesiástico, este último também devendo ser aceito e não imposto aos indígenas. Las Casas, dessa forma, dá luz a uma pluralidade de autoridades políticas. Caso os nativos aceitassem a fé cristã, o monarca espanhol seria o poder central, mas os soberanos nativos teriam autonomia para governar seus reinos, mediante o pagamento de um tributo à Coroa. O poder, para o autor, emanava do povo, e este não era inferior ao do soberano, sendo o segundo determinado pelo primeiro. Em Algunos Princípios ele expressa essa ideia da seguinte forma:

“Vendo os homens que não podiam viver em comum sem um chefe, elegeram por mútuo acordo ou pacto desde o início algum ou alguns para dirigir e governar toda a comunidade e cuidaram principalmente de todo o bem comum […] Somente deste modo, ou seja, por eleição do povo, teve sua origem qualquer domínio justo ou jurídico dos reis sobre os homens em todo o mundo e em todas as nações, domínio que, de outro modo, teria sido injusto e tirânico” (Las Casas, 1965, vol. 2, p. 1245 a 1259 APUD Bruit, 2003, p. 11).

Direito, justiça e lei são os três fundamentos do pensamento de Bartolomé de Las Casas. Para ele reis e imperadores não são senhores soberanos, mas sim administradores dos interesses públicos. O mais importante para que a sociedade funcionasse sem nenhuma arbitrariedade era a soberania popular, a união de vontades do povo, que os encaminharia à liberdade, ao bem-estar e a defesa da propriedade. Antes de um político tomar alguma decisão ou realizar alguma obra, era necessário que este consultasse sua comunidade, que diria se isso beneficiaria ou não a coletividade. O rei não pode “vender a jurisdição, contratá-la ou aliená-la, pois não é dono dela. A jurisdição é do povo. Se o rei a vendesse, cometeria roubo, pois a jurisdição é de direito público” (BRUIT, 2003, p. 17). É obrigação do rei administrar os bens fiscais e patrimoniais, bem como exercer jurisdição e proteção sobre os bens privados, não tendo, no entanto, direito de propriedade sobre eles.

Bartolomé de Las Casas, sem dúvidas, estava a frente de seu tempo, com uma teoria que prezava antes a soberania popular, o direito natural da liberdade e da propriedade dos povos, que o poder real e o eclesiástico. É possível falar que fosse ele um teórico da democracia, dos Direitos Humanos? Para Ruggiero Romano (1972) o “Estado” que se forma nos países da América é fraco, dominado por um número incrível de contradições, de interesses contrastantes que dificilmente chegam a encontrar um equilíbrio. Nesse ponto, é interessante ver o embate entre Las Casas, que defende os interesses da Coroa Espanhola; E Sepúlveda, que defende o interesse dos encomenderos, os particulares. Las Casas vê na ação da Coroa, mediada pela Igreja, ambas aceitas pelos nativos, a única forma de amenizar as relações políticas e sociais na América.


BIBLIOGRAFIA:

BRUIT, Héctor H. Uma utopia democrática do século XVI. São Paulo, Revista Eletrônica da Anphlac, n°03, 2003.

FIGUEIREDO JÚNIOR, Selmo Ribeiro. Valladolid: A polêmica indigenista entre Las Casas e Sepúlveda. Brasília, Revista Filosofia Capital, vol. 6, ed. 12, 2011.

ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. São Paulo, Editora Perspectiva, 1972. (Coleção Kronos).


CRÉDITO DA IMAGEM:


General Archives of the Indies (commons.wikimedia.org)

sábado, 26 de agosto de 2017

História da Criminalidade: O Monstro da Colina


Há quem pense que falar em crimes antigos é depreciar o passado de uma cidade. Eu, enquanto historiador, não acredito no mito de um passado "ordeiro e glorioso". É uma constante das sociedades humanas idealizar o passado para criticar, por inúmeros fatores, o presente em que vivem. Ao abordar crimes antigos, mais do que analisar o caso em si, trabalha-se com as mentalidades de uma época, da sociedade que presenciou esses acontecimentos, estando esse tipo de estudo ligado à História social, História Cultural e História das Mentalidades. O Caso a seguir aconteceu em Manaus em 1976, marcando inúmeras gerações que dele ouviram falar.



O MONSTRO DA COLINA

No dia 14 de novembro de 1976, o criminoso Wallace Barreto de Oliveira, de 19 anos, assassinou com requintes de crueldade o menor Carlos Andrade de Oliveira, de 14 anos. O crime ocorreu na rua 5 de Setembro, no bairro de São Raimundo.

Rosalvo Reis, no texto Os "monstros" da cidade, publicado em 26 de junho de 1977, afirma que Wallace Barreto, homossexual, estava apaixonado etentava induzir Carlos Andrade de Oliveira ao mundo do crime. Carlos passou a evitar qualquer forma de contato com Wallace. Enfurecido e com ciúmes, este arquitetou sua vingança:

Na madrugada de 14 de novembro, Wallace invadiu a residência de Carlos, invadindo seu quarto. Os pais do menor, no momento, estavam ausentes. Estuprando o menor, Wallace, com uma faca, lhe fez novas propostas. Carlos, novamente, recusou todas. Wallace lhe golpeou mortalmente com uma facada na nuca. Depois, lhe estripou e decepou seu pênis, eliminando o cadáver em uma fossa na parte de trás da casa.

Capturado pelos familiares de sua vítima, passou por um longo processo judicial, com duração de pouco mais de quatro anos, sendo condenado a 23 anos de prisão. Sempre afirmou que não matou o menor, sendo responsáveis pelo crime membros de uma quadrilha de traficantes de drogas, que também vitimou três taxistas, no caso conhecido como "Varadouro da Morte".

Um mês após a condenação, segundo consta no Jornal do Comércio de 29 de julho de 1980, escapou da penitenciária em 28 de julho de 1980, junto de seu companheiro, o arrombador Admilton Silva Pereira, atravessando a Praça 14 de Janeiro. A notícia de sua fuga causou pânico na cidade, com a polícia alertando sobre o grau de periculosidade desse fugitivo.

Wallace foi recapturado em 01 de agosto de 1980, no bairro de Santo Agostinho, junto de seu companheiro e também fugitivo Admilton Silva Pereira. Ambos confessaram à polícia que pagaram agentes penitenciários para terem a fuga facilitada. 

Classificado como "doente" mental, recebeu a liberdade condicional, passando a trabalhar no Tribunal do Júri Popular, de onde empreendeu nova fuga em 1984. Sem dinheiro, passou praticar assaltos, roubando uma máquina de datilografia da SECOM (Secretaria de Comunicação), no Aleixo. Foi recapturado com mais 17 criminosos. Tentou alegar sua doença mental, mas novos exames médicos atestavam se ele um indivíduo são. Em 1985, fugiu outra vez da Penitenciária, formando uma gangue de menores que arrombou o Palácio da Justiça.

Capturado e levado para a Penitenciária Agrícola Anísio Jobim, passou a mostrar bom comportamento, recebendo um indulto do presidente da República no dia 01 de abril de 1985. Foi preso novamente em 1986, acusado de roubo. Já estava com 29 anos. Que fim levou o Monstro da Colina? Parou de ser noticiado em 1986. Se estiver vivo, está hoje com 60 anos. Quem tiver algo a acrescentar sobre o crime, o paradeiro do assassino, outras versões, pode ficar a vontade...


FONTES:

Jornal do Comércio, anos 1976, 1977, 1978, 1979, 1980, 1984, 1985 e 1986.

IMAGEM: 

Wallace Barreto de Oliveira, o Monstro da Colina. Jornal do Comércio, 1976.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Os divertimentos públicos de outros tempos

Mais um texto recuperado do historiador e folclorista Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004). Ele foi publicado originalmente na Série Memória da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto (AM) com o título Os divertimentos públicos de antanho. Nesse texto o autor aborda, da Província às transformações advindas com a economia gomífera e a República, os locais de divertimento da sociedade manauara.

O já demolido Cine Guarany, na Av. Floriano Peixoto, no Centro.

Mário Ypiranga Monteiro

São escassas as informações que temos a respeito de centros de atrações para adultos e menores. Parece que devemos aos primeiros jornais uma ou outra nota muito sucinta, que disfarça de certo modo uma negligência não proposital. Geralmente o aspecto social da região - Manaus, por exemplo- não despertava a atenção do noticiarista nem mesmo a curiosidade do fotógrafo, do desenhista, oficial ou não. Somente a partir de 1870 (naquela altura Manaus já possuía seis fotografias) é que se fala em Pastorinhas, posto que o bumbá fosse notado desde 1787.

De 1865, mais ou menos, são as notícias na imprensa sobre bailes carnavalescos em sedes de clubes, fazendo-se notabilizar o carnavalesco Joaquim José da Silva Pingarilho, que explorou a mina de ouro durante vinte anos, com pouca concorrência. Isto não significa que o ambiente social daquela época para trás não comportasse um derivativo erótico tão animado como a dança. O índio sempre foi festeiro, e o caboclo, seu imediato, ao construir a casa reserva sempre a sala para os dançarás. Naquele tempo os habituês das festas eram obrigados a levar suas cadeiras, pois o Pingarilho e outros não eram de muitas mordomias.

Depois das animadas festas carnavalescas assume a liderança, por muitos anos, o teatro, que aliás sempre foi uma fórmula de expressão social mesmo entre as populações indígenas, que não usando a tecnologia comunicada pelos portugueses, desde o descobrimento, faziam-no através os vários rituais em que tomava parte toda a comunidade. O primeiro teatro coberto, construído de palha - "Thalia" - (e crismado de "Porco Espinho") ficava no sítio da praça de Tamandaré, esquina das hoje ruas de Miranda Leão e Marquês de Santa Cruz. Chamavam-no assim por causa das pontas da palha viradas para cima por influência do sol. Depois dele foi construído o de madeira, chamado "Éden Theatro", do mesmo Pingarilho associado ao sr. José Casemiro do Prado. Nesse começaram a aparecer companhias líricas europeias, francesas, italianas e portuguesas, e fez-se perfeita "diva" a senhora Eufrásia. Parece que foi nele que se representou a tragédia "A Calúnia", original de Casemiro do Prado. Depois do "Éden Theatro" veio o "Apolo" já de cantaria de pedra, localizado onde hoje é os fundos da Loja Bemol. O teatro parece haver sido a coqueluche dos animados habitantes de Manaus, que nunca o perderam de vista, valorizando-o até que em 1881 se definisse por um teatro maior e mais luxuoso.

Apesar do seu isolamento como simples Comarca e depois Província, a região possuía atrativos que variavam de tempo e de lugar, salientando-se as diversões familiares. Manaus possuiu um velódromo (praça do Rio Branco), Carrocel (mesmo local), Recreio Aurora, onde se corriam touros (atrás da futura Penitenciária), balneários públicos (Cachoeira Grande, Pancada), e particulares, circos itinerantes, "gabinetes physicos", onde os charlatães pescavam coelhos de cartolas, saraus com quadrilhas à francesa e rural, os cotillons, os "salões de leitura", particulares, as bibliotecas, os museus. O mais importante desdes era o Museu Botânico, dirigido pelo dr. João Barbosa Rodrigues. Na entrada do século surgiu o Jardim Zoológico, de propriedade e direção do súdito francês Mr. Pressier, estava localizado em casarão da rua de Belém, próximo ao Entroncamento, numa área bastante ampla, mas não possuía muitas espécies estranhas ao meio, somente um velho leão, e pavões reais que haviam sido adquiridos do espólio do dr. Eduardo Ribeiro. Havia uma anta domesticada, que servia para passear crianças e obter-se fotos originais.

O fonógrafo, primeira manifestação do que seria o gramofone, depois a vitrola e mais tarde a eletrola, funcionava em casa particular da praça dos Remédios. Afastado do centro urbano, a casa "Bilhares", que deu nome ao bairro, do barão de Floresta Bastos, atraía nos domingos e feriados uma multidão de aficionados do bilhar. Existe uma boa fotografia de 1914, mostrando a casa rústica e no pátio uma profusão de autos Ford, o que vem desmentir a irritante premissa de que em Manaus "não havia muitos carros motorizados" e a população só se deslocava a pé ou em montaria. De fato, todas as grandes famílias possuíam de preferência seus landoletes, seus tilburis, suas charretes, suas seges de uma parelha, suas berlindas, mas era também notória a invasão dos automóveis. E tinham os bondes elétricos, e antes dos bondes, a "machambomba", ou locomotiva que arrastava vagões de madeira. Não tivemos bondes puxados a parelha de burros, como no Pará. Nós saímos da máquina a vapor - o locomóvel - cuja estação central ficava em casa da avenida de Epaminondas (lado da praça do General Osório) e terminal da antiga Estação de Bondes, à praça do Comércio.

O cinema surgiu na vigência do século, exibido no Teatro Amazonas, mas o decano dos cinemas foi o Politheama, localizado então na avenida de Eduardo Ribeiro, onde era a casa comercial Lojas Populares, do Braga. A firma Fontenele & Cia, francesa, construiu a sede do Politheama no antigo lugar denominado Pitiú, um chavascal drenado pela comuna, formado pelo igarapé dos Remédios. O Cine Odeon só surgiria mais tarde, para concorrer com o outro. O segundo Politheama era de armação "Império", coberto de corrugado inglês e consta que sua planta é da autoria do engenheiro arquiteto M. Pimentel, que planejou a estrutura do Hipódromo Amazonense.

O Politheama, como depois o Cassino Julieta, são pré-frabricados, e dos poucos materiais que resistiram ao impacto das soluções anti-estéticas do momento atual.

Resta-nos o trabalho de contestar, como inverossímil, quem dá o igarapé de Manaus, fim da rua Doutor Almino, como local de banho das famílias de Manaus. Que alguém ali tomasse banho não seria novidade, pois se sabe de afogamentos de rapazes que disputavam mergulhos, saltando do convés de navios ali ancorados, inclusive o colombiano "Narino". Mas alegar que aquilo era "ponto de encontro da sociedade amazonense" é pura invencionice, pois os locais de encontro das famílias eram os convescotes domingueiros na Cachoeira Grande e na Pancada. Ou nos balneários particulares, que existiram desde a metade do século XIX, conforme vamos tentar elucidar noutra lâmina desta coletânea de memórias avulsas.

FONTE: 

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Os divertimentos públicos de antanho. Manaus, Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto, 6° ed, n° 112, novembro de 2002.

CRÉDITO DA IMAGEM:

Acervo do pesquisador Ed Lincon

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Educandos: 161 anos do Alto da Bela Vista

Estabelecimento dos Educandos Artífices, instalado na antiga Olaria Provincial. FONTE: Manaus Sorriso

Neste dia 21 de agosto, o bairro de Educandos comemora 161 anos de fundação. Ele está Localizado na zona Sul de Manaus, em frente ao Rio Negro, limitado pelos bairros de Santa Luzia, Colônia Oliveira Machado, Cachoeirinha e Centro (ponte Pe. Antônio Plácido de Souza).

A origem desse bairro é ligada à criação do Estabelecimento dos Educandos Artífices, instituição educacional criada através da Lei N° 60, de 21 de agosto de 1856, onde eram ensinados os ofícios de tipografia, sapataria, carpintaria, alfaiataria etc. Estudavam nessa instituição jovens órfãos e de origem humilde. O nome pelo qual o bairro ficou conhecido é uma lembrança do antigo Estabelecimento dos "Educandos". Essa escola foi instalada no prédio da Olaria Provincial, no local conhecido como Barreira de Baixo.

De acordo com o Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município, de 1927, as primeiras ruas do local foram abertas em 1901, num total de 6, sob as ordens do superintendente Dr. Arthur Cezar Moreira de Araujo. Por meio do decreto n° 67, de 22 de julho de 1907, do superintendente interino Coronel José da Costa Monteiro Tapajós, a localidade de Educandos é batizada com o nome de Constantinópolis (Cidade de Constantino), uma homenagem ao governador da época, Constantino Nery.

Ainda com base nesse documento e nas informações do historiador Cláudio Amazonas, em 1908 a Intendência Municipal, sob os comandos do superintendente Domingos José de Andrade, através das Leis N° 487 (29 de fevereiro), 491 (4 de março), 507 (29 de maio) e 538 (9 de dezembro), dá a denominação das primeiras seis ruas que foram abertas no bairro:

A rua Norte/Sul n°1 passa a chamar-se Boulevard Sá Peixoto, "em homenagem ao sr. Senador Antonio Gonçalves de Sá Peixoto que tão relevantes serviços ha prestado ao Estado do Amazonas e especialmente à cidade de Manáos; As ruas Norte Sul n° 2 e 3 passam a chamar-se monsenhor Amâncio de Miranda e Innocêncio de Araújo; As ruas Leste/Oeste n° 1 e 2 passam a chamar-se Delcídio Amaral e Manuel Urbano; A que poderia ser a Norte/Sul n° 3, seria chamada pelo povo de Boulevard Rio Negro, pois se constitui a faixa marginal o bairro frente ao rio Negro. Quanto à praça, seria batizada de Dr. Tavares Bastos, advogado e político alagoano, morto no dia 3 de dezembro de 1875 em Nice, na França, que, dentre outros feitos importantes de sua vida, inclui-se a luta pela abertura dos portos do Amazonas ao comércio mundial e pela libertação dos escravos.

Após essas significativas mudanças, o bairro de Educandos necessitava integrar-se com o restante da cidade, localizada no Centro e na Cachoeirinha. Até então, o contato era feito através das catraias, com seus portos localizados nas ruas Delcídio Amaral e Manoel Urbano. O primeiro porto levava em direção à rua Lima Bacury; o segundo, rua dos Andradas.

Ponte Ephigênio Salles.

A integração do Educandos ao restante da cidade se deu por meio das pontes. Ao todo, em sua História, foram construídas três. A primeira começou a ser construída em 1927, no governo de Ephigênio Salles, sendo entregue à população dois anos depois, em 1929. Foi batizada com o nome do referido governador. Com isso, o Educandos estava conectado com o bairro da Cachoeirinha e, através desse, ao Centro.

Ponte Juscelino Kubitschek.

Em 1° de maio de 1959, o então governador, Gilberto Mestrinho, inaugurava a Ponte Juscelino Kubitschek, que esteve em Manaus para a inauguração. Essa ponte também ligava o bairro à Cachoeirinha. Sua construção se deu pelo aumento da demanda do tráfego na cidade, da ligação com a estrada do Paredão para o aeroporto de Ponta e Pelada e da Refinaria de Isaac Sabbá.

Ponte Pe. Antônio Plácido de Souza.

A terceira e última é a Ponte Pe. Antônio Plácido de Souza, que liga o Educandos, através da rua Delcídio Amaral, ao Centro, pela rua Quintino Bocaiuva. Começou a ser construída em 1972, na administração do prefeito Frank Lima, e foi concluída e inaugurada em 18 de outubro de 1975, na administração de Jorge Teixeira. Seu nome é uma homenagem ao primeiro vigário da paróquia de N.S.doPerpétuoSocorro.

Através da Lei N° 1469, de 7 de dezembro de 1979, de autoria do ex-vereador Alfredo Dias, do MDB, o bairro de Constantinópolis voltou a ser chamado de Educandos.


Lugares Históricos


Av. Leopoldo Péres - Com suas obras iniciadas em 1928 e concluídas em 1929, a "Estrada de Constantinópolis", como era conhecida na época, foi aberta pelos membros da Sociedade Sportiva e Beneficente de Constantinópolis, para facilitar o acesso dos moradores ao bairro da Cachoeirinha, através da ponte Ephigênio Salles. No final da Grande Guerra, com os Acordos de Washington encerrados e a nova queda dos preços da borracha, muitos nordestinos passaram a se alojar em subúrbios da cidade. A Estrada de Constantinópolis passou a ser habitada por essas pessoas, que passaram a instalar no local pequenos comércios. A presença dos nordestinos fez a estrada ficar conhecida como Estrada dos Arigós. Atualmente, a avenida mantém a tradição comercial, com inúmeras lojas de pequeno e médio porte.





Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - Em 1928, durante as obras da Estrada, foi construída uma pequena capela em madeira, dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O Pe. Antônio Plácido de Souza assume o Curato Provisório de Constantinópolis, que se tornou, em 15 de dezembro de 1941, Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A estrutura atual, de alvenaria, começou a ser construída em 1946, sendo concluída anos mais tarde. Está localizada na rua Inocêncio de Araujo.

Vila Cavalcante - Uma das primeiras construções em alvenaria do bairro, a Vila Cavalcante, construída em 1912, é um dos últimos prédios históricos do bairro. O nome é de origem de uma rica família de seringalistas do Juruá. Foi adquirida por Manuel Figueiredo de Barros, regatão, que a vendeu em 1935 para o comerciante Joaquim Ferreira da Silva. Em 1924, em suas dependências, funcionou o Grupo Escolar Machado de Assis e, na década de 1930, o escritório dos Correios. Atualmente o prédio pertence à Fundação Santa Catarina, organização religiosa da Igreja Católica. Está localizado no Boulevard Sá Peixoto.

Orla do Amarelinho - O calçadão, de frente para o Rio Negro, é o principal cartão postal do Educandos. De noite, é o point certo dos que querem se divertir nos bares e casas de dança que ficam ao redor. Fato marcante e trágico é que, às 9 horas do dia 23 de abril de 1970, a área que atualmente compreende o Amarelinho desmoronou, consequência de forte tempestade ocorrida um dia antes. Nenhuma pessoa morreu, ocorrendo apenas a destruição das residências de madeira e palha que existiam no local. Está localizado no Boulevard Rio Negro.

Usina Labor - Em 1938, o empresário Isaac Sabbá adquire um grande terreno na Estrada de Constantinópolis, construindo nele a Usina Labor, destinada ao beneficiamento de sorva e borracha. A mão de obra empregada nessa indústria vinha do próprio bairro. Nos anos 1970 foi transformada em Fitejuta, agora funcionando como tecelagem de juta. O prédio é onde funcionou, até 2014, um dos supermercados DB. Fica na Avenida Leopoldo Péres.


FONTES: AMAZONAS, Cláudio. Memórias do Alto da Bela Vista: Roteiro Sentimental de Educandos. Manaus: Norma Propaganda e Marketing, 1996.

Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município. 1927. Administração do prefeito Basílio Torreão Franco de Sá. Disponível em: http://catadordepapeis.blogspot.com.br/2015/08/livro-tombo-da-prefeitura-de-manaus-1.html. Acesso em 22/08/2015.

AMAZONAS, Cláudio. Constantinópolis: Origens e Tradições. Manaus: Edições Muiraquitã, 2008.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

Skyscrapercity
Blog do Coronel Roberto
Manaus Sorriso
Manaus de Antigamente

domingo, 20 de agosto de 2017

Patrimônios Históricos: Ensino, pesquisa, teorias e metodologias

O presente texto foi produzido pelo autor convidado Marcos Vinicius Alvarenga¹, acadêmico de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Em Patrimônios Históricos: Ensino, pesquisa, teorias e metodologias, Marcos procura problematizar, através de uma ampla discussão, a noção de patrimônio histórico, discussão essa relacionada aos sujeitos históricos, aos lugares de fala e aos discursos que foram e continuam sendo fabricados.

Marcos Vinicius Alvarenga

Cotidiano da Comunidade Quilombola do Alto da Serra, no Distrito de Lídice, no município de Rio Claro, região do Médio Paraíba do Rio de Janeiro. Foto de 2015.

Há um questionamento importante a ser feito: “Por que conhecemos o inventor da lâmpada, mas não conhecemos o inventor da canoa? ” Estamos diante de uma ferramenta extremamente sofisticada, capaz de manter um pescador e o fruto de seu labor ao longo do curso de rios caudalosos em demasia como os da bacia do Amazonas sem que o primeiro, seu condutor, se afogue!
Vamos levar a discussão um pouco mais adiante com outro exemplo: “Por que consideramos tão facilmente as casas brancas presentes nas elevações das ilhas gregas do Mediterrâneo como ‘patrimônio’, mas não o fazemos para com os cortiços ou as casas da comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro?” Ora, se pintarmos as da última localização e tirarmos uma foto poderia até ser confundido um espaço com o outro! E, para encerrar a sessão de perguntas, faço uma terceira “Por que as vestes de um monarca europeu são cuidadosamente preservadas, ao passo em que as de um escravo de origem africana do século XIX não?”
O objetivo deste artigo é problematizar em cima destas indagações, evocando uma discussão mais ampla acerca do que são patrimônios históricos, com base em exemplos fornecidos por outros escritos, como o magnífico trabalho do professor Gerson Rodrigues de Albuquerque, os “Trabalhadores do Muro, o rio das cigarras”, que estabeleceu um perfeito diálogo com suas fontes; mais do que fontes, Gerson deu voz a sujeitos! Sujeitos em meio a suas vivências, agentes ativos de sua própria história e não marionetes de um teatro estruturalista em que são submissos aos seus dominantes.
Gerson não fez uso de um monólogo do historiador 100% objetivo, o cientista que conta as coisas “Tal como aconteceu”, e o “narrador”, mas estabeleceu um verdadeiro diálogo mútuo. Marcos Silva, ao tratar-se do primeiro caso, afirma: “Narrações orais e outros itens de patrimônio histórico, quando assim tratados, são metamorfoseados em cadáveres dissecados pelo analista, sem se estabelecer um diálogo entre as partes, que poderia ser esclarecedor para ambas. “ (SILVA, p 42)
Cabe a nós, com nossos trabalhos de PIBIC, nossas monografias e futuramente, nossos trabalhos de mestrado e doutorado, dar voz aos mais diversos sujeitos (que também constituem um patrimônio!). Por que não fazer uma história das crianças que moram na rua? Ou uma história das empregadas domésticas? É preciso rememorar os esquecidos do passado, tal como apontou Walter Benjamin em suas “Teses sobre o conceito de História”. Mesmo que muitos do curso de História possuam como objetivo somente a sala de aula (ensino fundamental e médio) isso também se faz necessário, diria que ainda mais necessário! Os alunos e alunas precisam ter a consciência de que a História é muito mais que um marechal que “proclama” uma república, e que ele e seus pais, que são trabalhadores, também são sujeitos históricos.
Antes de tratarmos de patrimônio de forma mais ampla é necessária uma discussão acerca do que chamamos de “fontes”. De acordo com a abordagem inicial do livro “A Pesquisa em História”, uma parceria de Maria do Pillar, Maria do Rosário e Yara Maria, durante o século XIX, quando a História ganha um status de “ciência” pelos positivistas, a palavra “documento” passa a ser usada como sinônimo de prova científica. Como documento, no sentido positivista da palavra, entendemos o que é escrito, e não é qualquer escrita, mas sim aquela emitida pelos governos, em síntese, nestes é que reside a “verdade”.
Isso configura algo demasiadamente problemático pois, supõe que a História é feita somente por grandes heróis, onde estão as mulheres, os trabalhadores e as crianças nessas narrativas? Outro grande problema nisso é a negação de história a povos que relatam suas trajetórias não por uma via da escrita, mas por uma rica oralidade. É dizer, por fim, que os griots, mestres da tradição oral no continente africano, não possuem história. Estariam eles eternamente condenados pela afirmação de Friedrich Hegel de que o continente africano não possui história?
Com contribuições como a da Escola dos Annales, a História passará a abarcar aspectos sociais, para além desses “grandes homens”, como estudos sérios acerca dos campos, como foi o caso de Marc Bloch, este que em seu livro “Apologia da História ou o Ofício do historiador” defende que a história é a ciência dos homens, mas que diferente da Sociologia ou da Antropologia, tratam deste homem no tempo.
Neste bojo, a escrita da História passa a estar lastreada em qualquer vestígio humano, desde a literatura de um dado período, como também a música, o cinema, e a própria história oral. Além de todo este advento, supera-se a ideia de que o “documento fala por si mesmo”, é preciso fazer perguntas a ele. Entender, por exemplo, que não se vai retirar um mero reflexo de uma dada sociedade em uma obra literária, mas sim uma expressão das representações acerca desta.
Um relato de viajante, outro tipo de fonte, não nos mostra a “verdade absoluta”, mas sim a forma como aquele viajante representou aquele dado local ao qual esteve ciente, com seus preconceitos e valores. Ninguém é isento! Nem mesmo o historiador que escreve um dado texto, a forma como este visualiza a realidade se reflete muito na sua escrita.
Considerei de suma importância para a discussão acerca de patrimônio a abordagem realizada no livro “A Pesquisa em História” sobre a condução de uma pesquisa. Ela se encaixa perfeitamente ao Gerson Rodrigues e da forma como este o conduziu, de modo a abarcar com mais vida o seu objeto. Como ressaltei no início, mais do que uma “fonte friamente analisada”, o professor da Universidade Federal do Acre reconstituiu vivências de pessoas que “tem nome e tem rosto”, como o sr Francisco e do sr Maurício em suas vivências naquela mata em torno do rio Muru, este que, é de fato um patrimônio histórico, conforme abordarei mais adiante com profundidade maior.
Retomando à obra metodológica e teórica, sua abordagem sobre a condução de uma pesquisa, nos é feito um importante alerta acerca do diálogo com as fontes. Muitos trabalhos fazem uso de um “método prévio” tal como uma “receita de bolo”, para que assim se possa analisar suas fontes, percorrendo um caminho com início, meio e fim, herança, segundo as autoras, cientificista do século XIX: “ Esta forma de se conceber a pesquisa histórica supõe uma submissão do historiador, tanto aos procedimentos do método como aos recursos da técnica, pois a ênfase recai nos procedimentos do pesquisador em detrimento de sua relação com o objeto”. (p 40)
Mais adiante, evoca os argumentos do historiador Ciro Flamarion Cardoso, afirmando que as perguntas que devemos fazer as fontes devem ser feitas não nas fontes em si, mas antes baseadas em arcabouços teóricos e metodológicos prévios. As autoras fazem um contraponto a isso, defendendo um diálogo ainda maior com as fontes a fim de dar sequência com um bom trabalho.
Não cabe, vale lembrar, se desvencilhar de quaisquer métodos ou “base teórica”, Gerson Rodrigues, por exemplo, dialoga com Thompson em sua valorização da experiência dos trabalhadores do rio Muru, mas sim não serem esses os nortes pelos quais uma pesquisa seguirá; acrescentaria que é preciso que esses arcabouços não ofusquem esses “esquecidos” que, como ressaltados, são sujeitos de sua própria história!
Certa vez, um professor da graduação (o nome e a disciplina ministrada serão resguardados por questões éticas), contou de um caso em que foi chamado para uma banca de mestrado, cujo trabalho se propunha a abarcar as vivências dos seringueiros. Ao ler o trabalho da mestranda, tudo o que pode ver nele eram “teorizações mirabolantes” sobre as ideias de Bourdieu e Foucault. “Mas menina, onde estão suas fontes? Que que o Bourdieu entende se seringueiros?!”
Na anedota acima, muitos graduandos interpretaram o docente como se estivesse censurando o uso de teóricos, ou, mais especificamente, desses dois teóricos. Isso é cair em um grande engano: sua crítica se relacionava com a feita pelos demais autores aqui mencionados: a censura a trabalhos onde você parte muito da teoria para a prática, ou à aqueles em que você só fica na teoria e não aborda os patrimônios históricos no que eles são, em um contato que remete até mesmo a afetividade.
Podemos fazer um paralelo entre a noção tradicional de documento como algo escrito, e escrito por pessoas “relevantes”, e que prova com a noção de patrimônio histórico como estritamente arquitetônico.
Quando falamos em patrimônio histórico muito provavelmente o que vem na mente de uma pessoa é o Teatro Amazonas, o Teatro Municipal de São Paulo (o próprio Marcos Silva o explora como exemplo em seu texto), ou o famoso Cristo Redentor. Dificilmente as pessoas reconheceram como patrimônio um sotaque, uma determinada festividade, ou (retomando para o exemplo inicial) uma canoa. No entanto, Marcos Silva nos adverte que essa diversificação não deve ser confundida com a diversidade de temas abordados pelos historiadores: “(...) está-se diante de fazeres sociais. Para cada material interpretado, há um contato com lutas, acordos, potencialidades, limites. ”
Ele faz este alerta sobretudo para os relatos orais, como já mencionado e citado anteriormente para se referir ao trabalho de Gerson. E mais do que isso, a canoa usada por esses sujeitos, sua fala, suas histórias da mata, a forma como executam o trabalho, todos são patrimônios que contém trajetórias de vida imbuídas.
Marcos Silva aponta para a não separação de patrimônio histórico de ensino de história, mostrando como ambos estão inteiramente ligados. São, segundo ele, partes de um mesmo processo, onde se procura
(...) evidenciar múltiplas virtualidades e opções contidas no ensino de história como experiência que abrange o domínio ampliado sobre um campo erudito e o diálogo com os universos de vivências sociais dos grupos humanos estudados e daqueles que o estudam. “ (SILVA, p 40).
Eis a importância inclusive de se estabelecer um diálogo em sala de aula sobre a própria noção de patrimônio a fim de destruir este “lugar comum” que o define como um elemento arquitetônico, na grande maioria algo que de fato é pertencente à elite, em que muitas vezes o aluno de uma família proletária não o identifica com suas vivências e tradições; ao ampliar o leque deste debate, se evidencia que elementos banalizados, como sua fala, também se trata de um patrimônio histórico.
Marcos Silva trata disso no exemplo do Teatro Municipal de São Paulo, local criado especificamente para a elite no século XX e que, ainda hoje, mesmo com atrações gratuitas, muitas pessoas humildes possuem uma certa vergonha de assistirem a um espetáculo; é possível fazer um paralelo deste exemplo com o Teatro Amazonas, onde de fato há muitas atrações gratuitas nos dias atuais, mas que muitos manauaras possuem receio de assistirem às atrações.


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, Gerson Rodrigues de. Trabalhadores do Muru, o rio das cigarras. Rio Branco/AC, EDUFAC, 2005.
BLOCH, Marc. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Rio de Janeiro/RJ, Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro/RJ, Jorge Zahar, 2008.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo/SP, Selo Negro, 2005.
SILVA, Marcos. História: o prazer em ensino e pesquisa. São Paulo/SP, Brasiliense, 1995.
VIEIRA, Maria do Pilar; PEIXOTO; Maria do Rosário; e KHOURY, Yara Aun. A Pesquisa em História. São Paulo/SP, Ática, 1989

SOBRE O AUTOR

¹ Marcos Alvarenga é graduando em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Seus interesses de pesquisa remetem ao estudo da nacionalidade através da literatura em África, a negritude e a presença negra na Amazônia.









CRÉDITO DA IMAGEM:

www.ceert.org.br